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Num país onde a guerra em Cabo Delgado já atravessou governos, ciclos diplomáticos e múltiplas promessas de estabilização, talvez o mais inquietante não seja apenas o custo financeiro do conflito, mas o facto de os moçambicanos continuarem a descobrir os seus contornos mais sensíveis através de vozes estrangeiras. De novo, foi Kigali a revelar detalhes sobre os entendimentos financeiros ligados à presença militar ruandesa em Moçambique. E isso diz muito sobre a forma como o Estado moçambicano comunica, ou escolhe não comunicar, sobre assuntos estratégicos.
As recentes declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, vieram confirmar aquilo que durante muito tempo permaneceu envolto em silêncio governativo e, como efeito de tempo, até já nem nos lembrávamos. Havia um mecanismo de financiamento associado à operação militar ruandesa em Cabo Delgado, sustentado também por recursos financeiros provenientes de Maputo.
Lembre-se de que, até Agosto de 2024, Ruanda recebia entre dois e três milhões de dólares mensais. Coincidentemente, foi também nesse período que Max Tonela deixou o Ministério da Economia e Finanças. Depois disso, as transferências terão sido interrompidas. Não houve explicações públicas. Não houve prestação de contas. Não houve sequer um enquadramento oficial sobre o modelo de financiamento de uma operação militar estrangeira em território nacional, soube-se apenas de interrupção, talvez porque o descontentamento é mais barulhento, quando os assuntos são diplomáticos.
E quando a informação não vem de dentro, ela chega de fora. Quando o Estado não comunica, abre espaço para especulação. E especulação, em matéria de soberania, defesa e dinheiro público, transforma-se rapidamente em desconfiança.
A questão central não é discutir a relevância da presença ruandesa em Cabo Delgado. Para muitos sectores, é inegável que a intervenção militar do Ruanda produziu resultados operacionais importantes num momento em que o Estado moçambicano parecia incapaz de conter o avanço insurgente. O debate sério começa quando se pergunta: Em que termos? Com que custos? Até quando? E financiado por quem?
O problema agrava-se porque quase tudo o que é relevante sobre este dossier parece ser conhecido primeiro fora de Moçambique. Foi assim com os entendimentos militares. Foi assim com as negociações diplomáticas. É agora assim com os detalhes do financiamento. Os moçambicanos vão montando o puzzle através de entrevistas concedidas em Kigali, Bruxelas ou Washington, enquanto Maputo permanece num silêncio que tenta justificar-se com o argumento das “questões operativas”.
Mas nem tudo pode ser escondido atrás do conceito de segurança nacional. Há uma diferença entre sigilo operacional e ausência total de transparência política. Um país democrático não pode tratar indefinidamente matérias que envolvem recursos públicos, compromissos internacionais e presença militar estrangeira como se fossem segredos exclusivos de círculos restritos do poder.
A ausência de informação também cria outro problema, especialmente porque impede o escrutínio sobre a sustentabilidade financeira da própria operação. Afinal, a garantia agora anunciada por Kigali significa exactamente o quê? Que Moçambique vai assumir integralmente o défice deixado pela retirada do financiamento europeu? Ou trata-se apenas da retoma de pagamentos anteriormente suspensos? Qual é o montante? Qual é a duração do compromisso? Há impacto directo sobre as já frágeis contas públicas?
Nenhuma dessas perguntas é irrelevante. Pelo contrário. Num contexto em que o país enfrenta dificuldades severas para financiar sectores básicos como saúde, educação, combustível e transporte público, é natural que os cidadãos procurem compreender como o Estado prioriza os seus recursos e compromissos externos.
O silêncio institucional talvez seja, hoje, um dos maiores aliados da desinformação. Porque quando o vazio domina, cada declaração externa ganha peso de verdade oficial. E assim consolida-se uma percepção de que os moçambicanos só conhecem as decisões mais importantes sobre o seu próprio país quando estas são anunciadas por terceiros.
No fim, o problema não é apenas financeiro. É político. É comunicacional. E é, acima de tudo, um problema de soberania narrativa.



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