Falta de diálogo entre pais e filhos condiciona adesão de adolescentes a métodos contraceptivos

SAÚDE SOCIEDADE
  • Prevenção da gravidez precoce
  •   Há poucos adolescentes a optarem pela abstinência

Continua a ser um grande tabu falar da sexualidade nas famílias, e a falta de diálogo entre pais e filhos tem trazido graves consequências para adolescentes, sobretudo raparigas, que por não terem informação acabam não aderindo aos métodos contraceptivos, ficando, por via disso, susceptíveis à gravidez precoce. Márcia Cândido, de 24 anos de idade, é um exemplo disso. Cresceu aos cuidados da avó e durante a sua adolescência nunca teve, em casa, com quem conversar sobre as transformações do seu corpo e muito menos sobre a saúde sexual e reprodutiva. Como resultado, engravidou aos 15 anos e quase perdeu a vida na tentativa de um aborto clandestino.

Neila Sitoe

Tende a aumentar o número de adolescentes que procuram os serviços de planeamento familiar nas unidades sanitárias para prevenir a gravidez precoce. A título de exemplo, o Hospital Geral de Chamanculo, na Cidade de Maputo, recebe, em média, diariamente 40 mulheres que procuram os Serviços de Planeamento Familiar pela primeira vez, e, destas, mais que a metade, concretamente 25 mulheres, são adolescentes com idades compreendidas entre os 10 e 19 anos de idade, contrariamente ao ano transacto, em que, diariamente, o hospital recebia 30 mulheres, sendo que dez eram adolescentes.

Apesar do crescente número de adolescentes que procuram os serviços de planeamento familiar, a gravidez precoce ainda é uma realidade que afecta a maioria das adolescentes em Moçambique, pois cerca de 439.453 mulheres, dos 20-24 anos, tiveram o primeiro filho antes dos 18 anos, e, dessas, 85.257 eram menores de 15 anos, de acordo com o relatório do UNICEF feito em 2011.

Entre as principais causas da gravidez precoce consta a falta de informação e diálogo entre pais e filhos sobre a saúde sexual e reprodutiva. Em muitas partes do país, sobretudo no meio rural, a sexualidade ainda é um tabu.

Márcia Cândido, de 24 anos de idade, residente em Bobole, na província de Maputo, engravidou aos 15 anos. Conta que morava com a sua avó materna, visto que seu pai trabalhava fora do país e sua mãe vivia noutro distrito, e como não conversava com a sua avó sobre as transformações que iam decorrendo no seu corpo, e nem sobre saúde sexual e reprodutiva, só se deu conta que estava grávida no terceiro mês de gestação.

“Quando tive a primeira menarca fiquei assustada e chorei, porque pensei que estivesse com alguma doença. E como na casa da minha avó era tabu falar de menstruação e de qualquer coisa que envolvesse sexo, falei com minhas amigas e cada uma foi me explicando do seu jeito. Como era possível eu ficar três ou quatro meses sem ver período, quando fiquei três meses sem ver período pensei que fosse algo normal. Mas, depois comecei a ter enjoos e vómitos constantes e minhas amigas disseram-me que podia estar grávida. Fiz o teste e se comprovou que estava grávida, contei para o meu namorado e não quis assumir”, desabafou a agora jovem Márcia.

Uma tentativa de aborto que quase a tirou a vida

Márcia revelou que ficou com medo de contar para a sua avó, porque era a neta privilegiada e não queria decepcioná-la. Optou por fazer aborto clandestino já com cinco meses de gestação e o mesmo não foi bem-sucedido.

“Fiz aborto com cinco meses, tive sangramento e muitas dores, depois as dores passaram e pensei que já estava tudo bem. Num certo dia, tive dores fortes e sempre que visse o período passava mal por causa das cólicas, em casa pensaram que era algo normal. Mas as dores iam se intensificando e meu tio levou-me ao hospital, onde descobriram que tinha feito um aborto clandestino. Passei por todos os procedimentos e quando voltávamos para casa meu tio pediu que o assunto ficasse entre nós dois para não manchar a imagem da família. Ficou nosso segredo”, revelou.

Márcia não tem dúvidas de que se tivesse tido informação optaria pelos métodos contraceptivos quando iniciou a vida sexual, não só para prevenir a gravidez, como também para prevenir doenças. Com a lição aprendida, a jovem optou por fazer enfermagem para salvar vidas, como a sua foi salva, visto que quando fez o aborto clandestino correu risco de morrer.

As graves consequências da falta de diálogo

Filipa Cossa, 26 anos de idade, residente no bairro de Bagamoio, na cidade de Maputo, também teve uma gravidez precoce aos 17 anos, mas ao contrário da Márcia não optou pelo aborto. Contudo, porque por vezes a gravidez é vista como desonra ao nome da família, foi expulsa de casa e obrigada a ir ao lar.

