Megasalários: CIP diz que administradores do Banco Central não sentem na pele o peso da inflação

DESTAQUE ECONOMIA
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O Centro de Integridade Pública (CIP) manifestou profunda preocupação com os dados financeiros revelados no recente relatório e contas do Banco de Moçambique, que aponta para um prejuízo acumulado superior a 13 mil milhões de meticais. A organização destacou que, apesar do balanço financeiro negativo pelo sexto ano consecutivo, o documento demonstra que os benefícios e remunerações atribuídos aos gestores seniores continuam a registar uma trajectória ascendente. O custo global deste restrito grupo de gestores de elite está avaliado em cerca de 300 milhões de meticais, um valor considerado expressivo e desproporcional quando contrastado com a capacidade de arrecadação de receitas do Estado moçambicano e com a gritante escassez de recursos em sectores sociais básicos como a saúde e a educação. Para o CIP essa disparidade se torna mais grave quando se olha para o facto de que quem toma as decisões macroeconómicas, não sente o peso delas.

A organização reconhece a dimensão da responsabilidade técnica do Banco Central na manutenção da estabilidade e credibilidade do sistema financeiro nacional, contudo, adverte que o fosso salarial existente na administração pública choca frontalmente com a realidade de pobreza extrema vivida pela maioria dos cidadãos. O CIP traçou um paralelo crítico entre a vulnerabilidade do moçambicano comum, que enfrenta dificuldades diárias para suportar o custo dos transportes públicos, e a opulência dos pacotes remuneratórios do topo da instituição. Esta assimetria salarial ganha contornos mais severos num período em que o funcionalismo público geral sofreu cortes drásticos nos seus direitos adquiridos, incluindo a redução para metade ou a perda total do décimo terceiro mês, enquanto uma minoria usufrui de regalias avultadas numa instituição que, na sua essência, permanece pública.

A maior preocupação reside no impacto político e social deste isolamento financeiro sobre a eficácia da política monetária do país. O CIP argumenta que a atribuição de remunerações mensais médias que chegam a atingir patamares milionários retira aos decisores macroeconómicos a capacidade de compreender os efeitos práticos da inflação sobre o custo de vida. Ao não sentirem na pele a depreciação do poder de compra ou a oscilação do preço dos produtos essenciais, os gestores do Banco Central tendem a formular directrizes macroeconómicas desprovidas de sensibilidade social, criando um distanciamento perigoso entre quem dita as regras fiscais e a população que sofre com as decisões.

Ao analisar a desconexão entre o padrão de vida da liderança do Banco Central e a realidade económica enfrentada pela população moçambicana, o economista do CIP, Rui Mate, explicou como a magnitude destas remunerações anula a percepção da inflação por parte dos decisores.

“Se o salário de um gestor do banco de Moçambique é de cerca de 4 milhões de meticais, uma variação de dois, três meticais no preço dos bens e produtos é praticamente insignificante, porque eu não quero acreditar que o nível de despesa dessas pessoas mensais acende este valor. Então, eles têm uma responsabilidade para tomar medidas para garantir o bem-estar dos moçambicanos, mas ao mesmo tempo, eles não sentem na pele as variações dos preços, das medidas que eles querem tomar,” disse.

Mate sublinhou a urgência de uma reforma nos critérios de remuneração dos servidores públicos, de modo a salvaguardar a ética e a justiça distributiva num país fustigado por crises sociais recorrentes.

“Temos um outro conjunto de de moçambicanos, muito poucos, que estão auferir valores extremamente avultados e e não é porque é uma instituição privada. É no final do dia uma instituição pública com responsabilidades acrescidas, é algo que tem que se analisar no sentido de não termos esse tipo de disparidades em termos salariais, principalmente quando falamos de servidores públicos,” defendeu.

 

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