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As más notícias não cessam. Quando começávamos a acreditar que o trauma dos raptos poderia finalmente dar lugar a uma nova normalidade, eis que o país continua a ser confrontado com assassinatos que permanecem sem resposta, sem culpados e, muitas vezes, sem explicações. Mudam os alvos, mudam os contextos, mas o padrão mantém-se inquietantemente igual. Um padrão marcado por tiros, mortes, indignação momentânea e, depois, instala-se o silêncio.
Nos meses que se seguiram às manifestações pós-eleitorais, assistimos a uma sucessão de episódios violentos que pareciam saídos de um enredo de perseguição policial. Indivíduos ligados a Serviços de Investigação Criminal e a Polícia foram mortos em circunstâncias pouco esclarecidas. Houve emboscadas, execuções e ataques que revelavam um nível de organização incompatível com a ideia de criminalidade comum. O sangue derramado era real, mas as respostas do Estado permaneceram insuficientes.
Pouco depois, o perfil das vítimas começou a mudar. Militantes e membros de partidos da oposição passaram a denunciar desaparecimentos, perseguições e assassinatos. Algumas dessas mortes ganharam notoriedade pública, outras perderam-se na velocidade do ciclo noticioso. O denominador comum foi a ausência de conclusões convincentes. Em muitos casos, as famílias continuam sem saber quem matou, porquê matou e quem mandou matar.
Também membros da sociedade civil passaram a engrossar esta lista de vítimas. Activistas, líderes comunitários e vozes incómodas surgiram entre os nomes de uma contabilidade macabra que parece não ter fim. O problema não reside apenas no número de mortos. O problema é o ambiente de impunidade que se instala quando o Estado não consegue demonstrar capacidade para investigar, responsabilizar e prevenir.
É precisamente aqui que a recente morte de Bispo Dom Osório Citora assume uma dimensão particularmente simbólica. Não se trata apenas da morte de um cidadão ou de uma figura religiosa. Trata-se da morte de alguém que representa um espaço tradicionalmente associado à paz, à mediação social e ao conforto espiritual. Quando os alvos passam a ser sacerdotes, a mensagem que se transmite à sociedade é a de que ninguém está verdadeiramente protegido.
A gravidade do caso ultrapassou as fronteiras nacionais. A reacção do Papa demonstra que o episódio já não pertence apenas ao debate interno moçambicano. O mundo tomou conhecimento de mais uma tragédia ocorrida no país. Infelizmente, Moçambique continua a conquistar espaço nos noticiários internacionais pelas razões erradas. Não é pelos avanços na educação, nem pelas descobertas científicas, nem pela inovação económica e muito menos por erradicar o terrorismo. É pela violência, pelos conflitos, pelos raptos, pelos assassinatos e pela incapacidade de garantir segurança aos seus cidadãos.
Esta projecção internacional deveria preocupar profundamente as autoridades. Cada morte sem esclarecimento representa não apenas uma falha judicial, mas também uma erosão da credibilidade do Estado. A confiança pública constrói-se quando as instituições demonstram capacidade de proteger vidas e de aplicar a lei. Quando isso não acontece, abre-se espaço para a especulação, para o medo e para a sensação de abandono e mais do que isso, para desacreditar o Estado. O exemplo de Adriano Nuvunga é indicador desse descréditos às instituições da justiça.
O mais inquietante é que a violência parece avançar para sectores que, até há pouco tempo, eram considerados relativamente imunes. Mais do que comunicados de condenação, o país precisa de resultados. Precisa de investigações credíveis, julgamentos transparentes e responsabilização efectiva. Precisa de demonstrar que a vida humana continua a ser um valor inegociável.
Porque o verdadeiro escândalo não é apenas a morte de um padre em Quelimane. O verdadeiro escândalo é a possibilidade de essa morte vir a juntar-se a tantas outras que permanecem sem resposta. E um Estado que não consegue responder à morte dos seus cidadãos acaba inevitavelmente por alimentar a própria impunidade que diz combater.



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