Grande Maputo passa a contar com Transporte Público Escolar a partir deste mês

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  • Governo vai subsidiar um operador privado e a tarifa será de 12 meticais
  • Plataforma permitirá aos encarregados acompanhar, em tempo real, o percurso dos autocarros

A Área Metropolitana do Grande Maputo deverá contar, já a partir da primeira quinzena de Maio corrente, com um novo sistema de transporte público escolar, uma iniciativa do Ministério dos Transportes e Logística (MTL), que visa garantir mobilidade segura, acessível e mais organizada para estudantes do ensino primário, secundário, técnico-profissional e universitário. Numa fase-piloto, o Evidências apurou que o projecto vai arrancar com 40 autocarros dedicados exclusivamente ao transporte de estudantes ao custo subsidiado de 12 meticais.

Elísio Nuvunga

O projecto inovador e, por demais ambicioso, insere-se no Programa de Melhoria do Sistema de Transporte Público, promovido pelo Governo, através do Ministério dos Transportes e Logística, e que contempla tanto o transporte urbano como rural.

No total, serão introduzidos 190 autocarros na região metropolitana de Maputo, dos quais 40 serão destinados ao transporte escolar, 10 irão reforçar o sistema de integração modal que combina transporte rodoviário e ferroviário e os restantes 140 serão alocados às autarquias para reforço do transporte público geral.

A informação foi avançada pelo presidente do Conselho Administrativo da Agência Metropolitana de Maputo (AMT), Fernando Andela, numa entrevista exclusiva ao Evidências na qual explicou que o novo sistema traz inovações significativas, incluindo uma plataforma digital que permitirá aos encarregados de educação acompanhar, em tempo real, o percurso dos autocarros e monitorar a utilização por parte dos estudantes. Além disso, os próprios utilizadores poderão visualizar a localização dos veículos e planear melhor as suas deslocações, garantindo maior previsibilidade nas viagens.

A tarifa foi fixada em 12 meticais por viagem, sendo subsidiada pelo Estado, e o sistema funcionará sem dinheiro físico, através de cartões electrónicos. Está igualmente prevista a reintrodução de passes escolares mensais e trimestrais, com custos reduzidos.

“A tarifa é subsidiada, são 12 meticais, o Governo vai cobrir o déficit da tarifa. É um sistema que vai permitir, igualmente, dar alguma previsibilidade em termos de viagem, porque os autocarros vão estar disponíveis para a visualização em plataforma, vai permitir também que os encarregados de educação possam monitorar onde estão os autocarros e até, de alguma forma, saber o uso em termos de circulação dos seus educandos. Portanto, é um serviço para adolescentes e jovens, do ensino secundário, ensino técnico profissional e também do ensino universitário”, explicou o presidente do Conselho Administrativo da AMT.

Estudantes poderão trocar de autocarro sem pagar nova tarifa

Outro aspecto relevante é a possibilidade de integração entre autocarros, permitindo que um estudante que precise trocar de veículo, dentro de um intervalo de 30 minutos, não pague uma nova tarifa.

Os autocarros irão operar em rotas previamente definidas e com paragens específicas, evitando interferência com o transporte público convencional. Nesta fase inicial, o sistema irá abranger cinco autarquias de Maputo, sendo Matola, Matola Rio, Boane e Marracuene, ficando de fora municípios como Namaacha e Manhiça.

Apesar de o investimento por viatura, movida a gás, rondar, em média, seis milhões de meticais (6.000.000), o Governo sublinha que o foco principal está no impacto social da iniciativa, ao assegurar transporte digno, seguro e acessível para os estudantes.

“Em média são 6 milhões de meticais cada um dos autocarros que estão a ser colocados em circulação. Aqui, queremos olhar, sim, para o fim último, prover transporte digno para a área metropolitana, para os moçambicanos, sobretudo, neste caso, em relação para os estudantes, quer do ensino secundário, ensino técnico profissional, bem como para o segmento universitário”, disse.

Encarregados e educandos mostram-se expectantes

Ainda que a fase piloto do transporte escolar não cubra todas as escolas, devido ao número limitado de autocarros, as autoridades consideram que o projecto representa um passo importante para melhorar a mobilidade urbana e poderá ser expandido com base nos resultados e na adesão dos utentes.

