Governo cede e abre capítulo para dias difíceis para os moçambicanos

DESTAQUE ECONOMIA
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  • Regresso do FMI vem com preço: dólar vai subir e custo de vida deve disparar
  • Corredores do Governo já governam com pomba e circunstância regresso do FMI
  • Mas desvalorização do metical poderá atingir níveis históricos e próximo dos 100
  • Combustíveis podem voltar a subir e o preço de importações será insuportável

Moçambique aproxima-se de um novo ciclo de agravamento do custo de vida. Embora o Governo ainda não tenha anunciado formalmente qualquer medida de desvalorização cambial ou aumento dos combustíveis, vários sinais económicos apontam para uma deterioração das condições de vida das famílias nos próximos meses. O fenómeno já começou a ser sentido nos mercados, onde alguns produtos de primeira necessidade registam aumentos de preços antes mesmo de qualquer formalização. Nos corredores do Governo tem sido anunciado com pompa e circunstância o regresso do Fundo Monetário Internacional (FMI) cuja missão estará em Maputo nos dias 8 e 12 de Junho de 2026, para avaliar os desenvolvimentos económicos recentes e discutir formas de apoio futuro ao país. A desvalorização do metical tem sido uma das recomendações e espera-se que o termo de rendição do Governo, que até bem pouco tempo considerava o assunto sensível, poderá ser entregue ao chefe da missão Pablo López Murphy, abrindo espaço para dias difíceis para os moçambicanos. A visita acontece num momento em que o Governo moçambicano negocia um novo programa de apoio financeiro e técnico com o FMI, após contactos realizados nos últimos meses e o pagamento antecipado de parte significativa da dívida ao organismo. Mas foi na reunião do verão, em Abril, que a ministra das Finanças, Carla Alexandra Fernandes Loveira, foi abordada sobre os condicionalismos para o regresso do FMI, num contexto em que Moçambique estava convencido de que o pagamento integral daria vantagem para novas negociações.

Nelson Mucandze

Um saco de sabão em pó de dois quilogramas, que há poucas semanas custava cerca de 240 meticais, já é vendido por aproximadamente 300 meticais em vários estabelecimentos comerciais. O mesmo acontece com a cartela de ovos, cujo preço passou de cerca de 270 para 300 meticais. Por enquanto, os produtos que permanecem nos preços anteriores são essencialmente aqueles adquiridos com base em stocks antigos, comprados antes da actual pressão cambial. À medida que os comerciantes repõem os seus armazéns, os novos custos começam a reflectir-se nos mercados de Zimpeto, onde as classes mais humildes fazem compras.

Para milhares de famílias, estes números representam mais do que simples estatísticas económicas. Representam refeições reduzidas, escolhas difíceis entre alimentação e transporte, ou mesmo a impossibilidade de adquirir produtos básicos para o quotidiano.

Enquanto isso, a informação oficial continua escassa. Quem procurar hoje explicações detalhadas sobre a estratégia do Governo para enfrentar a actual conjuntura económica encontrará muito pouco.

No portal do Ministério das Finanças, um dos poucos documentos disponíveis continua a ser a Estratégia de Gestão da Dívida. Sobre os desafios imediatos relacionados com a estabilidade cambial, inflação, disponibilidade de divisas e perspectivas de crescimento, praticamente não existem esclarecimentos públicos consistentes.

Mesmo sem formalidades, o metical ressente-se da pressão

A falta de comunicação torna-se particularmente relevante num momento em que diversos indicadores sugerem que o metical já está a sofrer uma desvalorização na prática, mesmo sem um anúncio formal.

Um dos sinais mais evidentes surge no mercado cambial. Desde o ano passado tornou-se mais fácil encontrar dólares no mercado paralelo do que nos bancos comerciais. Enquanto nas instituições bancárias a moeda norte-americana continua oficialmente cotada em torno dos 64 meticais – cifras consideradas artificialmente fixadas pelo Banco Central, quando na realidade o dólar já devia custar mais de 91 meticais -, no mercado informal já circula a cerca de 74 meticais, com tendência a subir.

Fontes do sector financeiro descrevem uma situação anormal. Segundo explicam, há momentos em que a disponibilidade de divisas nos bancos é extremamente limitada, levando cidadãos e empresas a procurarem alternativas fora do sistema formal. Em consequência, o mercado paralelo ganha força e passa a funcionar como verdadeiro regulador dos preços reais da moeda estrangeira.

Quando a diferença entre o valor oficial e o valor praticado no mercado informal se torna tão significativa, os agentes económicos começam naturalmente a ajustar os seus preços antecipadamente, prevendo custos futuros mais elevados para a importação de mercadorias.

