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- Governo leva jornalistas para fazer prova de vida dos transportes mistos
- Beneficiários reconhecem impacto positivo, mas reclamam do mau estado das estradas
Quando o Governo lançou, em 2025, o Programa de Melhoria do Transporte Público Urbano e Rural, a iniciativa foi recebida com cepticismo por vários sectores da sociedade. A aposta no que apelidou de transportes mistos, quando são na verdade tractores adaptados para o transporte simultâneo de pessoas e mercadorias, gerou debates acesos nas redes sociais e nos meios de comunicação, onde muitos questionaram a sua relevância e viabilidade num contexto em que o país procura modernizar o sistema de mobilidade. Mais de um ano depois, o Jornal Evidências percorreu os distritos de Mavago e Sanga, na província do Niassa, e os distritos de Mecufi e Chiúre, em Cabo Delgado, para avaliar os resultados da iniciativa no terreno. A conclusão é quase unânime entre os beneficiários. Apesar das limitações, os tractores estão a transformar a vida das populações, reduzindo o isolamento, facilitando o escoamento da produção agrícola e criando novas oportunidades de comércio.
Elísio Nuvunga, no Niassa e em Cabo Delgado
No dia 23 de Julho de 2025, o Governo anunciava a entrada em vigor dos transportes mistos, uma medida destinada a melhorar a mobilidade de pessoas e bens em zonas de difícil acesso, sobretudo nas regiões rurais e de acesso limitado. Numa primeira fase foram alocados dez transportes mistos operacionais, distribuídos pelas províncias de Cabo Delgado, Niassa, Nampula, Zambézia e Manica.
Quando falta apenas pouco mais de um mês para completar-se um ano desde que os veículos foram alocados às províncias, a equipa do Jornal Evidências escalou os distritos de Mavago e Sanga, na província do Niassa; a cidade de Pemba e a localidade de Mazeze, distrito de Mecufi, em Cabo Delgado, onde constatou que os transportes mistos disponibilizados pelo Governo encontram-se operacionais e em circulação regular.
Apesar de apresentarem sinais normais de desgaste resultantes da utilização em estradas de terra batida e em condições adversas, os veículos continuam a assegurar o transporte de passageiros e mercadorias nas zonas abrangidas, assegurando a ligação entre algumas localidades rurais com vilas e outros centros urbanos.
No terreno, foi possível observar que os principais beneficiários são agricultores, comerciantes informais, estudantes, funcionários públicos e comunidades rurais que, durante anos, dependeram de longas caminhadas ou de meios de transporte escassos e caros para se deslocarem entre as zonas de produção e os mercados. Em várias localidades, os tractores transportam produtos agrícolas como milho, feijão, banana, gergelim, mandioca, banana e tabaco, contribuindo para dinamizar a economia local e reduzir os custos de transporte.
A reportagem apurou ainda que o principal desafio continua a ser o estado crítico das vias de acesso, agravado durante a época chuvosa, bem como a escassez de combustível em alguns distritos. Ainda assim, moradores, operadores e autoridades locais foram unânimes em reconhecer que os transportes mistos estão a reduzir o isolamento das comunidades e a melhorar significativamente a mobilidade das populações.

Em Mavago, um dos distritos mais isolados do Niassa, os impactos já são visíveis. A administradora distrital, Cecília Cássimo, afirma que os tractores têm desempenhado um papel decisivo na mobilidade das populações e no escoamento da produção agrícola.
“Recebemos este meio circulante no ano passado e o impacto já é visível. Os transportes mistos facilitam o escoamento dos produtos agrícolas para os mercados e ajudam a população a deslocar-se entre diferentes localidades do distrito”, afirmou.
Segundo a administradora, os benefícios tornam-se ainda mais evidentes durante a época chuvosa, quando muitas estradas ficam praticamente intransitáveis para viaturas convencionais.