Entre pais e encarregados de educação, a iniciativa é recebida com expectativa, mas também com algumas reservas. Muitos consideram que o novo sistema pode representar um alívio significativo nos custos e na logística diária de transporte dos filhos, sobretudo face às dificuldades e à irregularidade do transporte público convencional.

“Se realmente funcionar como dizem, com horários previsíveis e segurança, será uma grande ajuda para nós que todos os dias lutamos para garantir que os nossos filhos cheguem à escola”, afirmou um encarregado de educação na cidade da Maputo.

Outros destacam como positiva a possibilidade de monitorar os autocarros em tempo real, vendo isso como sinónimo de segurança. No entanto, há também preocupações quanto à cobertura limitada do projecto-piloto, ao número reduzido de autocarros e à necessidade de garantir que o sistema funcione de forma consistente.

“A ideia é boa, mas o desafio será garantir que não falhe como outros serviços públicos”, referiu outro pai, sublinhando a importância da expansão do sistema para mais zonas e escolas.

Outro encarregado não tem muita fé no governo em relação ao projecto: “Vão fazer como o projecto Famba, vão nos fazer recarregar tais cartões e depois vão sumir com o dinheiro dos nossos filhos”, recordou em anonimato.

Fim das longas filas de espera?

Também entre os estudantes, principais benificiários do novo sistema, a iniciativa é vista com entusiasmo, sobretudo pela promessa de maior previsibilidade e segurança nas deslocações diárias. Muitos reconhecem que o actual cenário do transporte público, marcado por longas esperas e superlotação, tem impacto directo no rendimento académico e na pontualidade.

“Às vezes perdemos aulas porque não há transporte ou porque os autocarros passam cheios. Se este sistema funcionar, vai ajudar muito”, contou um estudante universitário na cidade de Maputo.

Outros destacam a vantagem do sistema digital, que permitirá acompanhar os autocarros em tempo real e planear melhor as viagens. Ainda assim, há quem manifeste dúvidas quanto à abrangência do projecto-piloto e à sua capacidade de responder à procura.

“É uma boa iniciativa, mas 40 autocarros podem não ser suficientes para todos. Esperamos que funcione bem e que aumentem mais autocarros”, referiu uma estudante do ensino secundário.

Para uma estudante da Escola de Jornalismo, a iniciativa já não constitui novidade alegadamente porque já houve muitas promessas não cumpridas.

“Eu só acredito vendo. Já não espero muita coisa desse governo. São quantos projectos falhados?” questionou, acrescentado: “veremos na prática”.

Projecto BRT arranca no segundo semestre

Paralelamente, decorrem preparativos para a implementação do sistema BRT (Bus Rapid Transit), cujas obras estruturantes deverão arrancar no segundo semestre de 2026, reforçando a visão de modernização do transporte urbano na capital.

“O projecto BRT está em progresso. Neste momento decorrem várias actividades, sendo que as mais visíveis foram a construção das linhas alimentadoras do corredor do BRT, que é aquela secção da N1, Molumbela, a Primeira Rotunda, que é o Intaka-Boquisso, a Terceira Rotunda, que é a ligação para Matlemele, fizemos melhorias aqui a nível da 24 de Julho, na área da OUA, aquilo foi feito no âmbito do projecto do BRT”, assegurou.

Trata-se de um projecto em que o Governo e parceiros estão a investir cerca de 250 milhões de dólares desembolsados pelo Banco Mundial para a implementação de um projecto que visa melhorar a mobilidade e acessibilidade de pessoas da área metropolitana do Grande Maputo.

Intitulado “Move Maputo”, o projecto terá duração de dois anos e será implementado em fases. Nesta primeira fase estão a decorrer trabalhos de reabilitação e alargamento de algumas vias de acesso abrangidas pelo traçado do projecto.

Segundo as autoridades, com o projecto espera-se que sejam transportadas mais de 124 mil pessoas por dia e também as vias que vão reabilitar agora vão poder transportar cerca de 95 mil cidadãos do interior das suas áreas, com vista a evitar as pessoas percorrerem grandes distâncias para apanhar o transporte como se tem verificado até agora.

Está igualmente prevista a aquisição de carros eléctricos e a diesel para serem aplicados na área metropolitana, onde está prevista a aquisição de 98 autocarros para este projecto.

Assim como o Transporte Escolar, o sistema de pagamento do BRT será electrónico, haverá cartões e cabines apropriadas para a venda dos mesmos, segundo assegurou Andela.

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