Moçambique entre países que falharam na vacinação infantil contra outras doenças

SOCIEDADE

Moçambique encontra-se na sexta posição na lista de Países com o maior aumento de crianças que ainda não receberam a primeira dose de vacina combinada contra a difteria, tétano e tosse convulsa com cerca de 186 mil crianças não vacinadas em 2020 devido a Covid-19.

Ângela da Fonseca

A revelação consta dos dados oficiais publicados recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), através do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). No mundo são cerca de 23 milhões de crianças que não receberam as vacinas infantis básicas através dos serviços de saúde em 2020.

De acordo com a OMS, este é o número mais elevado desde 2009. Considerando os dados de 2019, o número representa um aumento de 3,7 milhões de crianças que não receberam as vacinas de rotina.

Entre os países com a situação mais crítica consta, para além de Moçambique na sexta posição, a Índia, Paquistão, Indonésia, Filipinas, México, Angola, Tanzânia, Argentina, Venezuela e Mali.

Segundo a OMS o aumento pode ser resultado de interrupções dos serviços de saúde, em particular de imunização infantil, devido à Covid-19.

Maior parte das crianças, cerca de 17 milhões, segundo a OMS, provavelmente não foi ministrada uma única vacina durante todo o ano, facto que veio aumentar as desigualdades no acesso à imunização.

Muitas destas crianças vivem em comunidades afectadas por conflitos, em lugares remotos sem acesso aos serviços de saúde ou com acesso limitado, ou em ambientes informais ou em bairros degradados, onde existem privações múltiplas, incluindo acesso limitado aos serviços sociais básicos.

“Numa altura em que os países clamam por vacinas contra Covid-19, temos recuado noutras imunizações, deixando as crianças expostas ao risco de doenças devastadoras mas preveníveis, como o sarampo, a poliomielite ou a meningite”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, director geral da OMS.

Ghebreyesus disse que os surtos de doenças múltiplas podem ser catastróficos para as comunidades e sistemas de saúde que já lutam contra a Covid-19, tornando mais urgente a necessidade de se investir na vacinação infantil de modo a assegurar que todas as crianças sejam alcançadas.

Em comparação com 2019, mais 3,5 milhões de crianças falharam a sua primeira dose de vacina contra a difteria, tétano e tosse convulsa (DTP-1), enquanto mais de três milhões de crianças falharam a sua primeira dose de vacina contra o sarampo.

“Esta evidência deve ser um aviso claro que a pandemia de Covid-19 e as perturbações relacionadas custam-nos resultados valiosos que não podemos dar-nos ao luxo de perder e as consequências serão pagas em vidas e bem-estar dos mais vulneráveis”, disse Henrietta Fore, directora executiva da UNICEF.

A directora executiva da UNICEF afirmou que mesmo antes da pandemia, havia sinais preocupantes de que já estava a começar a perder-se terreno na luta para imunizar as crianças contra doenças infantis evitáveis, inclusive com os surtos generalizados de sarampo há dois anos.

“A pandemia veio agravar uma situação que já era má. Com a distribuição equitativa de vacinas contra a Covid-19, como uma prioridade para todos, devemos lembrar que a distribuição de vacinas sempre foi injusta, mas não tem de ser assim”, disse.