Quando o DESMENTIDO já não BASTA e a DESINFORMAÇÃO se torna CRISE de ESTADO

OPINIÃO
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Nilza Dacal

Ao longo deste mês de Maio de 2026, o Presidente da República, Daniel Chapo, percorreu comícios e intervenções públicas para desmentir, com firmeza, os rumores segundo os quais o simples toque poderia provocar o atrofiamento de órgãos genitais masculinos. Fê-lo correctamente. Não existe qualquer evidência médica, científica ou sanitária que sustente semelhante alegação. Mas há uma realidade brutal que não pode ser ignorada: quando o chefe de Estado tomou a palavra, cinquenta e cinco pessoas já haviam perdido a vida, cento e onze encontravam-se feridas, cento e quarenta e nove cidadãos tinham sido detidos. Na Zambézia, os distritos de Namacurra e Mocubela perderam docentes assassinados por comunidades dominadas pelo medo; em Nampula, um técnico de saúde foi linchado, e, em Cheringoma, na província de Sofala, um professor morreu às mãos daqueles que deveria ajudar a proteger.

Nenhum país pode considerar normal o facto de rumores matarem mais depressa do que a capacidade do Estado de os neutralizar. Isso é motivo mais do que suficiente para revermos os nossos mecanismos de controlo, a nossa arquitectura institucional e as respectivas falhas operacionais. O que vejo neste momento não é uma emergência isolada nem um fenómeno espontâneo, mas uma falha sistémica antiga, persistente e amplamente documentada, que o Estado moçambicano, ao longo de décadas, nunca tratou com o nível de prioridade estratégica que a sua gravidade exigia.

O fenómeno do atrofiamento genital que emergiu em Cabo Delgado a 18 de Abril de 2026 não nasceu do nada. Ele insere-se numa longa tradição de pânicos colectivos alimentados pela desinformação, pelo medo e pela fragilidade dos canais de confiança entre o Estado e determinadas comunidades. O sociólogo moçambicano Carlos Serra documentou, há muito, a trajectória histórica do mito do “chupa-sangue”, cuja circulação remonta aos anos finais da colonização e ganhou nova intensidade após a independência de 1975, quando o jovem Estado moçambicano iniciou campanhas de vacinação, recolha e doação de sangue. A narrativa espalhou-se de forma devastadora: agentes do Estado estariam a retirar sangue das populações para fins obscuros. O resultado foi imediato e profundamente trágico: ataques a profissionais de saúde, rejeição de campanhas sanitárias, fuga às unidades hospitalares e mortes evitáveis.

Desde os anos de 1970, praticamente não houve década em Moçambique sem registo de prisões em massa, linchamentos ou perseguições colectivas associadas a rumores semelhantes. Em 2017, o fenómeno voltou a ganhar força, sobretudo nas províncias do centro do país, inflamando tensões políticas, destruindo infra-estruturas públicas, expulsando agentes do Estado de várias localidades e comprometendo directamente as campanhas de vacinação em curso. O padrão repetia-se quase mecanicamente: rumor, medo, violência, desmentido oficial, aparente normalização e, depois, silêncio até à próxima tragédia.

A cólera acrescentou outra camada dramática ao mesmo problema estrutural. Em 2010, sete pessoas morreram num motim desencadeado pela crença de que profissionais de saúde estariam deliberadamente a espalhar a doença nas comunidades. A perversidade do fenómeno reside precisamente aí: aqueles que chegam para salvar vidas passam a ser vistos como portadores da ameaça. Em 2023, durante um dos maiores surtos recentes, com cerca de quarenta mil casos registados e pelo menos cento e cinquenta e três mortos, cinco pessoas perderam igualmente a vida em actos de violência directamente associados à desinformação sobre a transmissão da doença. Em 2025, a cólera matou cerca de cento e setenta moçambicanos num contexto em que o próprio Ministério da Saúde continuava a apelar às comunidades para respeitarem medidas básicas de higiene, porque a desinformação permanecia activa como obstáculo operacional à resposta sanitária.

Mais grave ainda: em Fevereiro de 2026, apenas dois meses antes do início do actual pânico do atrofiamento genital, as autoridades sanitárias de Nampula admitiam publicamente que agentes polivalentes elementares e líderes comunitários estavam a ser perseguidos, apedrejados e expulsos por populações que os acusavam de espalhar o vírus da cólera. O médico-chefe provincial, Geraldino Avalinho, reconhecia que as únicas estruturas de comunicação ainda capazes de alcançar algumas comunidades eram as igrejas e as mesquitas, através do COREM. Essa declaração, por si só, deveria ter provocado um debate nacional urgente. Porque ela significava que, em determinadas regiões do país, o sistema formal de saúde pública já havia perdido a capacidade directa de se comunicar com os cidadãos.

