Conheça a história de algumas mulheres que foram descriminadas por só terem nascido “meninas”

SAÚDE SOCIEDADE
  • A dor de não poder dar continuidade ao apelido da família
  • Expulsa de casa após três tentativas frustradas de ter um filho homem
  • Em algumas regiões, as meninas tem menos direitos e privilégios que as meninos
  • “Escolhas trazem consequências graves e reforçam a discriminação de mulheres”

Em países em desenvolvimento como é o caso de Moçambique, os filhos são vistos como fonte de rendimento e de segurança para os pais na velhice. Factores culturais, regras de parentesco, tradição e a religião valorizam mais os homens, o que faz com que alguns pais, principalmente na zona sul do país, onde a linhagem é patriarcal, prefiram filhos do sexo masculino em detrimento dos do sexo feminino, porque podem dirigir rituais familiares, dar continuidade ao apelido e ocupar lugares de liderança. Esta situação propicia descriminação, tanto das mulheres como das crianças, culminando muitas vezes em violência patrimonial e psicológica, que, muitas vezes, acabam desenvolvendo traumas que influem na sua personalidade no futuro.

Neila Sitoe

Apesar da Constituição da República de Moçambique (2004), no artigo 36 (princípio da igualdade de género), estabelecer que “o homem e a mulher são iguais perante a lei em todos os domínios da vida política, social, económica e cultural”, em algumas zonas do país esse princípio não é observado.

Para além da violência contra as mulheres que só geram meninas, as crianças são obrigadas, desde pequenas, a conviverem com a descriminação e, em alguns casos, chegam a ser excluídas do direito à herança simplesmente por serem do sexo feminino. Muitas vezes, tanto as mães, assim como as filhas acabam desenvolvendo traumas que dificilmente conseguem ultrapassar ao longo de toda a vida.

Maria Helena (nome fictício), de 48 anos de idade, residente em Nhancutse, distrito de Chongoene, na província de Gaza, mãe de seis filhos, todos do sexo feminino, sofre violência por parte dos familiares do falecido marido por não lhes ter dado um herdeiro que pudesse dar continuidade ao apelido da família, como o dizem.

Desde que se uniu ao seu esposo quando tinha 19 anos, foi dita que na família da qual passaria a fazer parte, o primogénito deve ser sempre um homem e deve ter mais filhos que filhas, mas não se importou com essas declarações vindas da sogra e dos demais parentes do marido.

“Tudo começou quando comecei a namorar com o pai das minhas filhas, na altura eu tinha 18 anos, um ano depois, engravidei e fui viver com os pais dele. Era bem tratada e estava feliz. O tempo foi passando e quando se aproximava a data do parto, a minha sogra e os demais familiares diziam que o aspecto da minha barriga mostrava que iria ter um bebe do sexo feminino e se tal acontecesse, a probabilidade de a criança não ser do meu marido era maior, porque na linhagem deles todos os primogénitos eram do sexo masculino. Não dei muita importância e continuei a levar a vida e a convivência com a família normalmente”, relata.

Quis o destino que o vaticínio se tornasse realidade, transformando o momento de felicidade num precedente para uma tortura psicológica que dura há mais de 29 anos.

“Chegou o dia do parto, numa tarde de terça-feira, ainda me lembro como se fosse hoje, apesar de terem passado 29 anos, porque foi o início do meu sofrimento naquela família. Dei parto e o bebé, por ironia do destino, era uma menina, quando a minha sogra e a irmã dela foram visitar-me na maternidade e viram que tive uma menina, os comentários foram logo negativos, nem se quer felicitaram-me pela criança que tinha trazido ao mundo, só murmuravam em tom alto que até as companheiras do quarto as ouviram dizer que acusei o filho delas e que a criança não pertence àquela família”, revelou com os olhos escorrendo lágrimas como se de uma cascata se tratasse, o que fez com que a entrevista fosse várias vezes interrompida.

De seguida, Maria Helena desamarrou um nó da sua capulana e retirou um recipiente que continha rapé, e pediu uma pausa para consumir um pouco das ervas que lhe trazem sossego por alguns instantes, e continuou a contar-nos a sua triste história.

