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- Novo método de silenciamento de vozes críticas?
- “(…) Fui deliberadamente exposta a uma combinação perigosa de metais pesados”
- Selma Inocência diz que hoje vive com dores e limitações
A conceituada jornalista moçambicana Selma Inocência, actualmente a residir na Alemanha, denunciou, através das redes sociais, que foi envenenada na sua última viagem a Moçambique, onde ministrou uma formação a jornalistas de diferentes órgãos de comunicação social nacionais e estrangeiros. Selma, que se tem mostrado crítica às acções do Governo, referiu que desde o episódio que por pouco lhe custava a vida, vive com dores e limitações, tendo advertido que não é crime o exercício de jornalismo e, por isso, vai continuar com o seu dever. O diagnóstico pormenorizado do que a apoquenta foi possível, ao que tudo indica, pelo facto de esta residir na Europa, onde a tecnologia permite. Na eventualidade deste ataque ser uma acção dos famosos esquadrões da morte, há o receio de estarmos diante de uma nova forma de assassinar pessoas críticas e opositoras, uma forma que pode estar a ser implementada em larga escala.
Duarte Sitoe
As redes sociais ficaram em polvorosa, este fim-de-semana, depois do anúncio de uma das mais prestigiadas jornalistas investigativas do país de que teria sido envenenada na última vez que esteve em Moçambique.
Selma Inocêncio referiu que numa primeira fase pensava que se tratasse de um problema normal de saúde. No entanto, depois de uma bateria de exames médicos constatou que o problema era mais grave.
“Olá a todos, este não é um vídeo fácil de gravar, mas é necessário e devo isto a mim mesma, e àqueles que acreditam, na verdade, na justiça e no poder do jornalismo. Em Março de 2025, a minha vida mudou para sempre, depois de regressar a Maputo, onde fui dar uma formação, comecei a sentir-me extremamente mal. No início era cansaço, dores fortes de cabeça, tonturas, dores nas costas, queda de cabelo. Depois caminhar começou a ficar cada vez mais difícil, as minhas forças começaram a desaparecer, sabia que algo estava profundamente errado, procurei ajuda médica aqui na Alemanha, onde moro, estudo e trabalho, como vocês sabem e fui internada no hospital e passei por muitos exames médicos e os resultados finalmente chegaram e foram chocantes para mim, para a família e amigos”, contou Inocência.
A jornalista referiu ainda que os exames médicos provaram que foi envenenada na sua última estadia em Moçambique.
“Fui envenenada. Não há uma maneira fácil ou elegante de dizer isto. É uma verdade pesada e muito vergonhosa. Fui deliberadamente exposta a uma combinação perigosa de metais pesados. Quase perdi a vida. Hoje, vivo com dores e limitações físicas. Jornalismo não é crime, é meu dever, e continuarei a honrá-lo”, declarou para depois acrescentar que o seu corpo carregava metais pesados”.
“O meu corpo carregava níveis altos de metais pesados, tóxicos, incluindo mercúrio, estanho, cádmio, urânio e tálio. Estas não são substâncias que se encontram por acaso, são venenos industriais e muitos deles são usados em indústrias químicas, mas também, infelizmente, são usados em operações silenciosas para eliminar pessoas. Vocês não têm ideia do que estou falando, reparem nisso, eu fui exposta a uma combinação de substâncias extremamente tóxicas e estou falando, por exemplo, do mercúrio, que causa neuroticidade, danos renais, tremores, declínio cognitivo. O tálio, por exemplo, é conhecido por causar queda de cabelo, falência dos órgãos e danos nervosos graves. O urânio, que provoca falência renal, risco de câncer. O estanho ou zinco é associado a danos nervosos, desconforto gástrico-intestinal, fadiga crónica. (…) Estou aqui a falar de mais de 20 substâncias, pelo amor de Deus que humano consegue fazer isto para outro ser-humano, eu estou viva por um milagre”, relatou.
“Se de facto é crime, porque eu tenho que ser eliminada e não julgada?”
Perante esta situação, a conceituada jornalista vinca que não podia abraçar o silêncio porque esse apenas “protege aqueles que usam o medo e métodos cruéis para intimidar as outras pessoas.” Indo mais longe, Selma Inocência adverte que jornalismo não é crime e alerta que substâncias tóxicas estão sendo usadas para silenciar vozes.
“Muitos anos, dediquei a minha vida, a minha voz, o meu trabalho para falar sobre injustiças, corrupção, abusos de direitos humanos e este é meu trabalho como jornalista. É crime? E, porque sendo crime, eu tenho que ser eliminada e não julgada, se de facto é crime? Mas o que aconteceu comigo deve servir como alerta para toda a gente. Substâncias tóxicas estão sendo usadas como ferramentas para silenciar vozes. A banalização da vida humana precisa de acabar. Tenho sempre falado sobre isto, não podemos permitir que isto aconteça na nossa sociedade, não hoje!”.
Nas entrelinhas, Inocência advertiu que não gravou o vídeo para que o mundo lhe sinta pena, mas para alertar sobre o que aconteceu e, sobretudo, das pessoas que estiveram envolvidas na operação envenenamento.
“O importante: é preciso alertar que estas substâncias, estes metais pesados não são encontrados em exames normais, não se encontram em exames clínicos normais e no meu caso foi preciso um teste toxicológico especializado e se não tivesse tido a chance de fazer este teste, eu teria supostamente morrido de doença prolongada ou ‘morte natural’ e neste momento estou internada e em tratamento intensivo é por isso que tenho muitas limitações físicas por agora, dores intensas diariamente. Tenho agora que enfrentar uma dura realidade, passo o dia deitada, o caminho para a recuperação é longo e incerto, e muito doloroso”, destacou.
Não obstante o sucedido, Selma Inocência vincou que ainda acredita na justiça, não apenas na justiça divina, mas na justiça que traz responsabilização.



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