Sr. Presidente, por favor, comande isto

EDITORIAL OPINIÃO

Estamos a fracassar. O País está a passar por um momento trágico, com a uma série de acções que fragilizam a nossa soberania, colocando-nos todos de joelhos. A geração de 1990 está a aprender, agora, que de facto a fome mata, que os propalados investimentos na defesa, qual legado transformado em livro, não foram reflectidos na prática. Temos fronteiras porosas, situação que não só coloca a nossa biodiversidade em perigo, como também coloca-nos na mira dos que invejam os nossos recursos, dos cartéis de droga, dos contrabandistas de recursos mineiros, entre outros.

Cabo Delgado é o cúmulo da nossa desgraça, que coloca em causa o futuro brioso com que os deuses da expectativa nos fizeram sonhar. O que nos foi vendido como bênção dos recursos naturais vai, aos poucos, se transformando em maldição. A forma como o enredo se desenrola não só denuncia pactos de sangue, como também descredibiliza o nosso Governo. Deixemos com Deus as origens da Covid-19 e dos ciclones contínuos que também testam a nossa liderança e são argumentados para legitimar a nossa inércia, quando só demos respostas erradas.

Cabo Delgado é a razão da nossa trapalhice. O mundo já reage e, internamente, há um despertar descoordenado dos moçambicanos, que, aos poucos, vão entender a grandeza da ameaça que estamos a enfrentar. Uma resposta conjunta, de todos os moçambicanos, despidos de cores partidárias e de classes sociais, nos fará abrandar a dor dos deslocados, prover alimentos aos que morrem de fome e aceitar com sentido do Estado, o sacrifício patriótico dos heróis que estão na linha de frente no combate aos assassinos que saqueiam e matam covardemente nossas famílias e amigos no terreno.

Ora, as acções desenvolvidas de forma individual, por mais altruístas que sejam, não garantem uma resposta objectiva e inserida na agenda nacional, se é que somos um país com uma agenda, uma agenda do Estado a longo prazo e não de partidos políticos, que tem uma visão fragmentada em lustro.

É onde se encontra a razão da questão que aborda o paradeiro do Comandante-Chefe das Forças Armadas de Defesa de Moçambique. O nosso Comandante não está no mesmo barco, e, lamentavelmente, estamos em direcções diferentes, nós falamos de Palma, ele de cervejas, falamos de um ataque que assusta o nosso maior investidor, ele fala de um mal menor, falamos de incoerência discursiva quanto aos prejuízos dos ataques, ele fala de calma.

Quando declaramos os insurgentes como nossos inimigos primários, ele nos confunde, chamando de opositor qualquer interessado em saber a verdade sobre Cabo Delgado. Coloca-nos uns contra outros, mas os inimigos estão lá, em Palma com armas em punho e em Maputo com megas para nos infectar de fakenews com as suas especulações que nos colocam um contra o outro. Só não está o Comandante-Chefe, nem com armas, nem com a verdade.

Mas porque a nossa inércia pode ameaçar a estabilidade regional, o que devia ser feito pelo nosso Comandante-Chefe foi feito pelos outros. O Presidente de Botswana, Mokgweetsi Masisi, na qualidade de presidente do órgão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) sobre a Política, Defesa e Segurança convocou uma reunião para discutir terrorismo em Cabo Delgado. O nosso Comandante-Chefe, que preside a SADC, devia ter sido o primeiro a convocar esta reunião. Toda a solidariedade ajuda aos deslocados e militâncias dos jovens no terreno, precisam ser coordenados pelo Comandante-Chefe. Não podemos vencer divididos em grupos, muito menos atrapalhados na definição do inimigo, os insurgentes.

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