Máquina de Radioterapia a caminho de mais um ano de inoperabilidade

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  • Autoridades sanitárias sem prazos para a retoma dos serviços
  • Equipamento avariou apenas dois meses após a reinauguração

O serviço de oncologia do Hospital Central de Maputo (HCM), a maior unidade sanitária de Moçambique, transformou-se num autêntico corredor de morte anunciada. Este mês, Maio, marca-se um triste aniversário: a única máquina de radioterapia do país completa sete meses de paralisia total, deixando centenas de doentes oncológicos à mercê da própria sorte. O equipamento, um acelerador linear de alta tecnologia, permanece inoperante desde Novembro de 2025 e as autoridades de saúde não avançam qualquer prazo para a retoma dos tratamentos, num cenário de total opacidade institucional.

Luísa Muhambe

O Evidências procurou as instituições responsáveis, mas encontrou um jogo de empurra- empurra burocrático. O Ministério da Saúde (MISAU), ao ser questionado sobre a operacionalidade da máquina, “passou a bola quente” para o HCM, alegando que a unidade goza de autonomia de gestão, sendo, por isso, o mais indicado para falar do assunto.

Por sua vez, o HCM confirmou que o aparelho continua avariado e que não existe uma data prevista para que o serviço volte a funcionar. Para os pacientes, este vácuo de informação é uma sentença, já que o cancro não espera por peças de reposição nem por decisões administrativas.

A crise actual é o capítulo mais recente de um histórico marcado pela negligência. A máquina de radioterapia já havia ficado quase dois anos inoperacional, num calvário que se arrastou de Setembro de 2023 até Agosto de 2025. Durante esse primeiro hiato, o então ministro da Saúde, Armindo Tiago, chegou a atribuir a demora às manifestações pós-eleitorais no país, uma justificativa que gerou forte cepticismo social.

Enquanto isso, milhares de pacientes, do Rovuma ao Maputo, estão num autêntico corredor de morte, com as vidas completamente sentenciadas, à espera apenas que a natureza sele o seu destino. Abaixo recuperamos relatos agoniantes de pacientes com cancro e seus familiares que vivem anos de incerteza.

“Até agora não nos dizem nada. Esperava que depois das manifestações (pós-eleitorais) ia haver alguma resposta. Conforme estás a ver, os meus pés estão inchados e pesam. O braço esquerdo também me dói muito. Mas o único problema que tenho é fígado”, desabafa Angélica, dominada pela dor e desânimo.

Foi neste purgatório de incertezas que Gracieta Pedro José, aos 56 anos, passou incontáveis horas até encontrar a morte. Sentada nos bancos de plástico, via rostos cansados, olhares perdidos no vazio, e partilhava o mesmo silêncio cúmplice de quem trava a batalha mais íntima e solitária. A sua luta não era apenas contra as células malignas que se multiplicavam no seu corpo, era contra um inimigo ainda mais implacável: o sistema que deveria salvá-la.

A história de Gracieta Pedro José, contada pela sua filha, Maria Eduardo, é um roteiro trágico da falência do Estado. Gracieta não foi vencida apenas pelo cancro do colo do útero, a sua vida foi ceifada por uma sucessão de falhas sistémicas que transformaram a sua luta pela sobrevivência num labirinto de desespero e negligência, sendo apenas o rosto de uma tragédia silenciosa que se abate sobre dezenas de pacientes oncológicos em Moçambique: a avaria da única máquina de radioterapia País.

Quando o que resta é apenas esperar até a morte chegar

O percurso de Gracieta começou como o de tantos outros. Após um rastreio no Hospital Geral de Mavalane que lhe diagnosticou a doença, foi encaminhada para o Hospital Central de Maputo (HCM), o farol de esperança para os casos mais complexos.

“Ela foi para o Hospital Central e começou o processo de quimioterapia. Cumpriu rigorosamente, completou todas as sessões. Nós tínhamos fé, os médicos davam-nos esperança de que era um passo, um passo importante”, recorda Maria Eduardo, a sua voz carregada de uma dor que o tempo não aplacou. A quimioterapia, agressiva e debilitante, foi suportada com a coragem de quem sabe que é um mal necessário. Gracieta perdeu o cabelo, sentiu o corpo fraquejar, mas manteve-se firme, focada no prémio final: a vida.

O passo seguinte, a radioterapia, seria a estocada final na doença. Era o tratamento que iria erradicar os vestígios do tumor, consolidar os ganhos da quimioterapia e abrir a porta para a cura. Foi então que a esperança embateu contra um muro de silêncio.

“Quando terminou a quimioterapia, a oncologista dela foi muito directa. Disse-nos que o passo seguinte era a radioterapia, mas que, infelizmente, a máquina estava parada. Parada desde Junho do ano antepassado (2023). A notícia caiu como uma bomba. Não havia um prazo, não havia uma alternativa. Havia apenas a espera”, lembrou o momento mais tenebroso.

Os meses que se seguiram foram de uma angústia crescente. A família vivia suspensa, refém de uma peça de engenharia avariada e da inércia burocrática. Paradoxalmente, Gracieta parecia melhorar. A ausência dos efeitos devastadores da quimioterapia trouxe-lhe uma aparência de bem-estar. Em Setembro, sentiu-se forte o suficiente para uma viagem longa e emocionalmente significativa.

“Ela veio para Nampula para ver a minha filha. Eu tive o bebé em Agosto e ela, como avó, fez questão de vir. Ficou connosco, pegou a neta ao colo. Parecia bem, estava feliz”, conta a filha. Foi um interlúdio de normalidade, uma fotografia de família feliz antes da tempestade final.

