Um Presidente turbo chamado Shaffee Sidat

OPINIÃO
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Arão Valoi

Em Moçambique, habituámo-nos a medir a qualidade da governação pública pela distância entre a promessa e a execução. Os ciclos políticos começam, quase sempre, carregados de entusiasmo, seguem-se justificações técnicas, limitações orçamentais, entraves administrativos e, no fim, sobra pouco mais do que discursos, cerimónias e placas inaugurais.

Por isso, quando surge um caso que rompe, ainda que parcialmente, com esta cultura de lentidão institucional, ele merece uma análise séria, equilibrada e politicamente madura. É neste contexto que o Município de Marracuene começa a afirmar-se como um exemplo que merece atenção. Em pouco mais de dois anos e sete meses de governação, sob liderança de Shaffee Sidat, Marracuene apresenta sinais concretos de transformação que desafiam a narrativa habitual da gestão autárquica em Moçambique.

Não se trata de proclamar perfeição administrativa, nem de construir um culto de personalidade — erro recorrente em muitas leituras políticas nacionais. Trata-se, sim, de reconhecer um fenómeno relativamente raro na administração municipal moçambicana: a combinação entre visão executiva, capacidade de decisão, sentido de urgência e materialização visível de resultados.

Num País onde muitas autarquias atravessam mandatos inteiros concentradas na gestão corrente, em conflitos internos ou em pequenas intervenções cosméticas, Marracuene parece ter optado por outra lógica: a de produzir impacto perceptível no terreno, em tempo relativamente curto e sem depender excessivamente dos holofotes mediáticos.

As infra-estruturas rodoviárias talvez sejam o exemplo mais evidente desta mudança de ritmo. A construção da estrada Mali – Santa Isabel, numa extensão de cerca de seis quilómetros, representa mais do que uma simples obra física. Trata-se de um eixo estratégico para mobilidade, expansão urbana, integração territorial e valorização económica local. O mesmo pode ser dito da ligação Mumemo a 4 de Outubro, num troço de aproximadamente quatro quilómetros, bem como da via FAO – FACIM, esta última com cerca de dez quilómetros, assumindo-se como uma ligação estratégica entre Maputo, Marracuene, a FACIM e o novo cemitério municipal. As obras arrancaram com muito entusiasmo e satisfação dos munícipes.

E em qualquer município, obras desta dimensão exigem capacidade de articulação técnica, coordenação política, mobilização financeira e acompanhamento executivo permanente. Em Marracuene, elas avançam quase em simultâneo. E isso tem um significado político importante.

Em Moçambique, a cidadania tornou-se profundamente céptica em relação à capacidade do Estado – particularmente dos municípios – de executar. A população já não reage com entusiasmo a anúncios; reage à presença de máquinas, ao asfalto, à iluminação, à água canalizada, às escolas concluídas e às mudanças concretas no quotidiano. É precisamente aqui que a governação de Shaffee Sidat parece ter encontrado o seu principal capital político: a demonstração prática de compromisso com resultados.

A previsão do arranque da estrada Dom Alexandre, em Setembro, depois de anos bloqueada por complicações envolvendo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e um processo associado a irregularidades na contratação da fiscalização da obra, é outro sinal relevante. Não apenas porque se trata de uma via importante para o município, mas porque simboliza algo ainda mais significativo no contexto moçambicano: a capacidade de desbloquear processos que tradicionalmente permanecem enterrados em burocracias, disputas institucionais e sucessivos adiamentos.

Naturalmente, qualquer análise séria deve evitar triunfalismos precipitados. Obras iniciadas não equivalem automaticamente a obras concluídas com qualidade. A história da governação pública moçambicana ensina precisamente isso: muitas vezes começamos rápido e terminamos mal. A verdadeira avaliação da liderança municipal dependerá da sustentabilidade das intervenções, da qualidade técnica das infra-estruturas, da manutenção futura e da capacidade de garantir inclusão territorial equilibrada.

Ainda assim, seria intelectualmente desonesto ignorar que Marracuene demonstra um dinamismo raro na actual paisagem administrativa nacional.

A aposta na educação é outro elemento que merece destaque. A construção de duas escolas de raiz e de 28 salas de aula equipadas revela compreensão de um princípio essencial do desenvolvimento local: municípios não se transformam apenas com estradas. Transformam-se quando criam condições para a formação de capital humano, dignidade social e perspectivas concretas para a juventude.

Da mesma forma, os seis Sistemas de Abastecimento de Água possuem um impacto muito mais profundo do que os números sugerem. Em muitas zonas periurbanas de Moçambique, o acesso à água continua a definir desigualdades estruturais, vulnerabilidade sanitária e exclusão social. Quando um município investe em água, está simultaneamente a investir em saúde pública, produtividade familiar, estabilidade social e qualidade de vida.

Outro aspecto interessante da governação de Marracuene é a tentativa de combinar desenvolvimento físico com construção de identidade municipal. O campo municipal em construção, os campos para modalidades de salão e a futura rádio municipal demonstram preocupação em criar espaços de pertença colectiva, participação cívica e dinamização comunitária. Isto assume particular relevância num município em rápida transformação urbana e demográfica como Marracuene.

O crescimento acelerado das periferias de Maputo trouxe desafios complexos: pressão sobre serviços básicos, expansão informal, juventude sem espaços recreativos, défices de ordenamento e perda gradual de coesão social. Governar um território com estas características exige mais do que gestão administrativa; exige visão territorial, capacidade de antecipação e liderança próxima das comunidades.

Talvez seja precisamente aqui que reside a principal lição política do caso Marracuene: a importância do sentido de urgência na governação.

Moçambique sofre, há vários anos, de uma cultura institucional excessivamente lenta. Processos simples transformam-se em labirintos administrativos. Pequenos projectos arrastam-se durante anos. Muitas lideranças acomodaram-se à ideia de que “o Estado funciona assim”. O problema é que as populações já não aceitam essa lógica com a mesma passividade de antes.

O cidadão moçambicano tornou-se mais exigente. Quer resultados visíveis, rapidez, proximidade e liderança activa. E quando um município demonstra capacidade de execução acima da média nacional, inevitavelmente transforma-se numa referência política e administrativa.

Isso não significa ausência de desafios. Marracuene continua confrontado com problemas sérios de urbanização, drenagem, pressão populacional, qualidade de energia, ordenamento territorial e emprego juvenil. Além disso, crescimento acelerado traz sempre riscos: decisões precipitadas, expansão desorganizada e eventual desgaste financeiro futuro.

Por isso, o grande teste da governação de Shaffee Sidat talvez não seja apenas a velocidade da transformação, mas, sobretudo, a sua consistência institucional. O verdadeiro desafio será transformar dinamismo político num modelo sustentável de governação local, capaz de sobreviver ao entusiasmo inicial e consolidar-se como cultura administrativa.

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