“Quando saímos do hospital, a minha vida não mais foi a mesma, porque primeiro tinha um bebé e depois não tinha apoio nem da família e nem do meu próprio marido. O tempo foi passando, era maltratada, insultada e deixavam todos os afazeres domésticos de uma família de 10 membros para eu fazer sozinha. Nem tempo para amamentar e cuidar da minha filha tinha, e quando ela tinha um ano e dois meses, a minha sogra disse ao filho que já era tempo de termos outro filho, sem dar-me nenhuma possibilidade de escolha. Na esperança de ter um filho homem aceitei e de novo voltei a ter uma menina”, desabafa.

Expulsa de casa após três tentativas frustradas de ter um filho homem

Os insultos e os maus tratos por parte do marido e dos familiares pioraram. Maria conta que seu marido sempre a culpava por ter filhas, de tal maneira que as suas “idas à maternidade” eram constantes e seu marido cansado de ouvir reclamações por parte dos pais e demais familiares, decidiu ir trabalhar na África do Sul, onde só regressava aos finais do ano. Mensalmente enviava dinheiro para as despesas da casa, mas quem recebia e geria era a mãe dele.

“Meu marido sempre enviava dinheiro, mas eu nem sequer sabia quanto valor ele enviava, a minha sogra é que recebia e depois dava-me para poder comprar algumas coisas para mim e para as minhas filhas, a convivência dentro da casa com os meus sogros foi piorando, porque na terceira gestação tive de novo uma menina, de tal maneira que expulsaram-me de casa, alegando que eu tinha espíritos maus. Fez-se uma reunião entre a minha família e a do meu marido e retornei ao lar, mas porque vivia sobre pressão, tanto da família dele assim como da minha, voltei a engravidar e novamente tive uma menina, na quinta gravidez também dei à luz a uma menina, e eu já tinha decidido não mais ter filhos, porque, para além de não estar a conseguir ter filhos do sexo masculino, via que as minhas filhas assim como eu éramos maltratadas pelos meus sogros, que chegavam a reclamar que só gastávamos comida deles em vão e não traríamos nenhum benefício e retorno. Lembro-me que só para as minhas filhas estudarem foi uma grande luta, mas com a ajuda do meu tio consegui registá-las e colocá-las na escola”, desabafou.

Apesar da idade já avançada, a fonte voltou a engravidar e a sexta também foi uma menina e por ser hipertensa, Helena teve complicações no parto e os médicos disseram que não poderia mais voltar a ter mais filhos.

“Fiquei triste, e para aumentar o meu sofrimento, dias depois recebemos uma chamada da África do Sul onde informaram-nos que o meu esposo tinha falecido vítima de tuberculose, e, mais uma vez, a minha sogra culpou-me, de tal maneira que até hoje vivemos no mesmo quintal mas a convivência não é boa. Ela é quem gere todos os bens que eu e meu esposo fomos adquirindo ao longo do tempo, alegando que não sou digna de nenhum bem, porque não dei herdeiro à família deles e que as minhas filhas vão se casar e esquecer da família paterna”, narrou.

“Irritado por eu não poder lhe dar um varão meu esposo arranjou uma outra mulher”

Tal como Maria, Zaida Martins (nome fictício) de 50 anos de idade, residente em Chongoene, no Bairro A, é mãe de quatro meninas e guarda até hoje no corpo e na alma as marcas da violência que sofreu por não poder dar à família um filho do sexo masculino.

“Gostava que o meu primogénito fosse um rapaz, mas tal não aconteceu, o que trouxe frustração para mim e para o meu marido, dois anos depois voltei a engravidar e tive novamente uma menina. Meu esposo, irritado com a situação, arranjou uma outra mulher e vivíamos na mesma casa. Ele a tratava como rainha e eu como a escrava deles. Quando engravidou, eu era obrigada a fazer todas as tarefas de casa, até colocar água na casa de banho para ela tomar banho, porque diziam que ela não podia fazer muito esforço. Feliz ou infelizmente ela teve gémeos, mas duas meninas, o meu marido não gostou e também começou a tratá-la mal. Ela como era independente, financeiramente, levou tudo o que era dela e as filhas e foi embora”, afirmou.

O tempo passou e Zaida voltou a engravidar e na terceira gestação, também teve gémeos mas do sexo feminino, “na gravidez das gémeas sofri muito e decidi juntamente com meu marido não ter mais filhos, decisão essa que fez com que até hoje as pessoas me apontem o dedo como a senhora que não conseguiu ter filhos, só nasceu “putas”. Parei de ir às cerimónias familiares, não saía de casa e cheguei a me arrepender de ter tido só meninas, mas como não dependia de mim, nada podia fazer e sou grata a Deus porque há mulheres que nem se quer conseguem ter filhos”, sublinha.