Equipamento só durou apenas dois meses

Após 15 meses de paragem, o serviço foi finalmente retomado em Agosto de 2025 sob a gestão do actual ministro, Ussene Isse. Contudo, a esperança durou pouco. Apenas dois meses após a reinauguração, em Novembro de 2025, o equipamento voltou a avariar.

Segundo a versão oficial, uma oscilação de corrente danificou uma placa electrónica vital, que precisou de ser encomendada do estrangeiro. Desde então, a máquina não voltou a emitir uma única radiação.

Um dos pontos mais controversos deste processo foi a denúncia pública feita pelo Ministro Ussene Isse durante a cerimónia de retoma dos serviços. Na altura, Isse apontou para a existência de sabotagem interna, afirmando que “colegas meteram água onde deveria estar gás” para danificar o aparelho.

Informações colhidas à data do factos pelo Evidências indicam que a raiz do problema pode ter sido a decisão da gestão anterior de dispensar a equipa de especialistas estrangeiros (norte-americanos, alemães e suíços) que operava e mantinha a máquina com sucesso durante quatro anos.

Por ordens do ex-ministro Armindo Tiago, o contrato com estes técnicos foi interrompido para dar lugar a pessoal local sem a devida capacitação para manusear tecnologia de tal sofisticação. A empresa fornecedora teria alertado que os médicos moçambicanos não estavam preparados para operar o “avião tecnológico’ sozinhos, mas o aviso foi ignorado, resultando na paragem imediata do sistema.

O lobby do turismo de saúde e outros interesses

Fontes ligadas ao sector acreditam que a inoperatividade da máquina interessa a uma rede clientelista que lucra com o chamado “turismo de saúde”. Moçambique gasta anualmente cerca de mil milhões de meticais no envio de doentes para o estrangeiro (Índia, Portugal e África do Sul), e os pacientes oncológicos representam a maior fatia deste contingente.

A suspeita é de que existam interesses ocultos em manter a máquina do HCM inoperante para garantir o fluxo de comissões pagas por clínicas privadas internacionais a cada paciente reencaminhado pelo Estado. Esta narrativa de conspiração ganha força perante a inércia do Governo em garantir um contrato de manutenção estável para o único aparelho do país.

Enquanto a máquina ganha pó, a lista de espera no HCM cresce. Em Agosto de 2025, eram 170 doentes; hoje, o número é incerto, mas estima-se que centenas tenham desistido ou falecido.

A realidade oncológica em Moçambique revela dados de incidência e mortalidade profundamente alarmantes, com o país a apresentar uma das taxas mais elevadas da região, situação agravada pelo diagnóstico tardio e pela gritante falta de opções de tratamento.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde e do Globocan, estimam-se cerca de 26.000 novos casos de cancro por ano, dos quais mais de 18.000 resultam em óbito, o que significa que aproximadamente 70% dos pacientes diagnosticados acabam por falecer, uma taxa de letalidade muito superior à média global.

Entre os casos femininos, o cenário é ainda mais devastador, com o cancro do colo do útero e o da mama a liderarem as estatísticas, sendo que apenas o cancro do colo do útero é responsável pela morte de cerca de 4.000 mulheres moçambicanas anualmente.

Este cenário de crise encontra na radioterapia o seu principal gargalo, uma vez que este tratamento é indicado para mais de 60% de todos os casos de cancro, seja para fins curativos ou paliativos. No entanto, para uma população de 33 milhões de habitantes, existe apenas um acelerador linear público localizado no Hospital Central de Maputo.

De acordo com os padrões internacionais da OMS, o ideal seria a existência de um equipamento por cada um milhão de habitantes, o que coloca Moçambique num défice crítico de 32 máquinas. Além disso, a lista de espera real é muito superior aos 200 doentes frequentemente citados pelo HCM, pois milhares de cidadãos nas províncias nem sequer conseguem entrar nas estatísticas oficiais devido à inoperatividade prolongada do serviço.

Estado gasta anualmente cerca de 1 bilião de dólares em junta de saúde

A disparidade financeira entre o chamado “turismo de saúde” e o investimento interno acentua a má gestão dos recursos. O Estado moçambicano despende anualmente entre 900 milhões e 1 bilião de Meticais, cerca de 15 milhões de dólares, no envio de doentes para o estrangeiro via Junta Médica.

Em contraste, a manutenção anual da máquina do HCM está orçada em apenas 2 a 3 milhões de dólares, o que revela que o governo gasta cinco vezes mais a tratar doentes fora do país do que gastaria para garantir o funcionamento pleno da tecnologia em solo nacional.

O perfil dos doentes afectados agrava a urgência desta questão, uma vez que cerca de 80% dos pacientes que chegam ao HCM já se encontram nos estágios III ou IV da doença, onde a radioterapia é a única forma de evitar dores fortes e prolongar a vida.

Estes cidadãos, vindos de províncias distantes como Niassa, Cabo Delgado ou Tete, percorrem mais de 2.000 quilómetros apenas para encontrar um equipamento avariado, ficando retidos na capital sem abrigo ou recursos. A crise é também humana e técnica, dada a escassez de profissionais especializados; existem menos de 10 oncologistas radioterapeutas em todo o país.

Sem prazos e com as autoridades a esquivarem-se de responsabilidades, o sector de radioterapia do HCM permanece como o símbolo máximo da falência do sistema de saúde: uma tecnologia de 15 milhões de dólares que, sabotada ou negligenciada, assiste imóvel à morte daqueles que deveria salvar.

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