Fanon: a Preto e Branco

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso 

A introdução da principal obra de Frantz Fanon, “Pele Negra, Máscara Branca” (1952), um clássico estudo clínico sobre a condição negra, possui uma afirmação que me tem atormentado nos tempos: “o negro que quer embranquecer a raça é tão infeliz quanto aquele que prega o ódio ao branco”.

É uma conclusão complexa para o contexto que hoje atravessamos, um período politicamente conturbado e em que as emoções substituem os factos, sobretudo no nosso inconsciente colectivo.

Há silêncios sociais que guardam cicatrizes vivas de um período nefasto: a escravatura e a colonização africanas. São marcas que hoje ganham forma no debate público com o surgimento de duas correntes antagónicas: Black Lives Matter e o  White Lives Matter.

Dispenso, neste texto, o imperativo metodológico que me obrigaria a discorrer sobre o contexto e origem das duas correntes, atendo-me apenas à afirmação, certamente unânime, de que em ambos movimentos há uma revindicação de carácter sociopolítico.

Assombrado por um passado ainda vivo, por um lado, o “preto” revindica a dignidade humana que não encontra no modelo de sociedade estruturalmente racista instalado no novo mundo e, por outro, o “branco”, embora se distancie da herança histórica da escravatura e do colonialismo, reivindica a sua hegemonia racial face ao que ele considera uma nova “ameaça”.

Provavelmente, pela primeira vez na História, caminhamos para um processo de alienação aparentemente colectiva. Já não é o “preto” que quer ser “branco” ou o “branco” que quer que o “preto” se comporte como “branco”.

Hoje, no que Frantz Fanon classificaria como “duplo narcisismo”, o “preto”, muitas vezes sem consciência profunda da sua história e raízes, decidiu fechar-se na sua “negritude” e o “branco”, ignorando a responsabilidade de um passado desumano, escolhe também fechar-se na sua “branquitude”, legitimando, em muitos casos, a segregação, a violência e o preconceito.

Estão ambos distantes da compreensão da universalidade inerente à condição humana, presos em arquétipos típicos do desnorte e cobardia do homem pós-moderno.

No diagnóstico social de Frantz Fanon, há uma conclusão que, por mais intrigante que pareça, atravessou décadas e ainda hoje é visível em qualquer lugar do mundo, incluindo o próprio continente africano. A nível comportamental, o negro tem duas dimensões: Uma com o seu semelhante e outra com o “branco”.  Para Fanon, esta “cissiparidade” é a consequência da “aventura colonial”.

Trata-se daquilo que Fanon chamou a epidermização da inferioridade negra, um processo pelo qual as opressões racial e colonial deixam de ser apenas estruturas sociais externas e passam a ser assimiladas e interiorizadas pelo sujeito escravizado.

É um problema que exigirá uma resposta a dois desafios: o primeiro económico e o segundo psicológico, já que a inferiorização se instalou a partir um de um dos mais sofisticados processos de aculturação que já existiu: o colonialismo ocidental.

No entanto, parece pertinente observar que o “branco” também tem duas dimensões comportamentais. Uma na relação com o seu semelhante e outra na relação com o negro, desde o activista progressista, que exige justiça social numa praça qualquer de Barcelona, em Espanha, até ao neonazi com dísticos de supremacia branca em qualquer esquina de Dresden ou Chemnitz, no leste da Alemanha, as “bases” do neonazismo da extrema-direita alemã.

Embora por motivos diferentes, um pela “solidariedade e nobreza” de um “branco” que luta pelos negros, outro pelo racismo que apregoa, ambos verão o negro diferente em relação a um outro branco, na medida em que o cerne deste problema transcende meras ideologias pessoais. Trata-se de um problema instalado no nosso inconsciente colectivo – preto ou branco.

A condição de inferioridade negra não é só resultado do ataque veemente à cultura, linguagem e valores africanos durante a escravatura e colonização, mas também é extensão de um trauma colectivo, estampado, ainda hoje, sistemicamente nas nossas sociedades, desde os modelos políticos que adoptamos até às nossas referências.

Mas qual seria a solução para a nossa condição? Esta é, provavelmente, uma das perguntas que coloca a obra “Pele Negra, Máscara Branca” entre as que mais foram mal-interpretadas no campo da filosofia africana pós-colonial.

A “Pele Negra, Máscara Branca” de Fanon não é uma proposta para a supervalorização da negritude. Pelo contrário, é a desconstrução do “duplo narcisismo” que hoje ganha forma no antagonismo entre Black Lives Matter e o White Lives Matter. Nenhuma raça é superior à outra.

É óbvio que há, na obra, críticas abertas ao passado colonial, à interiorização da inferioridade da condição escrava e aos processos de assimilação dos negros, mas, mais do que isso, trata-se de um manifesto para uma dimensão aberta da consciência humana, em defesa de um devir que transcenda meras categorias baseadas na cor da pele.

A desalianação proposta por Fanon é extensiva a pretos e a brancos, que são ambos convidados na obra a se recusarem a enclausurar-se na “Torre substancializada do Passado”. “Não existe missão negra. Não existe fardo branco”, sustenta o autor.

Recuperando a ideia da liberdade como a essência do ser humano, à luz do existencialismo sartriano e sem rejeitar a sua negritude, na obra, Fanon demarca-se de qualquer cristalização da sua conduta em função da sua cor de pele, considerando que qualquer revindicação de superioridade de uma raça (preta ou branca) é um erro histórico.

A proposta de Fanon é um Novo Humanismo, baseado, sobretudo, na auto-consciência humana – uma virtude que está longe dos fundamentos vazios e quadrados que sustentam tanto o Black Lives Matter  como o  White Lives Matter.

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