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- Um país preso entre emergências permanentes e a urgência de construir amanhã
Celina Henriques
Dona “Fátima” (nome fictício) vende tomate e cebola há dezoito anos no mesmo canto do mercado da Mafalala. Todas as manhãs repete a mesma conta antes de abrir o cesto: quanto subiu o transporte, quanto aumentou o combustível, quanto sobra para levar para casa.
Nos últimos tempos, a conta já não fecha como antes.
Ela não precisa de um diploma em Economia para perceber o que está a acontecer. Basta conversar com qualquer mãe de família num mercado de Maputo, Nampula, Beira ou Quelimane para ouvir uma realidade semelhante: a vida ficou mais cara, o dinheiro ficou mais curto e a incerteza tornou-se uma presença diária.
A história de Dona Fátima é a história de milhares de moçambicanos que aprenderam a sobreviver entre uma crise e outra. Entre uma subida de preços e um ciclone, entre uma emergência alimentar e um conflito armado, entre uma promessa e uma nova espera.
E talvez a pergunta mais importante seja precisamente esta: quanto custa a um país viver permanentemente no modo sobrevivência? Porque um país que passa todo o tempo a apagar incêndios corre o risco de nunca construir a casa onde quer viver.
Moçambique parece ter-se transformado num país onde sobreviver se tornou a principal estratégia de governação. Entre ciclones, conflitos, dificuldades económicas e fragilidades institucionais, o Estado aparece frequentemente como uma estrutura de resposta imediata: chega depois da tragédia, reconstrói depois da destruição e tenta apagar incêndios que poderiam, em muitos casos, ter sido antecipados.
De Luabo a Palma, de Maputo a Metuge, a imagem que emerge é a de um país permanentemente mobilizado para a emergência, onde o “hoje” consome quase toda a energia disponível e o “amanhã” continua a ser empurrado para depois.
Durante demasiado tempo, o “veremos” tornou-se uma espécie de estratégia informal de governação. Veremos como resolver as dívidas. Veremos como reconstruir depois do ciclone. Veremos como responder ao desemprego juvenil. Mas os países não constroem futuro com respostas adiadas.
O custo do “veremos” começa precisamente quando a sobrevivência diária impede a construção das soluções estruturais, quando o Estado passa mais tempo a reagir do que a planear, e a emergência deixa de ser excepção para se tornar o modo normal de funcionamento. A questão central já não é apenas quantos incêndios conseguimos apagar. É quantas oportunidades estamos a perder enquanto corremos atrás das chamas.
O preço de viver em emergência permanente
Os últimos anos revelam um paradoxo económico difícil de ignorar. Depois do pico inflacionário de 2022, quando os preços subiram quase 11%, Moçambique tem vindo a reduzir gradualmente o ritmo de crescimento dos preços, até aos 3,2% registados no final de 2025, o valor mais baixo em vários anos. No papel, esta evolução representa uma melhoria importante.
Mas a economia não existe apenas nos relatórios. Existe no mercado onde Dona Fátima compra mercadoria, na família que decide se compra comida ou paga transporte, no pequeno comerciante que vê a margem desaparecer entre o custo do combustível e o preço final do produto. E existe numa conta que qualquer economista reconhece: mesmo com a inflação a abrandar, os preços acumulados nos últimos cinco anos subiram mais de um terço. Aquilo que uma família comprava com mil meticais há cinco anos, custa hoje, em média, mais de mil e trezentos meticais.
Uma inflação mais baixa pode ser boa notícia. Mas a pergunta essencial permanece: essa estabilidade está a transformar-se em melhoria real da vida das pessoas, ou é apenas um preço mais alto a subir mais devagar? Uma economia saudável não é apenas aquela que controla preços, é aquela que cria emprego, estimula investimento e oferece às famílias capacidade para viver com dignidade. Quando milhões de cidadãos continuam a enfrentar insegurança alimentar, a estabilidade económica corre o risco de ser apenas uma fotografia parcial de uma realidade muito mais complexa.
O problema de Moçambique não é apenas a subida dos preços. É a fragilidade de uma economia onde demasiadas famílias vivem no limite, onde muitas empresas enfrentam dificuldades para investir e onde a confiança continua a ser um dos recursos mais escassos. Uma geração não pode depender da sorte ou da disponibilidade ocasional do Estado para ter acesso a oportunidades.
A crise climática torna evidente uma das maiores fragilidades nacionais: sabemos há anos, nalguns casos há décadas, quais são os riscos, mas continuamos muitas vezes a agir como se cada desastre fosse inesperado. Em 2000, o ciclone Eline e as cheias que se lhe seguiram afectaram cerca de 4,5 milhões de moçambicanos e destruíram o equivalente a 14% do Produto Interno Bruto de então. Um quarto de século depois, a época chuvosa de 2024/2025 voltou a colocar quase cinco milhões de pessoas sob ameaça de insegurança alimentar, depois de o país ter sido atingido por três ciclones em pouco mais de três meses, entre eles o Chido, um dos mais destrutivos das últimas décadas. O Instituto Nacional de Meteorologia confirma aquilo que a memória de qualquer camponês de Sofala ou da Zambézia já sabia: o número e a intensidade dos ciclones que atingem Moçambique têm vindo a aumentar na última década.
