Deus, Pátria, Família e Outras Drogas

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso  

A historiografia contemporânea coloca a origem do slogan “Deus, Pátria e Família” no contexto político europeu do século XIX, baseado no pensamento Giuseppe Mazzini, um maçon que sonhava com a unificação da Itália.

O conceito, classificado hoje como a trilogia do conservacionismo de extrema-direita, tem atraído massas no mundo, sobretudo em períodos de crise, oferecendo uma ideia de estabilidade e segurança sociais a partir do apelo emocional em defesa, normalmente, de uma identidade mal construída.

Em primeiro lugar “Deus” (Cristão), a alegórica força omnipotente moralmente imaculada, que curiosamente “protegeu” a barbárie da expansão e dominação imperial europeia no mundo, em segundo, a “Pátria”, o apelo à identidade através do nacionalismo exacerbado e a unidade do Estado face a “ameaças externas”, e, por último, a “Família”, compreendida estruturalmente na ordem “tradicional” (marido, mulher e filhos, respectivamente).

Com claras raízes pós-fascistas, a génese destes movimentos ideologicamente radicais tem sempre um denominador comum: a ascensão em períodos de crise, a partir de quatro eixos: Guerra cultural, populismo, comunicação em plataformas digitais e definição de um inimigo comum (quase sempre as minorias).

Com o slogan “Deus, Pátria, Família”, Giorgia Meloni, do partido Fratelli d’Italia (ideologicamente herdeiro de Benito Mussolini) é eleita primeira-ministra italiana perante um claro desgaste político e social do status quo, com estagnação económica prolongada e de uma esquerda italiana dispersa.

Na Hungria, o Fidesz, liderado por Viktor Orbán, perdeu as eleições legislativas de Abril de 2026 após 16 anos consecutivos no poder, tendo até alcançado 53% de votos em 2022.

Na França, na Áustria e na Suíça, entre 2023 e 2024, a extrema-direita alcançou 31%, 25%, 28% dos votos, respectivamente, o mesmo ocorreu em Portugal, onde a ultradireita, com confessas ideias salazaristas do “Estado Novo”, alcançou 24% dos votos em 2024, apesar da dura derrota do seu líder (André Ventura) nas presidenciais de Janeiro de 2026.

Mesmo onde actualmente não está a governar, a direita radical não é marginal na política contemporânea, ocupando 26% dos assentos no parlamento europeu.

Nos EUA, Trump, de longe a figura mais expressiva da extrema-direita mundial, é eleito com 49,8% dos votos populares, mais de 77 milhões de votos, com uma agenda populista, anti-imigratória e isolacionista do “America First”.

O aspecto mais intrigante deste crescimento expressivo dos movimentos “Deus, Pátria, Família” é a incorporação do Cristianismo em defesa de políticas racistas, xenófobas, misóginas e discriminatórias, com a conivência dos próprios líderes religiosos.

Jair Bolsonaro, outro defensor do “Deus, Pátria, Família”, foi eleito em 2018 no Brasil com a influência de grupos religiosos protestantes, mobilizados pelas agendas moralistas, entre as quais a crítica ao aborto e à ideologia do género, marcas de um discurso típico da direita radical.

Entre os líderes de igreja protestantes que apoiaram publicamente o autor moral da tentativa de golpe de Estado no Brasil (2022–2023) esteve, pelo menos até 2018, Edir Macedo, o dono da Igreja Universal, que se estima que tenha, no mundo, mais de 10 milhões de fiéis, incluindo em Moçambique, onde tem mais de 200 igrejas e um dos canais de televisão mais populares do país.

A África não está alheia ao que está a acontecer no mundo e, provavelmente, os próximos anos serão marcados pelo surgimento de movimentos com estas bases ideológicas.

Aliás, a África do Sul, por exemplo, já começa a mostrar estes sinais, adaptando os clássicos modelos de actuação de extrema-direita nos movimentos xenófobos que levam milhares de zulus às ruas para gritar “Mabahambe” (Eles devem ir).

No Brasil, como Edir Macedo, houve vários “pastores” que defenderam o “Deus, Pátria, Família”, arrastando milhares de ovelhas (fiéis) para o apoio a um movimento claramente de bases ideológicas fascistas, racistas e preconceituosas.

O “fanatismo dostoievskiano” que cegou parte dos brasileiros durante Era Bolsonaro não foi uma rejeição do projecto político do PT, mas sim um claro atentado às instituições democráticas e às liberdades, na extensão da ideia manipuladora que ganha vida no mundo do “Deus, Pátria, Família”.

Num regresso à estratégia usada na colonização, com o “Deus, Pátria, Família”, na estratégia política destes movimentos, a religião passa de espaço de encontro espiritual para uma plataforma de disputa pelo poder.

A transformação da religião em manifesto político abre espaço para uma guerra simbólica baseada em emoções e sentimentos, um debate incapaz de discutir soluções concretas para problemas reais.

Ao arrepio de Locke, Voltaire e Spinoza, na extrema-direita radical, a religião, outrora assumida como o bastião da ética e da moral, passa a mero instrumento de mobilização político-eleitoral, perante, quase sempre, um povo com problemas urgentes, despedido colectivamente do pensamento crítico porque a fé cega.

A defesa do “Deus, Pátria, Família” esconde uma tentativa de monopolização da fé, que é um ataque óbvio ao princípio de Estado laico, ameaçando a liberdade religiosa e, consequentemente, a democracia. O “Deus, Pátria, Família” cria um efeito semelhante a qualquer droga: anestesia a consciência, neste caso, a colectiva.

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