A dor de quem foi “condenada” desde a nascença

Mas a violência não se resume somente contra a progenitora. Algumas crianças do sexo feminino começam a conviver com a descriminação desde criança. Isso não acontece somente nos casos em que nascem somente meninas, como também em casos em que tem irmãos que, simplesmente, por serem do sexo masculino são preferidos dos pais e da famílias, gozando, por isso, de certos privilégios.

Leandra Chivure, de 29 anos de idade, residente na cidade de Maputo, é a terceira e última filha dos seus pais. Conta que quando tinha 13 anos começou a notar formas diferentes de tratamento entre si e seus dois irmãos, desde trabalhos domésticos em excesso, passando pela falta de demonstração de afecto, até à não preocupação com a sua formação.

“Desde pequena, os meus pais nunca demonstraram carinho por mim e minha outra irmã, como demonstram pelo meu irmão mais velho. Houve situações em que eu precisava de ajuda e, no lugar de amor eram berros, tarefas domésticas em excesso, independentemente de como eu me sentisse, mas para o meu irmão, por exemplo, o tratamento era diferenciado, por ser o primogénito e homem talvez. Sempre teve tudo do bom e do melhor, teve os melhores brinquedos, os melhores celulares, computador de mesa e, depois, um laptop, e para mim eram apenas bonecas e celulares que os meus pais estavam cansados de usar”, lamentou.

Leandra conta que quando terminou o ensino médio, concorreu para algumas universidades públicas, mas não conseguiu ser admitida e teve que ficar vários anos sem estudar, “ por várias vezes concorri para as universidades públicas e não consegui ser admitida, mas meu irmão teve direito a estudar numa universidade privada, cansei de pedir que pagassem os meus estudos e optei por arranjar um emprego para eu mesma pagar meus próprios estudos”, narrou o seu drama, orgulhosa por ter conseguido vencer, apesar das vicissitudes.

O Evidências ouviu um Rodrigues Macuacua, de 48 anos de idade, residente na cidade de Maputo, pai de quatro filhos que diz que tanto ele, assim como a esposa não tem preferência nos filhos, amam e tratam a todos da mesma forma.

“Eu agradeço a oportunidade que Deus me deu de poder ser pai, por isso trato todos os meus filhos da mesma forma. Quando a minha mulher ficou grávida pela primeira vez, o nosso desejo foi que a criança nascesse sem nenhuma complicação e bem de saúde, não nos importávamos se fosse do sexo masculino ou feminino, tanto que tivemos uma menina e a amamos, depois tivemos um menino, seguido do outro menino e, por fim, uma menina e amamos e tratamos a todos de igual maneira, porque todos são nossos filhos, eles não pediram para nascer, nós é que os quisemos gerar”, afirmou.

Acrescenta que reconhece que existam pais que têm preferências em relação ao sexo dos filhos, e aconselha-os a amarem os seus filhos independentemente do sexo.

“Escolhas trazem consequências graves e reforçam a discriminação de mulheres”

Para Constantino Júnior, Cientista Social e Especialista em Estudo sobre Mulheres, Género, Cidadania e Desenvolvimento, a preferência dos pais pelos filhos do sexo masculino está ligada a questões tradicionais, culturais e até económicas. Sendo Moçambique um país maioritariamente patriarcal, a preferência justifica-se, muitas vezes, com a necessidade de garantir a manutenção do nome.

“Estas escolhas podem trazer consequências graves para a sociedade, na medida em que reforçam a discriminação de mulheres. Em algumas regiões do meio rural, só os meninos têm facilidade de frequentar a escola, formarem-se e, por sua vez, as meninas vivem à sombra da vontade dos outros, e na vida adulta, essa preferência acaba influenciando na forma de ser, de pensar, na tomada de decisões e na própria independência da mulher no que concerne às suas escolhas”, frisou.

Rita Nhampengo, psicóloga, diz que as preferências são feitas de forma inconsciente. Todavia, em muitos casos de forma consciente. Por isso, constitui um desafio adoptar medidas para evitar a propagação desse fenómeno. “Os pais devem tratar todos os filhos de forma igual, criar condições iguais para todos os filhos para um desenvolvimento harmonioso dos mesmos”, apelou.