“Ajudam-nos na mobilidade de produtos e bens em diferentes pontos do distrito, como de Mavago sede para o povoado de Milepa e de Misawize, a partir de Mavago sede, para a localidade de Nkalapa. As nossas vias de acesso não são boas e, quando chove, a situação agrava-se. Mesmo assim, os tractores conseguem garantir alguma mobilidade para as comunidades. A população reconhece os benefícios que estes meios estão a trazer para o seu dia-a-dia”, explicou, rejeitando as informações que circulam sobre uma alegada paralisação dos meios, que têm sido vitais para o transporte de culturas de milho, feijão, gergelim e tabaco.
Transporte mais barato e menos sofrimento
Rajabo Suleimane, residente em Mavago, afirma que os tractores reduziram significativamente as dificuldades enfrentadas durante a época chuvosa.
“Antes sofríamos muito. Quando chovia, praticamente não havia alternativa para viajar. Agora conseguimos deslocar-nos mesmo em condições difíceis”, disse.
Venâncio Janfar destaca o impacto económico. Segundo relata, os custos de transporte diminuíram significativamente.
“Os taxistas cobravam muito dinheiro para certas rotas. Com o tractor, pagamos menos e conseguimos viajar sem gastar tanto”, afirmou. Contudo, nem tudo são facilidades. O operador do tractor de Mavago, Cassimo Amanuisaa, aponta o estado das estradas como o principal desafio.
“Os tractores ajudam muito a população, mas quando chove durante vários dias levamos muito mais tempo para chegar ao destino. Temos estradas com muitos buracos e troços bastante degradados”, explicou, queixando-se também do consumo elevado de combustível.
Combustível continua a ser obstáculo
Em Mavago, o acesso ao combustível continua a ser um problema sério. O líder comunitário Ali Sadamo relata que, durante semanas, o distrito enfrentou escassez total do produto.
“A bomba local encerrou as actividades e passámos a depender de fornecedores informais. Houve momentos em que o litro chegou a custar 250 meticais”, contou.
A administradora distrital confirma a situação e recorda que, em determinados períodos, o preço chegou a atingir os 500 meticais por litro.
“O Governo teve de intervir para conter a especulação e garantir o cumprimento dos preços oficialmente estabelecidos”, explicou.
Cabo Delgado: fim das longas caminhadas
Em Cabo Delgado, os impactos são ainda mais expressivos. Nas zonas de Mazeze, Mecufi e Chiúre, muitas comunidades percorriam dezenas de quilómetros a pé para transportar produtos agrícolas até aos mercados.
Em alguns casos, as deslocações duravam vários dias. Daniel Abudo lembra que, antes da chegada dos tractores, as populações caminhavam até três dias para chegar aos pontos de comercialização.
“Transportávamos tudo na cabeça até Mecufi. Agora o sofrimento diminuiu muito. O tractor ajuda bastante, embora continuemos a enfrentar problemas nas estradas”, afirmou.
Raul António partilha da mesma opinião. Os moradores, contudo, defendem o reforço da frota e investimentos urgentes em infra-estruturas rodoviárias.
“Estamos felizes porque já não precisamos de caminhar tanto para vender os nossos produtos. Conseguimos levar as mercadorias para outros mercados. No rio Megaruma não existe ponte e, quando chove, os tractores deixam de circular”, referiu.
Governo prevê expansão do programa
Apesar dos constrangimentos, o Executivo considera o programa estratégico para reduzir o isolamento das zonas rurais. No âmbito do Programa de Melhoria do Transporte Público Urbano e Rural, o Governo prevê disponibilizar até 2029 um total de 1.045 viaturas. O plano inclui 100 transportes mistos para zonas rurais, dos quais 10 já foram entregues e outros 30 deverão entrar em operação ainda este ano.
A meta é aproximar comunidades, facilitar o escoamento da produção agrícola e garantir alternativas de mobilidade em regiões onde as estradas continuam a representar um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento económico e social.



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