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- Mesmo após o fim das Manifestações
No Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade sanitária do país, o tempo deixou de ser apenas uma questão de espera. Para centenas de doentes com cancro, cada dia sem radioterapia representa uma batalha perdida contra uma doença que avança sem dar tréguas. A única máquina de radioterapia existente em Moçambique aproxima-se de um ano de paralisação, sem que as autoridades sanitárias apresentem uma data concreta para a retoma dos tratamentos. O equipamento, um acelerador linear de alta tecnologia, voltou a avariar em Novembro de 2025, apenas dois meses depois da sua pomposa reinauguração, deixando novamente os pacientes oncológicos sem acesso a um serviço considerado essencial no combate ao cancro. Enquanto o aparelho permanece inoperacional, o Ministério da Saúde e o Hospital Central de Maputo trocam responsabilidades, num cenário marcado por silêncio institucional e incerteza, transformando o serviço de oncologia num verdadeiro corredor da morte.
Elísio Nuvunga
Enquanto as autoridades garantem que trabalham para resolver o problema, doentes continuam a morrer à espera de um tratamento que nunca chega há mais de um ano. E enquanto o equipamento permanece inoperacional, nos corredores do Hospital Central de Maputo (HCM) e nas casas de centenas de famílias espalhadas pelo país, trava-se uma batalha silenciosa contra uma doença que não espera por burocracias: o cancro.
Há doentes que chegam ao fim da linha antes de conseguirem iniciar o tratamento. Outros, com algum apoio financeiro, organizam campanhas de solidariedade ou procuram uma alternativa além-fronteiras, no Malawi, África do Sul ou Índia. Para quem não tem recursos, resta aguardar numa fila onde cada dia pode significar a diferença entre a esperança e a perda.
Foi exactamente isso o que aconteceu com Marcelo Júnior, de 37 anos. Marcelo era técnico de reparação de electrodomésticos na Zambézia. Com o rendimento que conseguia consertando televisores, geleiras e outros aparelhos sustentava a esposa, Nádia, e os dois filhos, de seis e nove anos, respectivamente.
Tudo começou com uma pequena borbulha no braço. O que parecia um problema simples revelou-se um tumor maligno. Primeiro veio a amputação do braço, realizada em Quelimane. Depois a quimioterapia em Nampula. Mas o cancro continuou a espalhar-se.
Sem respostas nas unidades sanitárias da região norte, a família recebeu uma guia para Maputo, onde, pelo menos no papel, funciona o único serviço de radioterapia do país (que já não funciona).
Sem dinheiro para as passagens, familiares fizeram colectas. Um vídeo divulgado nas redes sociais sensibilizou o professor Jaleia, que mobilizou pessoas para financiarem a viagem aérea e garantir alojamento em Maputo, na esperança de poder finalmente ter tratamento adequado, mas foi debalde.
Quando finalmente chegaram ao Hospital Central de Maputo (HCM), ouviram aquilo que jamais imaginavam. A máquina que representava a luz no fundo do túnel simplesmente deixou de funcionar.
“A doutora disse que a máquina de radioterapia estava estragada há um ano. Não havia radioterapia para fazer”, recorda Nádia, viúva de Marcelo.
O “Nós não podemos fazer nada” que sentenciou Marcelo ao corredor da morte
Os médicos explicaram que o estado clínico já era muito grave. O tumor tinha aberto uma enorme ferida, havia infecção e já não existiam perspectivas de recuperação sem acesso à radioterapia.
“A doutora me chamou e disse: seja forte, como foi para chegar até Maputo. Nós não podemos fazer nada. O problema é grave”, revelou Nádia, acrescentando que o marido já estava a desenvolver outras doenças graves.
Marcelo permaneceu internado durante cerca de um mês. Sem melhorias, regressou à Zambézia via terrestre, numa viagem de centenas de quilómetros, porque já não havia dinheiro para regressar de avião.
“Em Maputo não tenho família, eu disse isso para a doutora que disse que tinha que regressar para continuar com quimioterapia. Depois disse que podíamos pegar Nagi (Transporte Inter-provincial) para voltar para casa, porque o professor Jaleia já nos tinha ajudado com o dinheiro de passagem que chegamos a Maputo”, conta.
A viagem de regresso à Zambézia foi feita já sem a esperança que o tinha levado a Maputo. Marcelo Júnior regressava deitado, incapaz de se mover, depois de uma passagem pelo Hospital Central de Maputo onde esperava encontrar a última possibilidade de tratamento. Mas encontrou uma porta fechada, pois a única máquina de radioterapia do país estava parada.
De volta à terra natal, a família já sabia que a luta seria contra o tempo. O tumor tinha avançado, o corpo estava debilitado e os sinais de despedida começavam a surgir.
“Ele dizia que já estava cansado de sofrer. Depois de duas semanas perdeu a fala. Deixou de responder. Acabou por morrer. Foi no dia 18 de Julho”, conta Nádia, com a voz marcada pelo sofrimento.
A doença de Marcelo não destruiu apenas o corpo do paciente. Também arrastou a esposa para uma batalha silenciosa de desgaste físico e emocional. Durante meses, Nádia acompanhou o marido entre hospitais, tratamentos e incertezas. Pelo caminho, desenvolveu problemas cardíacos e respiratórios, sofreu episódios de desmaio e perdeu o apetite devido ao desgaste permanente.
À medida que o tumor avançava, a ferida provocada pela doença agravava-se e o corpo de Marcelo passou a exalar um odor intenso provocado pela necrose dos tecidos. A situação afastou familiares, amigos e conhecidos que antes faziam parte da sua rotina.
