Governadora de Gaza pode tornar-se a primeira baixa do Executivo de Chapo

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Guerra entre Matavele e Mapandzene implode bastião da Frelimo em Gaza
  • Purga sem precedentes na Frelimo atinge Gaza e Cidade de Maputo
  • Fontes associam polémicas detenções à disputa entre Dionísio Matavele e Margarida
  • Doações desviadas seriam entregues à Frelimo para depois o partido doar às vítimas
  • Secretariado de Maputo caiu devido a alegados desvios durante a campanha eleitoral
  • Na cidade de Maputo, a queda deveu-se ainda ao mau desempenho no recenseamento de membros

A decisão sem precedentes da Comissão Política da Frelimo de exonerar, com efeitos imediatos, todos os órgãos do partido na província de Gaza, desde as células até à direcção provincial, não é um mero exercício de reestruturação. É, segundo fontes internas ouvidas pelo Evidências, o desfecho de uma guerra aberta entre duas figuras centrais do poder em Gaza, o então primeiro-secretário provincial, Dionísio Matavele, e a governadora Margarida Mapandzene, um conflito que, segundo várias fontes, terá contribuído para as polémicas detenções relacionadas com o desvio de donativos destinados às vítimas de calamidades, precipitou uma queda em cadeia que atingiu praticamente todos os níveis das estruturas partidárias e poderá culminar com a saída da própria governadora, naquilo que poderá constituir a primeira baixa do Executivo de Daniel Chapo. Com a reunião nacional de quadros à porta, a Frelimo prepara-se para desencadear, tanto em Gaza como na Cidade de Maputo, onde também caiu o primeiro-secretário António Niquice e todo o seu secretariado, um amplo processo de reorganização que deverá, nos próximos dias, envolver eleições internas desde as células, passando pelos círculos, comités de zona e distritais, até culminar com as conferências provinciais destinadas a eleger novas lideranças muito antes da Conferência Nacional de Quadros em Agosto próximo.

Evidências

A decisão da Comissão Política da Frelimo de extinguir todos os órgãos do partido em Gaza, desde as células até ao nível mais alto provincial, chocou o país, por ser praticamente algo inédito. Em círculos internos, a medida é encarada como uma espécie de intervenção profunda destinada a estancar uma crise que se vinha agravando silenciosamente ao longo dos últimos quatro anos e que acabou por dividir um dos mais importantes bastiões eleitorais do partido em dois campos antagónicos.

De um lado estava a ala liderada pelo então primeiro-secretário provincial, Dionísio Matavele; do outro, a estrutura associada à governadora Margarida Mapandzene, numa disputa que, segundo diversas fontes ouvidas pelo Evidências, havia deixado de ser apenas uma divergência política normal para se transformar numa verdadeira guerra pela influência dentro das estruturas partidárias e governativas.

A gravidade da situação acabou por convencer a direcção central do partido de que a simples substituição de alguns dirigentes seria insuficiente para restaurar a normalidade. Reunida na sua 69.ª Sessão Ordinária, realizada na Macaneta, em Maio último, a Comissão Política determinou, por isso, a dissolução de todas as estruturas, desde os órgãos de base até à direcção provincial, abrindo caminho para a eleição de novos dirigentes em todos os escalões.

A decisão é encarada como reconhecimento implícito de que a crise havia contaminado praticamente toda a máquina partidária em Gaza e que apenas uma reconfiguração total poderia devolver estabilidade a uma província historicamente considerada um dos pilares da Frelimo.

Nos bastidores, porém, as explicações para a dimensão da intervenção apontam para uma deterioração das relações entre Dionísio Matavele e Margarida Mapandzene que remontaria a vários anos, para além dos escândalos de favorecimento de determinados quadros nas eleições internas mediante suborno, bem como gestão controversa da organização partidária, que levou muitas vezes a ser denunciado publicamente.

Fontes próximas do processo afirmam que os dois centros de poder deixaram, há muito, de manter uma convivência política saudável, sendo frequentes os relatos de falta de comunicação entre as duas figuras e de uma disputa permanente pela influência nas decisões partidárias e governativas.

