Severino Ngoenha alerta que obsessão pelas eleições pode conduzir Moçambique a um novo conflito

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O filósofo moçambicano Severino Ngoenha considera que o país está a desviar-se das verdadeiras causas da instabilidade social ao concentrar quase todo o debate político nas eleições de 2028 e 2029, em detrimento da resolução dos problemas estruturais que estiveram na origem das manifestações dos últimos anos. O académico alerta que, caso essa tendência se mantenha, Moçambique poderá caminhar para uma nova vaga de confrontações, potencialmente mais grave do que a registada recentemente.

Ngoenha falava durante uma conferência sobre a Arquitetura da Paz em Moçambique, onde defendeu que os alicerces da convivência nacional permanecem frágeis, por terem sido construídos mais sobre sucessivos conflitos do que sobre uma paz consolidada. Segundo o pensador, a história recente do país revela que, nos últimos 50 anos, Moçambique viveu mais tempo marcado por guerras e confrontações do que por períodos de estabilidade, tornando a paz vulnerável a qualquer novo foco de tensão.

Na sua análise, o filósofo considera que, após as manifestações populares, existiu uma oportunidade para reconstruir a base da convivência nacional. Contudo, afirma que os principais actores políticos rapidamente voltaram a concentrar as suas energias na disputa eleitoral.

“Os resultados eleitorais passaram a ser a primeira razão do conflito. Desde a Frelimo até à ANAMOLA, o foco passou a ser as eleições de 2028. As eleições são importantes, mas não constituem o objetivo final da política”, defendeu, acrescentando que a missão da política deve ser a construção do bem comum e da convivência entre os cidadãos.

Segundo Ngoenha, essa corrida pelo poder tem contribuído para uma crescente fragmentação do tecido social. De um lado, afirma, existem forças políticas determinadas a conquistar o poder “a todo o custo”; do outro, sectores que se preparam para contestar eventuais resultados eleitorais, criando um ambiente de permanente tensão.

O académico revelou ainda preocupação com relatos recolhidos em diferentes pontos do país, onde jovens manifestam disposição para voltar a enfrentar as forças policiais caso ocorram novos protestos. Para ele, isso demonstra que as causas profundas do descontentamento permanecem intactas.

“Não estamos a resolver os problemas que levaram às manifestações. Estamos concentrados nas eleições e não na procura de soluções para a pobreza, a fome, as desigualdades e a falta de transparência”, advertiu.

O filósofo foi mais longe ao afirmar que observa sinais preocupantes de preparação para um novo ciclo de violência, tanto por parte das instituições do Estado como de diferentes sectores da sociedade.

Na sua leitura, o reforço dos meios militares e policiais, aliado à crescente mobilização política em torno das eleições, pode criar condições para um conflito de maiores proporções, com consequências imprevisíveis para a unidade nacional. Ngoenha receia mesmo que um novo episódio de confrontação possa comprometer a integridade territorial e alimentar discursos regionalistas e tribalistas.

Como alternativa, defendeu uma reconstrução profunda da arquitetura da paz, assente em três pilares: reforçar os alicerces da convivência nacional, eliminar os obstáculos que impedem o diálogo entre os moçambicanos e aumentar a transparência na governação e na gestão dos recursos públicos.

Para Ngoenha, a paz duradoura não será alcançada apenas através de reformas eleitorais ou alterações institucionais, mas sobretudo mediante um combate sério às desigualdades sociais e uma redistribuição mais justa da riqueza.

“O principal problema que temos são as profundas discrepâncias sociais. Não haverá paz enquanto não formos capazes de criar mecanismos que reduzam essas desigualdades e garantam maior transparência na gestão dos bens públicos”, concluiu.

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