“As pessoas já não conseguiam ficar perto dele por causa do cheiro”, recorda a esposa que, mesmo diante da dor e do abandono progressivo, permaneceu ao lado do marido até ao último suspiro. Foi ela quem lhe deu banho, alimentou, trocou a roupa e garantiu cuidados básicos quando a doença já lhe tinha retirado quase todas as forças.
Stive corre contra o tempo para salvar o braço
Aos 27 anos, o contabilista Stive Getimane vive uma corrida contra o tempo. O jovem descobriu que um tumor maligno ameaça o seu braço esquerdo e agora procura reunir cerca de 560 mil meticais para viajar à Índia, onde acredita ainda existir uma possibilidade de evitar a amputação.
A história começou com uma dor persistente no braço. Apaixonado por futebol, Stive pensou inicialmente que se tratava de uma lesão provocada por uma queda durante os jogos que disputava com amigos. Sem imaginar a gravidade da situação, continuou a sua rotina, esperando que o problema desaparecesse.
Com o agravamento das dores, decidiu procurar assistência médica. Os primeiros exames apontavam para uma infecção, diagnóstico que trouxe algum alívio.
“Pensava que fosse passar logo porque uma infecção não é algo assim tão grave. Não fiquei muito preocupado. Achei que fosse uma situação normal ou que o sangue estivesse coagulado”, recorda.
Mas novos exames revelaram uma realidade completamente diferente. As dores que já limitavam a sua actividade profissional e a vida diária eram provocadas por um tumor.
“Foi no dia 03 de Março deste ano. Fiz exames e fiquei internado durante dois dias”, conta.
O diagnóstico definitivo demorou cerca de dois meses, período marcado por atrasos até à realização da biópsia necessária para identificar o tipo de cancro.
Quando finalmente recebeu os resultados, Stive ouviu duas opções: amputar o braço em Moçambique ou procurar tratamento no exterior.
“A nível interno disseram-me que a única solução seria amputar o braço ou procurar tratamento na Índia. Já estamos há dois meses à espera da cirurgia. Reunimos a família e decidimos tentar arrecadar dinheiro para ir à Índia, porque ainda tenho esperança de salvar o braço”, afirma.
Agora, Stive e a família mobilizam esforços numa campanha de angariação de fundos. Para ele, a viagem representa mais do que um tratamento: é a tentativa de preservar o futuro profissional e pessoal.
Denise precisa de quase um milhão para continuar a lutar
Aos 25 anos, Denise enfrenta uma nova batalha contra o cancro do colo do útero. Diagnosticada em 2024, viu-se obrigada a procurar tratamento fora do país depois de não encontrar em Moçambique condições para realizar radioterapia.
No ano passado, familiares, amigos e desconhecidos uniram forças numa campanha solidária que permitiu financiar a sua deslocação ao Malawi, onde realizou as sessões de radioterapia recomendadas pelos médicos.
O tratamento devolveu-lhe esperança. Depois de concluir a terapia, regressou a Moçambique para continuar o acompanhamento médico, acreditando que o pior tinha ficado para trás.
Meses depois, novos exames de controlo voltaram a colocar a doença no centro da sua vida. Agora, Denise e a família precisam de cerca de 850 mil meticais para procurar novamente tratamento e tentar travar a progressão do cancro.
Uma máquina para mais de 34 milhões de moçambicanos
Enquanto alguns doentes procuram soluções fora das fronteiras nacionais, Moçambique continua dependente praticamente de uma única máquina de radioterapia instalada no Hospital Central de Maputo.
Para milhares de pacientes oncológicos, este equipamento representa a diferença entre controlar a doença ou assistir ao avanço do tumor sem alternativas terapêuticas.
Segundo especialistas em oncologia, cerca de metade dos doentes com cancro necessita de radioterapia em algum momento do tratamento. Sem este serviço, muitos casos deixam de ter perspectiva de cura e passam directamente para cuidados paliativos.
“A consequência é dramática. Doentes chegam demasiado tarde e consequentemente os tumores evoluem e as chances de a pessoa sobreviver diminuem dia após dia”, explicou um especialista do HCM.
Manifestações acabaram, mas a espera continua
Quando a máquina deixou de funcionar, num primeiro momento o Governo apontou os actos de vandalização ocorridos durante as manifestações pós-eleitorais como uma das causas da avaria.
Mas meses depois do regresso da normalidade às ruas, o serviço continuava suspenso. Em Agosto de 2025, os pacientes oncológicos voltaram a respirar esperança quando, com pompa e circunstância, foi anunciada a retoma dos serviço. Nessa fase a culpa já não era das manifestações, mas sim supostos sabotadores, segundo denunciou na ocasião o ministro da saúde.
Entretanto, em Novembro de 2025, o Governo confirmou que o único equipamento de radioterapia do país voltou a avariar no HCM, apenas dois meses depois de ter sido reinaugurado em Agosto pelo então ministro da Saúde, Ussene Isse.
“Infelizmente avariou e o trabalho agora é assegurar a recolocação e o seu funcionamento, por ser uma ferramenta importante para o atendimento dos nossos concidadãos em saúde. Está a ser feito todo o esforço”, declarou Inocêncio Impissa, porta-voz do Governo durante uma sessão do Conselho de Ministros.
Desde lá, já se passam nove meses. Para os doentes e as suas famílias, o maior inimigo é o tempo, pois, contra o cancro, cada dia de espera pode significar uma vida perdida.



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