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- Crise de combustível expõe uma falência técnica que ninguém quer assumir
- País atingiu mais de 1,1 bilião de dólares em pagamentos pendentes (backlog)
- Bancos Comerciais não conseguem garantir pagamentos de facturas para bens essenciais
- Pagamento de USD 700 milhões ao FMI sugou dólares e gerou ruptura no abastecimento
- Subiu o preço, mas bombas continuam sem combustível
São 9h40 da manhã. Alfredo fecha a porta do seu gabinete, arria a cadeira e tenta descansar as pálpebras que parecem pesar toneladas. É o sono de uma madrugada mal dormida depois de passar a tarde e noite do dia anterior numa peregrinação infrutífera. Passou por mais de 10 postos de combustível, sempre sem sucesso, até que enfim encontrou uma bomba com gasolina. Eram 21:15. Mas, por volta de 23:50, quando estava próximo da sua vez, depois de mais de duas horas na fila, a voz de uma senhora rompeu a esperança para anunciar que já não havia combustível. Sem opção e porque o tanque já estava na reserva, não teve alternativa senão deixar o carro na bomba e meter-se num mototáxi. Durante o último mês, tudo o que Alfredo ouviu na televisão e nas conversas foi que a crise de combustíveis se devia à guerra no Irão, uma narrativa que depois evoluiria para sabotagem das gasolineiras, acusadas de reterem o produto à espera de um novo preço. O preço subiu. Mas a situação continua. O que ninguém lhe diz, nem aos outros milhões de moçambicanos que enfrentam filas intermináveis, é que o pagamento antecipado de 700 milhões de dólares ao Fundo Monetário Internacional em Março passado pressionou as reservas obrigatórias e agravou uma crise de divisas que já levou o backlog (pagamentos pendentes de importações) a ultrapassar a astronómica cifra de 1,1 bilião de dólares. Como tal, neste momento, há muito combustível nos portos e nos terminais oceânicos, mas os bancos enfrentam, actualmente, limitações na emissão de garantias bancárias, instrumento indispensável para assegurar a importação e disponibilidade de combustível no mercado nacional.
Reginaldo Tchambule
Um mês após o pagamento de 700 milhões ao FMI, o País mergulhou num caos do abastecimento, que expõe o custo do que pode ter sido uma irresponsabilidade financeira do Governo com assessoria directa do Banco de Moçambique, numa decisão que não colheu consenso no ministério das Finanças, com alguns sectores a considerarem ter se tratado de uma operação até certo ponto “criminosa”.
Com efeito, a escassez de combustível que há semanas paralisa sectores estratégicos da economia moçambicana não é um problema logístico nem um complot de gasolineiras gananciosas. É, segundo investigação do Evidências, o preço amargo de uma decisão financeira inexplicável tomada pelo Governo, num contexto de erosão silenciosa das reservas cambiais que se arrasta há pelo menos um ano e meio.
Enquanto os moçambicanos enfrentam filas intermináveis nas bombas e transportadores suspendem operações, o Governo insiste em narrativas que contornam a verdadeira origem da crise.
O preço subiu, mas a crise de combustíveis não acabou
Durante semanas, a narrativa dominante procurou responsabilizar as gasolineiras e os retalhistas pela escassez de combustíveis. A ideia difundida em vários círculos políticos e nas redes sociais apontava para uma alegada retenção deliberada de produto, numa tentativa de criar escassez artificial enquanto se aguardava uma subida oficial dos preços para maximizar lucros.
A tese ganhou dimensão pública ao ponto de mobilizar inspecções aos postos de abastecimento e às distribuidoras. Contudo, os resultados dessas verificações acabaram por desmontar a narrativa. Em vez de grandes reservas escondidas, as autoridades encontraram tanques praticamente vazios e níveis de stock reduzidos a apenas três ou quatro dias de consumo.
O tempo acabaria, no entanto, por revelar uma realidade bem mais grave e complexa: O problema central não estava nas gasolineiras, mas sim na incapacidade crescente do sistema financeiro nacional em garantir dólares suficientes para suportar o processo de importação de combustíveis.
Em Moçambique, a importação de produtos petrolíferos depende fortemente da emissão de garantias bancárias internacionais, instrumento indispensável para assegurar aos fornecedores externos que os pagamentos serão honrados.
