Share this
A economia ucraniana entrou numa fase em que a sobrevivência do Estado depende cada vez mais do financiamento externo, sobretudo ocidental, enquanto a guerra continua a destruir infra-estruturas essenciais e a reduzir a capacidade do país de gerar receitas próprias. Praticamente em “banca rota” com uma economia fortemente dependente de ajuda internacional para financiar o orçamento, manter os serviços públicos e sustentar o esforço de guerra, o país está cada vez mais a se tornar pouco atrativo para investimentos.
Segundo a quinta Avaliação Rápida de Danos e Necessidades (RDNA5), elaborada pelo Banco Mundial, Nações Unidas, Comissão Europeia e Governo ucraniano, as necessidades de reconstrução e recuperação da Ucrânia estão estimadas em 587,7 biliões de dólares nos próximos dez anos, quase três vezes o Produto Interno Bruto nominal projectado para 2025.
A pressão sobre as contas públicas é igualmente pesada. Em Fevereiro deste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou um novo programa de financiamento de 8,1 biliões de dólares para a Ucrânia. Em Julho, depois da primeira avaliação do programa, o organismo autorizou um novo desembolso de cerca de 690 milhões de dólares, elevando para aproximadamente 2,2 biliões de dólares o montante já disponibilizado no âmbito do actual acordo.
O próprio FMI tem insistido na necessidade de reformas para combater a corrupção, reduzir a economia informal, melhorar a governação e reforçar a capacidade de arrecadação de receitas. Ou seja, a assistência financeira internacional está cada vez mais associada a condições e reformas que Kyiv precisa de cumprir para continuar a receber recursos.
No entanto, a destruição das infra-estruturas económicas está a agravar o problema. Os portos do Mar Negro e do Danúbio são particularmente importantes para a capacidade de exportação da Ucrânia, sobretudo de produtos agrícolas.
Em 1 de Setembro, a Reuters noticiou novos ataques russos contra infra-estruturas portuárias e um posto fronteiriço com a Roménia na região de Odessa. Segundo autoridades ucranianas citadas pela agência, instalações de exportação foram atingidas e o posto fronteiriço de Orlivka teve de suspender temporariamente o processamento de pessoas e veículos.
O impacto ultrapassa a destruição física. Segundo a mesma fonte, os portos da região de Odessa, juntamente com outras estruturas marítimas, são responsáveis por uma parcela dominante das exportações ucranianas. Os ataques obrigam Kyiv a desviar mercadorias para os portos do Danúbio, como Reni e Izmail, e para corredores ferroviários ocidentais, de capacidade mais limitada.
Para um país que depende das exportações para gerar divisas, cada ataque às infra-estruturas portuárias representa, portanto, um golpe não apenas militar, mas também económico.
Corrupção abre nova frente de batalha

À devastação provocada pela guerra junta-se outro problema. A persistência de escândalos de corrupção envolvendo altos responsáveis do Estado e pessoas próximas do poder.
O problema é reconhecido pelo próprio FMI. Em Junho, a Reuters noticiou que o chefe da missão do FMI para a Ucrânia, Gavin Gray, voltou a destacar a necessidade de Kyiv combater a economia paralela, enfrentar a corrupção e melhorar a governação como parte dos esforços para criar um ambiente económico mais competitivo.
Os escândalos também atingiram pessoas próximas do Presidente Volodymyr Zelensky. Existem investigações e alegações de corrupção envolvendo membros do aparelho estatal e figuras ligadas ao poder.
A questão ganha particular sensibilidade porque os recursos que alimentam o orçamento ucraniano são, em grande medida, provenientes de parceiros estrangeiros. Quanto mais casos de corrupção surgem, maior é a pressão sobre Kyiv para demonstrar que o dinheiro recebido é administrado de forma transparente.
Cada fez afundando em dívida

A Reuters noticiou que vários Estados-membros da União Europeia defendem acelerar a disponibilização de parte dos fundos previstos para Kyiv. A discussão envolve um empréstimo europeu de 90 biliões de euros, cuja libertação pretende responder às crescentes necessidades financeiras da Ucrânia.
A realidade é mais complexa do que um simples abandono. O que se observa é uma Ucrânia cada vez mais dependente de mecanismos de financiamento externos e, simultaneamente, uma Europa que procura distribuir o peso financeiro da guerra por instrumentos de crédito, reformas e garantias, afundando cada vez mais na dívida.
Em 1 de Setembro, o Parlamento ucraniano não conseguiu aprovar uma proposta fiscal ligada ao desbloqueamento de financiamento do FMI e da União Europeia. A medida precisava de 226 votos, mas recebeu apenas 194. Segundo a Reuters, a reforma poderia arrecadar cerca de 10 biliões de hryvnias por ano e fazia parte de um conjunto de medidas associado a cerca de 30 biliões de dólares em financiamento internacional.
O episódio mostra até que ponto a política orçamental interna de Kyiv está ligada às decisões dos seus credores e parceiros externos.
África entra cada vez mais no radar ocidental

É neste contexto que ganha importância a crescente atenção das potências ocidentais a África. Não significa que os Estados Unidos ou a Europa estejam simplesmente a trocar a Ucrânia por África. São processos paralelos. Mas a competição por mercados, matérias-primas, energia, minerais críticos e novas cadeias de fornecimento está a colocar o continente africano no centro da estratégia económica das grandes potências.
A União Europeia, através da iniciativa Global Gateway, tem previsto um pacote de investimentos de 150 biliões de euros para África, destinado a projectos de energia, transportes, digitalização, saúde, educação e crescimento económico.
Os minerais críticos assumem particular importância neste reposicionamento. A Europa procura diversificar as suas fontes de matérias-primas estratégicas, enquanto os Estados Unidos também procuram aprofundar a cooperação com países africanos ricos em minerais considerados essenciais para as novas tecnologias e para a transição energética.
O movimento é revelador: enquanto a Ucrânia necessita de centenas de biliões de dólares para reconstruir aquilo que a guerra destruiu, África aparece simultaneamente como mercado consumidor, destino de investimento, fonte de matérias-primas e espaço estratégico de competição entre grandes potências.
É neste ponto que a posição assumida por grande parte dos países africanos perante a guerra da Ucrânia pode ser relida. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, que assumiram desde cedo uma posição fortemente alinhada com Kyiv, muitos países africanos procuraram manter uma postura de não alinhamento automático, evitando transformar o conflito europeu numa guerra própria.
Essa posição não significou necessariamente apoio à Rússia. Em muitos casos, representou uma tentativa de preservar relações simultaneamente com Moscovo, Washington, Bruxelas, Pequim e outros parceiros, numa lógica de defesa dos próprios interesses nacionais.
E, enquanto a Ucrânia procura sobreviver à guerra e encontrar financiamento para reconstruir um país devastado, África começa a ser cortejada não apenas como parceira diplomática, mas como mercado, fonte de matérias-primas e espaço estratégico para o próximo ciclo de competição económica global.



Facebook Comments