Num país fortemente dependente de produtos importados, uma desvalorização do metical significa praticamente um aumento generalizado dos preços. Combustíveis, medicamentos, materiais de construção, equipamentos industriais, peças automóveis e mesmo uma parte significativa dos produtos alimentares consumidos no país dependem directa ou indirectamente da disponibilidade de moeda estrangeira.

É precisamente neste contexto que cresce a expectativa de um novo ajustamento dos preços dos combustíveis, um cenário para o qual o Governo já começou, pouco a pouco, a preparar os moçambicanos.

“Quando eles são importados, significa que o veículo de importação utiliza combustíveis. Significa que esse mesmo veículo precisou de gastar mais do que gastava, se calhar, há dois ou três meses para comprar a mesma quantidade de combustíveis para trazer a mesma quantidade ou maior ou superior, no caso dos bens que trazia para abastecer o nosso mercado. O que isso vai resvalar em termos de consequência?”, questionou semana finda, Inocêncio Impissa, porta-voz do Governo de Moçambique.

Embora ainda não exista confirmação oficial, diversos operadores do sector consideram praticamente inevitável uma revisão dos preços caso a tendência cambial se mantenha. O próprio governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, já começou a emitir sinais que reforçam as preocupações sobre o agravamento do custo de vida. Na mais recente reunião do Comité de Política Monetária, a instituição reviu em alta as perspectivas de inflação e admitiu que a mesma poderá atingir níveis de dois dígitos no médio prazo. Nos últimos meses, o próprio discurso das autoridades monetárias tem vindo gradualmente a preparar a opinião pública para um cenário de maior flexibilidade cambial, linguagem técnica frequentemente utilizada para descrever processos de ajustamento da moeda nacional.

Mas por que razão Moçambique parece caminhar nessa direcção?

Parte da resposta encontra-se na relação do país com o FMI. Nos últimos meses, o Governo tem procurado restabelecer níveis mais elevados de cooperação com o FMI, instituição considerada fundamental para restaurar a confiança internacional na economia moçambicana. Para um país altamente dependente de financiamento externo, o aval do Fundo funciona muitas vezes como um selo de credibilidade junto de outros credores e investidores.

Não é apenas o FMI que observa as contas públicas moçambicanas. Parceiros bilaterais, bancos internacionais, instituições multilaterais e até financiadores asiáticos acompanham atentamente os sinais emitidos por Washington. Sem uma relação estável com o FMI, o acesso a novos financiamentos torna-se mais difícil e mais caro.

O problema é que esse apoio normalmente vem acompanhado de exigências. Entre as medidas frequentemente recomendadas estão o reforço da disciplina fiscal, a contenção da despesa pública, a redução dos desequilíbrios orçamentais e a adopção de políticas cambiais consideradas mais alinhadas com as condições reais do mercado.

Na prática, isso significa decisões difíceis. Num Estado que já enfrenta atrasos de pagamentos a fornecedores, dificuldades para acomodar aumentos salariais e limitações orçamentais em vários sectores, o espaço para soluções politicamente confortáveis tornou-se extremamente reduzido.

O problema é que os impactos destas decisões raramente são distribuídos de forma igual. Para os grandes operadores económicos, uma desvalorização representa um desafio de gestão financeira. Para uma família que vive com rendimentos limitados, representa a perda imediata de poder de compra. Quando o combustível sobe, sobe também o transporte. Quando sobe o transporte, aumenta o custo dos alimentos. Quando aumentam os alimentos, diminui a capacidade de poupança das famílias. O efeito espalha-se por toda a economia como uma cadeia de reacções sucessivas.

O drama é que muitos moçambicanos já chegam a este novo ciclo económico numa posição extremamente fragilizada. Os salários permanecem praticamente estagnados, o emprego formal cresce lentamente e o custo de vida já vinha acumulando aumentos significativos desde os últimos anos. Para milhares de agregados familiares, não existe margem financeira para absorver novos choques.

Apesar da gravidade da situação, o debate público continua marcado pela escassez de informação oficial. Questões fundamentais sobre o rumo da política económica, as negociações com parceiros internacionais e as medidas previstas para proteger os sectores mais vulneráveis permanecem sem respostas claras.

Entretanto, os preços começam a falar por si. E quando os preços começam a mover-se antes dos comunicados oficiais, normalmente significa que os mercados já perceberam aquilo que os cidadãos ainda aguardam que o Governo explique.

Se os sinais actuais se confirmarem, os próximos meses poderão marcar o início de um período particularmente difícil para os moçambicanos. Um período em que o desafio deixará de ser apenas compreender a economia, para passar a ser sobreviver ao seu impacto no dia-a-dia.

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