Sem essas garantias, os navios não descarregam combustível nos portos nacionais. O sistema funciona numa lógica de confiança financeira: o fornecedor exige garantias antes da descarga e o comprador só efectua o pagamento definitivo depois da confirmação da quantidade e qualidade do produto recebido.
País atingiu mais de 1,1 bilião de dólares em pagamentos pendentes
Nos últimos meses, porém, os bancos comerciais começaram a enfrentar dificuldades cada vez maiores para disponibilizar moeda estrangeira às empresas importadoras. Segundo fontes ligadas ao sector petrolífero, a escassez de divisas atingiu níveis críticos, afectando não apenas os combustíveis, mas praticamente todos os sectores dependentes de importações.
O chamado “backlog” financeiro, termo utilizado para designar pagamentos acumulados e pendentes por falta de garantias de pagamento em moeda estrangeira, disparou em toda a economia.
Dados citados por operadores financeiros, com base em relatórios de duas das principais instituições bancárias do país, apontam que o volume total de pagamentos pendentes no mercado moçambicano terá atingido entre 1 bilião e 1,1 bilião de dólares.
Esse estrangulamento cambial afecta importadores de combustíveis, medicamentos, produtos alimentares, matérias-primas industriais e inúmeros outros sectores estratégicos. Na prática, as empresas acumulam facturas por liquidar, enquanto os bancos alegam não possuir dólares suficientes para processar os pagamentos internacionais.
O resultado é uma longa fila de operações pendentes no mercado que começou lentamente a perder capacidade de financiamento da própria economia e, segundo apurámos, se a Vitol, principal fornecedor de combustível ao país não fosse compreensível, não oferecesse flexibilidade de pagamento, Moçambique enfrentaria um colapso imediato no abastecimento.
A linha de crédito e a tolerância de até 150 dias para os pagamentos salvam o país da escassez severa de divisas que se agravou, sobretudo depois da polémica decisão do Estado moçambicano de liquidar antecipadamente cerca de 700 milhões de dólares da dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que levou Moçambique, que já se debatia com uma crise de liquidez, para uma fase de quase falência técnica.
Isto significa que muitos importadores têm facturas por liquidar, mas os bancos não dispõem de dólares suficientes para processar os pagamentos, o que poderá implicar a subida dos preços dos principais produtos nos próximos dias, num contexto em que os aumentos salariais tiveram apenas variação entre 2 e 9%.
“Se os cerca de 700 milhões de dólares utilizados para pagar a dívida ao FMI tivessem sido injectados na economia nacional, o impacto poderia ter sido diferente”, sustenta a fonte. “Resolveria um grande problema, gerava economia, gerava lucro e criava energia dentro da própria economia.”
O dinheiro teria permitido aliviar parte significativa do backlog, garantir maior liquidez em divisas, estimular as importações e assegurar maior arrecadação fiscal por parte das alfândegas e da Autoridade Tributária. Em vez disso, saiu do sistema financeiro nacional rumo a Washington, num gesto cujos beneficiários reais ninguém consegue identificar.
A operação de charme que empurrou o país para o abismo
No dia 23 de Março de 2026, o Governo moçambicano formalizou o pagamento antecipado e integral da dívida ao FMI. 700 de dólares saíram das Reservas Internacionais Líquidas (RIL), geridas pelo Banco de Moçambique, numa operação que a ministra das Finanças, Carla Louveira, justificou como necessária para “proteger o balanço do banco central e consolidar a estabilidade macroeconómica”.
A narrativa oficial, porém, colide com os factos. Na altura do pagamento, o país enfrentava já uma grave escassez de divisas no sistema financeiro nacional. Bancos comerciais limitavam a emissão de garantias bancárias internacionais, instrumento essencial para que importadores de combustível, medicamentos, alimentos, bens factoriais, entre outros, pudessem assegurar o pagamento a fornecedores externos.
Mais grave ainda, segundo informações recolhidas pelo Evidências, decorriam naquele momento negociações com o FMI para um novo pacote de apoio financeiro. Havia uma missão técnica do Fundo a trabalhar dentro do Ministério das Finanças. E o país tinha apenas entre 126 e 128 milhões de dólares por pagar até ao final do ano, um valor perfeitamente gerível no quadro orçamental.