“Estava num relacionamento de um ano e nove meses quando engravidei, foi difícil descobrir porque o sintoma mais vulgar, que é o enjoo, não tive, mesmo com falta de menstruação não desconfiei. Informei ao meu namorado, que desconfiava que estava grávida pela falta de menstruação, passados três meses fomos confirmar que estava grávida através da ecografia, fiquei em choque”, relatou.

Filipa diz que questionou o que fariam ao namorado, porque os dois ainda estavam a estudar, mas ele disse-lhe que se optasse pelo aborto não podia contar com ele e deixou a decisão nas mãos dela. Mas antes que decidisse, uma das anciãs da igreja que frequentava, contou à mãe que ela estava grávida e sua mãe não recebeu bem a informação. 

“Para o meu azar, não tive o apoio dos meus pais, que se reuniram com os meus tios e me levaram para o lar. A convivência no lar durante a gestação foi boa, mas após o parto tudo mudou. Foi uma experiência que não gostaria de repetir. Quando a criança tinha oito meses, abandonei o lar e voltei para casa, mas continuei com o meu namorado, que depois aconselhou-me a fazer planeamento familiar, para que não passássemos pela mesma situação”, lamentou.

A fonte lamenta o facto de mesmo depois de ter sido mãe, seus pais e sua sogra nunca terem conversado com ela sobre sexualidade nem sobre os métodos contraceptivos.

“Se os pais conversassem com os filhos sobre métodos contraceptivos e demais assuntos, evitariam muitos problemas pelos quais os adolescentes passam e garantiriam um futuro melhor para eles, porque formar e informar os filhos é dever dos pais. Se os meus pais tivessem conversado comigo, a minha estória teria sido diferente”, argumenta. 

Quando a prevenção chega depois de se experimentar o fundo do poço

Daniel Tembe, encarregado de educação e tutor legal de uma menor de 17 anos, diz que a sua sobrinha era uma pessoa muito calada e não se apercebeu que ela já tinha iniciado a vida sexual. Só descobriu que ela estava grávida com três meses de gestação, e como foi decisão dela continuar com a gravidez nada podia fazer, mas no sétimo mês ela teve complicações e perdeu a gravidez.

“Logo que ela teve um aborto espontâneo, fiz questão que ela fizesse planeamento familiar, mas antes conversei com ela para explicar-lhe tudo o que aconteceu, porque ela estava confusa. Expliquei-lhe as vantagens do planeamento e disse que pode sempre contar comigo e que se sentisse necessidade de conversar, estou aberto para escutá-la e apoiá-la no que for necessário. Ela aceitou, fomos ao SAAJ e, com a ajuda da enfermeira, escolheu o método que queria usar”, afirmou.

Daniel acrescentou que sempre olhou a sobrinha como uma criança e não se deu conta que ela já era adolescente e que já tinha a vida sexual activa. Hoje, aconselha aos pais e encarregados de educação a dialogarem com os seus filhos sobre saúde sexual e reprodutiva, ao invés de proibi-los de namorar, o que é uma necessidade biológica do ser humano.

“Actualmente, poucos adolescentes optam pelo método tradicional da abstinência”

A enfermeira de saúde materna infantil (SMI), Tânia Come, diz que os métodos contraceptivos são de extrema importância para adolescentes e jovens na redução ou eliminação das gravidezes precoces, para dar espaçamento das gravidezes, saber quando e se deseja ter filhos e para planear a vida.

“É possível prevenir a gravidez precoce usando os métodos contraceptivos. E como, actualmente, poucos adolescentes optam pelo método tradicional da abstinência é melhor que usem os métodos modernos, mas é sempre melhor usar o preservativo para prevenir infecções sexualmente transmissíveis”, explicou.

A enfermeira aconselha as pessoas a buscarem informação sobre saúde sexual e reprodutiva no lugar de acreditarem em mitos sobre os contraceptivos. Acrescenta que nem todos os métodos são benéficos para todas as pessoas, é importante primeiro fazer exames para saber qual é o método que a mulher pode usar para que não tenha efeitos colaterais.   

Fazem parte dos métodos contraceptivos modernos a pílula, dispositivo intra-uterino (DIU), anticonceptivo injectável, implantes, métodos vaginais, preservativo masculino e feminino, laqueação tubária, vasectomia e dos métodos tradicionais a abstinência sexual e coito interrompido e métodos folclóricos (medicamentos e rituais tradicionais com plantas, manuseio da placenta ou outros).

Em Moçambique, o Programa de Planeamento Familiar se constituiu como programa nacional a partir de 1980, no mesmo ano foi introduzido no currículo dos médicos, enfermeiros de saúde materno-infantil (SMI) e técnico de medicina. Os Serviços de Planeamento Familiar estão sob a responsabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS), encontrando-se integrados no atendimento materno-infantil e baseando-se na distribuição gratuita de contraceptivos modernos.

Para aumentar a adesão dos adolescentes aos métodos contraceptivos, o Ministério da Saúde, em parceria com organizações da sociedade civil e demais parceiros, tem optado em deslocar brigadas para as escolas e demais locais com aglomeração de adolescentes.