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Alexandre Chiure
Numa segunda-feira, 18 de Maio, resolvi tirar um dia inteiro para procurar gasolina. Estava ciente do que me esperava. Não sabia por onde começar. Fui, aleatoriamente, a um posto de abastecimento, nas imediações do Aeroporto Internacional de Maputo. Não havia combustível, mas apenas a promessa de que iam receber. Ninguém sabia dizer a que horas.
Era pouco depois das 9:00 horas quando cheguei ao local e já lá estava uma fila longa de viaturas de vários tamanhos e marcas que começou a ser formada no dia anterior. Uns buscavam gasolina, outros gasóleo. Ao longo do dia, a fila foi-se estendendo e, no intervalo entre 16:00 e 17:00 horas, atingiu quase a Praça dos Heróis, a cerca de um quilómetro da bomba.
O cenário fez-me recuar no tempo e lembrar-me da crise económica que o país atravessou na década 80, década em que circulava muito dinheiro fora do sistema bancário, ou seja, as pessoas tinham muito dinheiro e não havia nada para comprar. As prateleiras das lojas estavam todas vazias, incluindo de vestuário e calçado.
Nessa altura, as populações eram abastecidas através de um sistema criado pelo governo, que incidia sobre as cooperativas de consumo. Cada família tinha um cartão de abastecimento onde vinha uma lista de produtos de primeira necessidade e as respectivas quantidades a que tinha direito, de acordo com o agregado familiar.
Ao amanhecer, caçávamos produtos nas mercearias para o reforço do rancho que não chegava para nada. Ao cair da noite, cada um deixava uma pedra na fila que era substituída pelos seus donos nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. O mesmo acontecia nas padarias, para o caso de pão, e nas pastelarias, para comer arrufada e tomar sumo aguado da fábrica Loumar, que não chegavam (as arrufadas e os sumos) para todos os clientes. Hoje são pessoas que pernoitam na fila de combustível, no interior das suas viaturas, num total sofrimento.
“Ilustre, deixa o carro e volta às 14:00 horas”, dizia-me um dos bombeiros, um jovem magro, claro, de estatura baixa, simpático e devidamente equipado com as cores da gasolineira que representa. Recomendou-me que deixasse a viatura numa posição que facilitaria as manobras no momento de o abastecer, caso recebessem o combustível.
Queimei o tempo a cumprir tarefas caseiras e sobrou algum para relaxar, preparando-me psicologicamente para aturar a confusão na bomba quando chegasse o camião-tanque. Dá muito barulho. Pouco depois da hora combinada com o bombeiro, deixei os meus aposentos e dirigi-me, de novo, ao posto de abastecimento. Estava quase tudo do jeito que deixei: sem combustível e sem sinais de que haveria.
A diferença que havia é que já estava posicionado um contingente da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) solicitado pela gerência para controlar a fila e impor ordem, o que era um indicador de que a bomba receberia o combustível naquele dia, independentemente da hora da chegada do camião do distribuidor.
Juntei-me a pequenos grupos de conversa para fazer passar o tempo. Bati papo com os bombeiros, despreocupados porque, para eles haviam marcado o dia, mesmo que o camião não chegasse. Mesmo assim, os jovens iam encorajando-me a aguardar porque, segundo eles, a qualquer momento o camião-tanque iria receber o combustível.
Depois, conversei com os polícias da UIR e, através deles, fiz chegar o meu elogio à corporação pela melhoria do comportamento dos agentes perante o público e pelas detenções que temos estado a acompanhar no âmbito do combate à corrupção e ao crime organizado. Não é meu costume fazer isso. Entendo que é obrigação da polícia trabalhar bem.
Enquanto isso, um grupo de senhoras, entre clientes e funcionárias da bomba, lamentava o facto de a crise de combustível afectar as finanças familiares. Uma delas dizia que dada a incerteza quanto ao amanhã, sempre que as pessoas têm a oportunidade compram gasolina ou gasóleo e guardam em bidões, o que implica sistemáticos desvios de aplicação.
De repente vi alguém, de longe, a acenar para mim. Endireitei a cadeira do carro para o escrutinar. Era um amigo meu e empresário, por coincidência meu conterrâneo de Chibuto. Ele actua na área de transporte de carga de longo curso.
Sempre que batemos papo, ele não consegue esconder a sua decepção pelo estado em que as coisas se encontram, um país que tem tudo para dar certo, mas, infelizmente, segundo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, está em segundo lugar na lista dos países mais pobres do mundo, 50 anos depois da independência. Dou-lhe muita razão. Não estamos bem, não, senhor.
Na ocasião, o meu amigo falou-me das consequências da crise de combustível na sua vida profissional, associada à degradação das vias de acesso, em particular da Estrada Nacional Número Um. Disse-me que no passado fazia, por mês, três viagens Maputo-Pemba e levava nove dias de cada vez.
Hoje, faz apenas uma e gasta, no mínimo, 12 dias para ir e voltar, facto que agravou os custos operacionais. Para dizer que, no geral, a produção caiu drasticamente no país. Os que deviam produzir perdem tempo na fila em busca de combustível. As crianças não conseguem ir à escola por falta de transporte porque os transportadores também perdem tempo nas bombas à procura de gasóleo. Estamos a ficar cada vez mais pobres.
Quando viaja para Pemba, gasta em gasóleo perto de 300 mil meticais ao preço actual de 116 meticais o litro e 20 mil meticais de portagens. Abanei a cabeça, sinal de lamentação. Felizmente, apesar de muitas dificuldades que se colocam, ele não atirou a toalha ao chão, o que é muito bom, mas a vida, ela, não está fácil. Há muitas dificuldades e muitas incertezas.
Ia despedir-se de mim quando se lembrou da nomeação de Carmelita Namashulua para o cargo de Inspectora-Geral de Estado, cuja instituição tem a espinhosa missão de fiscalizar actos administrativos, auditar e combater a corrupção na administração pública.
Fez cara feia. Franziu a testa e criticou duramente o Presidente da República pela escolha de uma pessoa como ela, uma pessoa que teve a oportunidade de brilhar ou de fazer melhor e não o fez quando esteve no governo. Ela carrega consigo muitas macas. O escândalo do livro escolar. A deficiente distribuição deste e erros ortográficos e de conteúdo que apresenta, milhares de processos de funcionários públicos que aguardam pela progressão e promoção nas suas carreiras profissionais.
“Porque apostar numa pessoa que, como governante, não fez nada? Porque insistir nas mesmas pessoas?”, questionou o meu amigo. Dei-lhe razão. Na verdade, Carmelita não tem uma boa imagem e, logo à partida, descredibiliza a própria Inspecção-Geral de Estado. Não se pode esperar resultados diferentes apostando nas mesmas pessoas.
Só saí da bomba perto das 20:00 horas, pois o camião-tanque chegou por volta das 19:00 horas. Para a infelicidade dos agentes da UIR, foi o grande. Não sei a que horas terão terminado de trabalhar naquela bomba. O certo é que saí do local satisfeito não porque consegui combustível, mas, sobretudo, por causa das amizades feitas durante a longa espera pelo camião de combustível. Afinal, a crise tem um lado bom da história.



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