“De repente pagam a dívida toda quando o pagamento podia ser feito de forma faseada até 2031”, critica uma fonte do sector petrolífero ouvida pelo Evidências, que prefere manter o anonimato devido à sensibilidade do tema. “É como alguém que não tem comida em casa, mas decide sair para almoçar num restaurante apenas para mostrar aparência. Isso é estranho, muito estranho”, remata.
O resultado desta operação de vaidade é um estrangulamento que se propaga ao longo de toda a cadeia. Os importadores desde o mês passado não conseguem garantir novas compras, os fornecedores internacionais suspendem ou atrasam embarques e o combustível deixa de chegar às bombas com a regularidade necessária.
Um dos aspectos mais perturbadores de toda esta crise é o esforço deliberado para construir um bode expiatório. Durante semanas, a narrativa dominante nos meios de comunicação social, alimentada por fontes oficiosas e não oficiais, apontou para as gasolineiras como responsáveis pela escassez, acusadas de reter combustível para vender mais caro após um aumento de preços.
Para um gestor sénior do sector de combustíveis, esta construção de um bode expiatório serviu um propósito claro de desviar a atenção pública do verdadeiro problema, que é a falta de dólares na economia, que atingiu picos após a decisão de pagar ao FMI numa altura em que o país estava literalmente a ficar sem fôlego financeiro.
O ping–pong entre o Banco Central e bancos comerciais
Enquanto o combustível escasseia nas bombas, trava-se nos bastidores um duelo silencioso, mas feroz entre o Banco de Moçambique e os bancos comerciais. O banco central entende que os bancos devem apoiar o financiamento da economia e disponibilizar divisas. Os bancos, por seu turno, alegam não possuir liquidez suficiente em moeda estrangeira.
Para um economista ouvido pelo Evidências, o problema não é apenas de liquidez bancária, é de gestão das reservas e de prioridades macroeconómicas.
“Quando o Estado retira 700 milhões de dólares das reservas para pagar uma dívida de baixo custo e sem urgência, está a reduzir a almofada financeira que os bancos usam como referência para aferir a confiança no sistema”, sustenta, para depois rematar que com menos reservas, há menos confiança no sistema financeiro, menos disponibilidade de dólares por parte dos bancos comerciais, mais dificuldades para importadores, mais escassez de combustível e outros produtos que podem levar a uma paralisação económica.
Para as empresas do sector petrolífero, o impacto tem sido devastador. Algumas importadoras passaram a beneficiar de prazos excepcionais de pagamento, extensões superiores a 120 dias adicionais sobre os habituais 150 dias de crédito. Isto significa que os fornecedores internacionais estão, na prática, a financiar a crise moçambicana, mas a sua paciência tem limites.
“Em certas circunstâncias, alguns fornecedores até poderiam invocar força maior e suspender o fornecimento”, alerta a fonte.
Um caos que se estende para além das bombas e desafia a economia real
A crise tem sido reportada com maior intensidade na capital do país, muito pela exposição mediática, mas fora de Maputo, longe dos gabinetes onde se decidem as políticas, o cenário é dramático.
Ao longo da EN1, é possível ver camiões carregados de mercadorias com destino ao Centro e Norte do País a permanecerem parados por falta de combustível, o que rompe o fluxo de abastecimento de produtos essenciais, resultando em aumento do preço. Igualmente, empresas reduzem a produção. Transportadores públicos suspendem rotas. E a população, que já enfrenta uma das mais altas taxas de inflação da região, vê os preços dos produtos perecíveis a disparar.
O economista que temos vindo a citar entende que o dinheiro que saiu para pagar o FMI poderia ter sido usado para estabilizar o mercado cambial, garantir o fluxo de importações essenciais e dar tempo ao país para ajustar os preços internos de forma gradual e comunicada.
“Os moçambicanos merecem saber quem ordenou o pagamento, porquê, e com que cálculo económico. Merecem saber se os 700 milhões eram, de facto, excedentários ou se, pelo contrário, correspondiam à almofada financeira de que o país precisava para enfrentar exactamente o tipo de choque externo que hoje o sufoca”, remata.
Enquanto isso, filas nas bombas, camiões parados, economia a sufocar, e uma população que paga, literalmente, o preço da irresponsabilidade.
O Evidências tentou obter uma reacção oficial do Ministério das Finanças e do Banco de Moçambique sobre as questões levantadas neste artigo, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.



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