O Fim do Amor Romântico III: O Desnorte

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

É aceitável postular que a pós-modernidade mudou, por completo, o paradigma das nossas relações afectivas. Desde a pandemia da Covid-19, provavelmente, corroboramos todos com a visão que Marshall McLuhan teve em 1960: o mundo como uma “grande aldeia global”. Estamos totalmente interligados.

A informação está em todo lado e, de certo modo, aberta ao questionamento, num debate quase sempre superficial e aparentemente livre, que desafia as formas convencionais da comunicação e, no geral, a posição da ciência.

O perfil do homem moderno, evidentemente, sofre influências destas mudanças na Europa, em África, na América ou na Ásia, num processo que, atravessando fronteiras, é questionada a capacidade do Homem pós-moderno de responder às exigências dos novos ventos.

Mais do que o direito à opinião, as pessoas hoje procuram, embora a desorientação colectiva, uma posição activa na nossa construção individual e colectiva da sociedade, debatendo e questionando, dentro dos seus limites epistemológicos, o que um dia foram as verdades objectivas.

É a estrutural alteração do perfil social do homem pós-moderno, que, só nos últimos 50 anos, viveu um pouco de tudo: guerras sistémicas, pandemia e transformação tecnológica e digital. O resultado, à luz dos novos ventos, é o questionamento da fundamentação de qualquer conceito que o homem pressupôs entender.

Esta alteração estrutural tem impacto até nas nossas relações afectivas, que se vêem espicaçadas e, sob o espetro de um profundo questionamento, desfazem-se aos pés do homem desesperado dos nossos tempos, revelando a debilidade de um protótipo que fracassou perante o mais enigmático mistério de sempre, o tempo.

Em 1983, Gianni Vattimo, um dos principais expoentes da filosofia pós-modernista europeia, classificou este período como a Época do Pensamento Débil, denunciando o fim da metafisica tradicional moderna e o declínio das “Metanarrativas”, sob óbvia influência de Jean-François Lyotard, outro importante pensador da época.

Na hermenêutica Nietzschiana, é a Radicalização – a subversão da “moral de rebanho” que, consequentemente, desagua no Niilismo.

É nesta conjectura que o Amor Romântico se desfaz na pós-modernidade. O “Amor Romântico” a que me refiro neste texto é a construção histórica e cultural ocidental que, por séculos, fundamentou as nossas relações sociais, definindo um quadro de valores padronizados que passou a ser assumido como “universal”.

Tratou-se de uma invenção histórica necessária postulada na antiguidade clássica e recuperada na modernidade iluminista, sob protecção das grandes instituições sociais (Estado, Religião e Família), na conjuntura de um projecto falhado de construção de um homem com raízes afectivas mais seguras e relações humanas mais duradoiras.

Tal como a ideia de Deus, o “Amor Romântico” nunca foi um elemento colectivo e concreto, pelo contrário, é uma criação subjectiva e abstracta, em que cada um deposita o seu significado particular e/ou colectivo.

Ora, se o “Amor Romântico” fracassou, a crise é iminente. Mais do que uma crise de valores, trata-se de uma crise de referências, na medida em que descobrimos que a verdade que pensamos conhecer é uma fantasia, não havendo valores ou verdades universais.

Os alicerces que, por séculos, padronizaram e fundaram o código cultural das nossas relações afectivas mostram-se débeis perante o novo mundo, justificando, em muitos casos, as cíclicas desilusões nas nossas relações afectivas e este vazio colectivo que nos tomou, do Ártico à Antártida.

Confrontados com o novo paradigma, a aflição toma conta de nós e, sem qualquer reflexão, abraçamos a primeira ideia que nos parece minimamente plausível, muitas vezes dogmatizando-a para garantir uma legitimidade inexistente.

Amamos o primeiro/a (ideia ou pessoa) que nos parece próximo/a das nossas idealizações, sem um posicionamento crítico e sem, pelo menos, questionar o que realmente é amar.

Em 2003, Zygmunt Bauman diagnosticou este período como a Era do Amor Líquido, um tipo de apego leviano e instável, um sentimento superficial e condenado à rápida dissolução.

É uma crise à escala mundial que resulta do medo que hoje temos de encarrar a realidade cruel do absurdo existencial. Mesmo no meio de tantas pessoas, enquanto os fundamentos das relações afectivas continuarem débeis, o homem pós-moderno sentir-se-á solitário e, como ontem, a invenção de subterfúgios será incapaz de eliminar o nosso mais temido inimigo, a solidão.

Num óbvio baile de máscaras, a cultura do “like”, cujo barómetro de validação das pessoas são métricas de engajamento nas redes sociais, não passa de uma tentativa deprimente de estabelecer uma lógica à existência, num momento em que estamos assumidamente desorientados e assustados.

Trata-se, na realidade, de mais um débil subterfúgio, criado por nós mesmos à imagem e à semelhança de tudo o que nós queríamos ser, mas não somos.

A nossa cobardia não nos deixaria aceitar a verdade e, como no Mito da Caverna de Platão, as sombras parecem-nos mais familiares do que as imagens verdadeiras, visto que, por muito tempo, a escuridão foi o nosso único mundo.

Reinventar o “Amor” na pós-modernidade com base na pluralidade que nos caracteriza como seres humanos não será tarefa fácil.

Pelo contrário, exigirá, antes de tudo, a coragem para aceitar a nossa medíocre condição (o desnorte), rompendo com toda uma tradição idealista, hipócrita e falsaria, baseada em valores obsoletos que nos foram universalmente impostos em séculos de dominação cultural ocidental.

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