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Alexandre Chiure
Já não constitui surpresa para mim, como moçambicano, quando o governo do meu país fica no silêncio perante incidentes no estrangeiro envolvendo alguns dos nossos compatriotas. Infelizmente esta é a forma de ser e estar dos nossos governantes. Só reagem depois de críticas atrás de críticas ou depois de pressão exercida pela comunicação social e a sociedade civil em geral, exigindo o seu posicionamento.
Entre 2000 e 2001, seis polícias sul-africanos de cor branca utilizaram imigrantes moçambicanos como cobaias num treino de cães de ataque. Foi uma autêntica brutalidade. Ficamos à espera da reacção do governo do dia e esta tardou a acontecer. Os polícias foram detidos após filmagens a denunciarem o caso.
Em 2013, um jovem taxista moçambicano, Emídio Macie, foi agredido brutalmente, amarrado e arrastado pela polícia sul-africana em Daveyton, perto da cidade de Joanesburgo. Ele contraiu ferimentos graves, hemorragias internas e morreu nas celas. O país ficou à espera da reacção das autoridades moçambicanas e esta tardou a ser feita.
O executivo moçambicano chegou a ser acusado de tentativa de persuadir a família do malogrado para retirar as acusações de homicídio premeditado imputadas à polícia sul-africana para preservar as relações de amizade e cooperação com a África do Sul, facto que foi refutado pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Oldemiro Balói.
No ano passado, um grupo de 23 jovens moçambicanos caiu numa rede de tráfico humano e trabalho forçado. Atraído por promessas de emprego e melhores condições de vida em Laos. Foram publicados alguns vídeos nas redes sociais e em alguns canais de televisão nacionais a reportarem o sofrimento e a insegurança do mesmo.
Ficamos à espera da reacção do governo do dia no sentido de resgate dos compatriotas e ela, como sempre, tardou a acontecer. Mesmo depois de as imagens passarem nas telas, a indiferença continuou a ser dominante. Durante cerca de dois meses, foi sendo dito que “estamos a monitorar a situação”. 16 deles foram repatriados pela Organização Mundial de Migração e os restantes sete sumiram.
Em 2019, a África do Sul viveu uma das suas piores vagas de violência contra imigrantes de países africanos, em particular moçambicanos, resultando na invasão de lojas, pilhagens, destruição de bens e violência física. Centenas de compatriotas foram atacados e perderam todos os seus haveres. Se perguntarem-me qual foi o posicionamento do governo do dia face aos maus tratos, teria dificuldades em responder.
A África do Sul está, de novo, debaixo da violência contra as mesmas vítimas: imigrantes africanos provenientes de Moçambique, Zimbabwe, Lesotho, Eswatini, Malawi, Nigéria e de outros países. Depois de muito barulho e de passarem três semanas, mandaram a secretária de estado dos Negócios Estrangeiros falar à imprensa.
Para a minha decepção, ela não só não disse qual era o posicionamento de Moçambique face a esta situação, como não sabe o que é que significa “afectar”. Disse que nenhum moçambicano está afectado pela violência, o que não corresponde à verdade. Todos nós estamos, directa ou indirectamente, afectados pelo incidente. Além disso, há pelo menos quatro casos de morte.
Não digo que o governo devia ter ordenado a suspensão das ligações comerciais, ferroviárias, rodoviárias e portuárias com a África do Sul, nem o encerramento da fronteira de Ressano Garcia, a maior do país, responsável por 50 por cento das receitas fronteiriças, porque nós seríamos os maiores prejudicados de acções retaliatórias. Não produzimos nada, quase tudo vem da terra do Rand.
O que esperava, no mínimo, era que tivesse, pelo menos, vendido a imagem de um país preocupado com a segurança dos seus cidadãos. Um país de punhos fechados a exigir ao governo sul-africano o fim das hostilidades contra os seus cidadãos para que estes se sintam protegidos, amados e acarinhados pelo Estado. Infelizmente não é isso o que eu vi no rosto da secretária de estado dos Negócios Estrangeiros. Vi um à vontade, como quem diz ‘relaxem, não há nenhum problema’, o que é mau.
A violência que se verifica, nestes dias, na África do Sul está longe de ser xenofobia. Os ataques dos sul-africanos incide, somente, sobre os imigrantes de origem africana que vivem e trabalham no país. Os cidadãos de cor branca, não são mexidos, o que me leva a concluir que estamos perante uma afrofobia.
Os imigrantes estão a ser usados como bode expiatório ante problemas internos sérios que afectam aquele país e que estiveram por detrás do fracasso do Congresso Nacional Africano (ANC) nas últimas eleições legislativas de 2025 em que, pela primeira vez, não conseguiu obter a maioria para formar o governo, terminando nos 40 por cento.
A primeira grande preocupação é a pobreza. Mais de 10 milhões dos sul-africanos vivem abaixo da linha da pobreza alimentar. Não conseguem pagar o mínimo necessário para a ingestão diária de energia. Por outro lado, 66,7 por cento dos 65 milhões dos sul-africanos, equivalentes a 40.8 milhões de pessoas, não consegue cobrir as necessidades alimentares e não só.
Os níveis de desemprego são alarmantes. Cerca de 35 por cento da população negra não tem nenhuma ocupação. A nível da juventude, um em cada dois jovens não trabalha. A taxa nacional de desemprego é de 31,9 por cento.
A África do Sul debate-se, igualmente, com a criminalidade, desigualdades sociais, falhas na prestação de serviços básicos como saúde, habitação e saneamento, culpabilizando estrangeiros, a crise de energia caracterizada por apagões e o legado do apartheid de que os imigrantes vêm disputar os parcos recursos com os sul-africanos.
A falta da resposta para estas preocupações, que se arrastam há alguns anos, fez com que o ANC, no poder desde 1994, com a eleição de Nelson Mandela como presidente da África do Sul, perdesse popularidade e haja descontentamento generalizado no país.
Dizer que o problema está com estrangeiros é não querer aceitar esta realidade. África do Sul não está bem consigo mesmo. Antes de culpar quem quer que seja, o governo do empresário Cyril Ramaphosa tem que melhorar as suas políticas de governação tendentes à busca de soluções para questões que apoquentam os sul-africanos.



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