Beira celebra legado de Dom Jaime Gonçalves com lançamento de obra inédita

CULTURA
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A cidade da Beira acolheu, na última quinta-feira (9), o lançamento do livro “O Único Pecado de Dom Jaime”, uma obra que resgata o percurso de Dom Jaime Pedro Gonçalves, uma das figuras mais marcantes da história contemporânea de Moçambique, reconhecido pelo papel decisivo na mediação do processo de paz que culminou com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma, em 1992.

Jossias Sixpence – Beira

Escrito por Gabriel Pedro Mucutubua, antigo jornalista da Televisão de Moçambique (TVM) e da Rádio Pax, o livro percorre a trajectória de Dom Jaime desde a sua ordenação sacerdotal, em 1967, até à sua afirmação como um dos principais mediadores do diálogo entre o Governo e a RENAMO, sem deixar de destacar o seu contributo para a educação, através da criação da Universidade Católica de Moçambique, na Beira.

Com 231 páginas, a obra retrata um homem que fez da Igreja uma plataforma de promoção da paz, da reconciliação nacional e da defesa da dignidade humana, num dos períodos mais conturbados da história do país.

Durante a cerimónia, o actual arcebispo da Beira sublinhou que a publicação “não é apenas um exercício de memória, mas um convite às novas gerações para conhecerem os valores que orientaram Dom Jaime”. Na sua intervenção, defendeu que o legado do antigo arcebispo continua a inspirar todos os que acreditam na paz, no diálogo e na justiça social.

O presidente do Conselho Municipal da Beira também destacou o papel desempenhado por Dom Jaime no processo de aproximação entre as partes beligerantes durante a Guerra Civil. Recordou que foi o antigo arcebispo quem procurou estabelecer os primeiros contactos com dirigentes da RENAMO, através de Raúl Domingos, então secretário de Afonso Dhlakama, iniciativa que abriu caminho para o diálogo político que viria a culminar na assinatura do Acordo Geral de Paz.

Em nome da família, os representantes de Dom Jaime Gonçalves agradeceram ao autor pelo trabalho de investigação e pela iniciativa de eternizar, em livro, a vida e a missão daquele que consideram uma referência incontornável da Igreja Católica e da História de Moçambique.

Segundo a família, a obra preserva não apenas a memória de um líder religioso, mas também de um cidadão que dedicou a sua vida à construção da paz e da unidade nacional.

“O único pecado foi dizer a verdade”

Na apresentação da obra, o académico Samuel Simango destacou que um dos aspectos mais relevantes do livro é a forma como retrata a coragem de Dom Jaime numa época em que poucos se atreviam a denunciar publicamente as injustiças.

Segundo Simango, o antigo arcebispo distinguiu-se por recusar o silêncio perante os abusos e por utilizar as suas homilias para defender a paz, a justiça e o entendimento entre os moçambicanos.

Enquanto presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, Dom Jaime apelava regularmente às partes em conflito para abandonarem as armas e privilegiarem o diálogo, defendendo que “nada justificava uma guerra entre irmãos”.

Durante a apresentação, Gabriel Pedro Mucutubua revelou que a produção do livro enfrentou diversos desafios, sobretudo na recolha de testemunhos e na conquista da confiança da família de Dom Jaime. O autor explicou que procurou construir uma narrativa baseada em documentos, entrevistas e relatos de pessoas que acompanharam de perto o percurso do antigo arcebispo, com o objectivo de preservar um legado que considera fundamental para compreender a história recente de Moçambique.

Nascido em 1936 e falecido em 2016, Dom Jaime Pedro Gonçalves liderou a Arquidiocese da Beira durante quase três décadas, tornando-se uma das vozes mais influentes da Igreja Católica em Moçambique.Além do protagonismo nas negociações de paz entre o Governo e a RENAMO, destacou-se pela defesa da educação, da justiça social e da reconciliação nacional. Em reconhecimento da sua contribuição para o país, a Universidade Católica de Moçambique atribuiu-lhe, em 2020, a título póstumo, o grau de Doutor Honoris Causa.

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