Dois meses depois, essas mesmas comunidades tornaram-se epicentro de um novo ciclo de pânico colectivo que deixaria dezenas de mortos. Isto não é coincidência, mas um padrão institucional de falha acumulada. Reconheço e faço questão de o reconhecer, com sentido de responsabilidade, que o Estado moçambicano não permaneceu totalmente inactivo. Houve reforço policial, detenções, comunicados oficiais e pronunciamentos políticos. Mas também não posso medir a sua eficácia pela quantidade de actividade produzida e sim pelos resultados alcançados. E, esses, mostram claramente que continuamos a actuar quando a tragédia já começou, as comunidades já estão dominadas pelo medo e vidas já foram perdidas.

O Estado moçambicano continua excessivamente orientado para a gestão reactiva da crise, em vez da prevenção estratégica do risco. E esta é a primeira falha: estrutural. Moçambique ainda não possui um sistema nacional permanente de vigilância, análise e resposta rápida à desinformação com potencial de violência colectiva. O país desenvolveu mecanismos sofisticados de alerta precoce para ciclones, cheias e surtos epidemiológicos. Mas continua sem uma arquitectura institucional equivalente para responder à desinformação, apesar de esta produzir mortes de forma recorrente há mais de cinquenta anos. Hoje, essa ausência já não pode ser atribuída à falta de conhecimento. O problema é de prioridade política e institucional.

A segunda falha é de arquitectura comunitária. O Estado continua a mobilizar líderes religiosos, régulos, autoridades tradicionais e mediadores sociais apenas quando a crise já explodiu. Mas confiança social não se improvisa em momentos de emergência, constrói-se antes, de forma permanente, paciente e contínua. Quando as autoridades descobriram, em Fevereiro de 2026, que as igrejas e as mesquitas eram os únicos canais ainda respeitados por certas comunidades, estavam simultaneamente a reconhecer uma fragilidade profunda do próprio Estado. As redes de mediação comunitária existem, mas continuam subfinanciadas, mal integradas e frequentemente tratadas como instrumentos ocasionais de contenção de crise, em vez de pilares permanentes da governação pública.

A terceira falha é jurídica. Entre os cento e quarenta e nove cidadãos detidos durante os episódios de violência associados ao pânico do atrofiamento genital, quantos eram autores deliberados dos conteúdos falsos que desencadearam os ataques? Quantos fabricaram áudios manipulados? Quantos disseminaram mensagens falsas sabendo do potencial destrutivo que carregavam? A cadeia causal que vai de um áudio fabricado num grupo de WhatsApp até ao linchamento de um inocente raramente é tratada juridicamente em toda a sua extensão. O Estado pune, sobretudo, o executor físico da violência, mas quase nunca responsabiliza de forma adequada o arquitecto da desinformação que tornou essa violência possível. E essa assimetria produz uma perigosa sensação de impunidade.

Escrevo estas palavras como cidadã profundamente preocupada com o rumo deste problema e escrevo com consciência plena de que a responsabilidade política não pode limitar-se à descrição da tragédia, mas deve traduzir-se em propostas concretas. Confesso que este é um assunto que merece a atenção do nosso Parlamento, os dignos representantes do Povo. A Assembleia da República deveria promover uma investigação institucional aprofundada sobre os acontecimentos de 2026, não para procurar culpados circunstanciais, mas para produzir um diagnóstico sério, técnico e nacional sobre as vulnerabilidades do Estado perante fenómenos de pânico colectivo e violência alimentada por desinformação. Esse trabalho deveria avaliar, no mínimo, a capacidade real de resposta rápida do Estado, o enquadramento jurídico aplicável à propagação deliberada de desinformação com consequências violentas e o estado efectivo das redes comunitárias de comunicação em saúde pública.

Do ponto de vista do executivo, considero urgente a criação de uma unidade nacional de comunicação de risco, integrada no Ministério da Saúde mas com mandato inter-ministerial, capaz de monitorar em tempo real dinâmicas de desinformação nas comunidades, activar respostas preventivas e coordenar mecanismos de confiança social antes que o rumor se transforme em violência. Considero igualmente fundamental profissionalizar e remunerar permanentemente comunicadores comunitários de saúde, dotando-os de formação específica em gestão de rumores, comunicação de crise e mediação social. Eles não podem continuar a ser activados apenas quando o país já está a enterrar os seus mortos.

Mas talvez o mais importante seja outra coisa: o Estado moçambicano precisa finalmente de reconhecer publicamente que este é um problema histórico, profundo e ainda não resolvido. Esse reconhecimento não representa fraqueza política. Pelo contrário, representa maturidade institucional. Nenhum país se fortalece fingindo que as suas feridas não existem. Fortalece-se quando encontra coragem para as enfrentar com honestidade.

Sou jovem e pertenço à geração que herdou Moçambique com todas as suas conquistas, toda a sua esperança e também todas as suas dívidas históricas por saldar. A dívida que este texto descreve é paga em vidas moçambicanas, com professores assassinados, técnicos de saúde linchados, comunidades consumidas pelo medo e cidadãos que morrem porque a mentira chegou primeiro, quer dizer, antes do Estado. Recuso-me a aceitar que isso seja normal e acredito profundamente que Moçambique também não deve aceitar.

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