Mas existe uma pergunta que não pode ser evitada: estamos a reconstruir melhor ou apenas a reconstruir para esperar pelo próximo desastre? Mesmo depois da colheita, cerca de 1,2 milhões de moçambicanos permanecem em insegurança alimentar aguda nos distritos mais produtivos do país, sinal de que o problema já não depende de um ano mau, mas de uma vulnerabilidade estrutural que se repete, campanha após campanha.
Um Estado moderno não pode depender eternamente da solidariedade internacional depois da destruição. Precisa de investir antes da tragédia acontecer: melhorar o ordenamento territorial, reforçar normas de construção, adaptar infra-estruturas e preparar comunidades. As alterações climáticas são reais, mas não podem transformar-se numa explicação permanente para aquilo que depende de decisões humanas. Um país resiliente não é aquele que reconstrói mais depressa depois da queda é aquele que reduz a possibilidade de a queda ser devastadora.
Cabo Delgado e a erosão da confiança
Em Cabo Delgado, a emergência tornou-se uma realidade prolongada. Desde o primeiro ataque, a 5 de Outubro de 2017, milhares de famílias perderam familiares, casas e meios de sobrevivência. Já lá vão oito anos de conflito. Só em 2024, morreram pelo menos 349 pessoas em ataques de grupos extremistas, um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo dados de centros de estudos estratégicos que acompanham o conflito. No início de 2026, Moçambique contava ainda com mais de 660 mil deslocados internos, a maioria concentrada nas províncias do Norte, muitos deles a fugir de casa pela terceira, quarta ou quinta vez. Não é uma crise que se resolveu. É uma crise que aprendemos a normalizar.
A retirada da força regional não explica, por si só, a evolução do conflito. Mas revelou uma fragilidade maior: a paz não pode depender apenas de operações militares. Nenhum país vence uma guerra prolongada apenas com armas. A segurança precisa de ser acompanhada por escolas, empregos e oportunidades para jovens que hoje vivem entre a ausência de perspectivas e a vulnerabilidade ao recrutamento extremista.
Cabo Delgado não é apenas um problema do Norte. É um teste à capacidade de Moçambique construir um futuro onde todos sintam que pertencem. Independentemente das diferentes interpretações políticas, uma questão permanece: nenhum país consegue avançar quando uma parte significativa da sociedade deixa de acreditar que as instituições funcionam. A confiança é uma infra-estrutura invisível quando existe, permite investimento e estabilidade; quando desaparece, aumenta a frustração e a sensação de abandono.
Do Estado-Bombeiro para o Estado-Arquitecto
O maior desafio de Moçambique não é apenas resolver as crises existentes. É criar condições para que novas crises não encontrem o país sempre desprevenido. Essa transição exige quatro mudanças.
Primeiro, recuperar a previsibilidade institucional: professores, médicos e outros funcionários públicos não podem continuar a trabalhar sob a incerteza de pagamentos acumulados, e o Estado precisa de apresentar planos claros, com prazos e mecanismos transparentes de resolução das suas obrigações. Segundo, transformar a gestão dos riscos climáticos numa prioridade nacional: cada escola reconstruída e cada estrada reabilitada deve representar um investimento no futuro, não uma reparação temporária. Terceiro, adoptar uma visão integrada para Cabo Delgado, onde segurança e desenvolvimento deixem de andar em caminhos separados: a paz exige armas para proteger, mas também escolas para formar e instituições para confiar. Quarto, reconstruir a confiança democrática, através de instituições capazes de garantir transparência e diálogo.
Mas existe também uma parte que nos cabe. Nenhuma sociedade muda apenas à espera de um Estado forte. Podemos exigir recibos, contribuir para uma economia mais formal, acompanhar obras públicas e perguntar onde são aplicados os recursos das nossas comunidades. Podemos apoiar negócios locais e falar sobre Cabo Delgado nas nossas casas e escolas, porque uma sociedade informada é menos vulnerável à manipulação e ao extremismo. E podemos participar na democracia para além do voto, numa reunião comunitária, numa discussão sobre as prioridades do bairro.
Moçambique não precisa de um Estado perfeito. Precisa de um Estado previsível: capaz de antecipar cheias antes de construir bairros em zonas de risco, de preparar jovens antes que sejam recrutados por redes extremistas, de resolver conflitos laborais antes que hospitais e escolas parem, de recuperar confiança antes que a distância entre governantes e governados se transforme numa ruptura.
Durante demasiado tempo celebrámos a rapidez com que conseguimos correr com o balde de água. Mas um país não se constrói apenas apagando incêndios constrói-se com visão, planeamento e coragem para tomar decisões que talvez não tragam resultados imediatos, mas que protejam as próximas gerações.
O custo do “veremos” está precisamente aí: cada problema adiado torna-se uma crise maior, cada reforma evitada transforma-se numa emergência, cada oportunidade perdida torna-se uma dívida para o futuro.
É tempo de largar a mangueira e pegar na planta. Porque um país que vive sempre a apagar incêndios corre o risco de chegar ao dia em que já não terá água suficiente nem alicerces suficientes para reconstruir.
Construir Moçambique exigirá um Estado mais forte. Mas exigirá também uma sociedade que não espere apenas para ser salva. Porque nenhum país muda sozinho. Nem o Governo. Nem os cidadãos isoladamente. Mudamos quando assumimos que o futuro é uma responsabilidade partilhada entre o Estado e seus Cidadãos.



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