Embora os problemas fossem conhecidos internamente, prevaleceu durante muito tempo a tentativa de evitar que as divergências fossem expostas publicamente. Contudo, a acumulação de ressentimentos e a crescente polarização entre os apoiantes das duas alas acabaram por criar um ambiente considerado insustentável, tornando inevitável a intervenção da liderança nacional.

Uma guerra silenciosa que acabou por rebentar

Segundo relatos recolhidos pelo Evidências, as detenções ocorridas em torno do desvio de bens destinados às vítimas de calamidades não podem ser dissociadas do clima de hostilidade instalado dentro da própria Frelimo em Gaza.

Há quem sustente que as denúncias que deram origem às investigações tiveram início no próprio conflito entre facções e que a actuação das autoridades beneficiou de apoio político vindo do interior do partido.

Consta que as detenções da administradora de Xai-xai, da chefe do gabinete da governadora e outras figuras influentes ao nível de Gaza por alegado esquema de desvio de donativos humanitários resultou de uma denúncia feita por uma das alas.

Segundo o Evidências apurou, o grupo terá retirado bens dos armazéns do INGD e colocado “nas casas de pessoas politicamente expostas”, com o objectivo de entregar ao partido, para este depois doar como se fossem contribuições dos seus membros, por forma a granjear alguma popularidade. Porém, outra corrente rejeita categoricamente essa tese e sustenta que se tratava apenas de uma apropriação ilícita.

Mas a crise política em torno de Dionísio Matavele não começou com o caso das detenções. Nos últimos anos, sectores internos vinham acumulando críticas à sua liderança. Entre as acusações mais frequentes figuravam alegados favorecimentos de pessoas próximas e a excessiva concentração de poder.

Um dos episódios mais contestados foi a inclusão do seu filho, Ivan Jones Matavele, nas listas para a Assembleia da República, situação que alimentou acusações de nepotismo e gerou forte descontentamento em alguns sectores da organização.

Embora nunca tenha havido pronunciamentos públicos sobre estas críticas, várias fontes consideram que o desgaste político do antigo primeiro-secretário vinha acumulando-se há muito tempo e acabou por tornar inevitável a intervenção da direcção central.

Governadora pode estar na berlinda

Embora a queda de Dionísio Matavele tenha sido interpretada por muitos como uma vitória política da ala associada à governadora Margarida Mapandzene, que era adjunto do primeiro secretario no secretariado provincial, informações recolhidas pelo Evidências sugerem que a aparente vencedora desta batalha interna poderá igualmente estar a aproximar-se do fim do seu ciclo político. Fontes partidárias falam da possibilidade de uma reestruturação mais ampla, que não se limitaria às estruturas da Frelimo, mas que poderia alcançar também o aparelho governativo provincial.

Nos bastidores, cresce a expectativa de uma remodelação governamental que poderá culminar com a queda da governadora de Gaza. Caso tal cenário venha a confirmar-se, Mapandzene tornar-se-á na primeira figura do Executivo de Daniel Chapo a abandonar funções desde a tomada de posse do novo Presidente da República. A última revisão da lei eleitoral deu poderes aos partidos políticos para indicar qualquer pessoa da lista para ascender ao cargo da governadora no caso de vacatura.

Fontes próximas do processo admitem que, ao mexer também nas hostes do governo provincial, a direcção do partido procura evitar a percepção de que está a tomar partido numa guerra entre facções.

Apesar da aparente vitória de uma das facções em Gaza, várias fontes acreditam que a crise está longe do fim. Aquilo que era suposto representar um exercício de reorganização pode acabar por abrir uma nova frente de conflito interno, pois muitos dos quadros afastados continuam a deter influência política e capacidade de mobilização.

“Isso não é o fim. É apenas uma intensificação da crise”, advertiu uma fonte, revelando que internamente cresce o receio de que os grupos derrotados procurem reorganizar-se e retaliar politicamente.

Na Cidade de Maputo também houve varredura

O processo em curso em Gaza não é um caso isolado. Na Cidade de Maputo, o partido desencadeou uma operação semelhante que culminou com a queda do primeiro-secretário da cidade, António Niquice, e de todo o seu secretariado. Este secretariado foi alegadamente afastado por causa do mau desempenho no recenseamento do partido. Tal como aconteceu em Gaza, as mudanças atingiram praticamente toda a estrutura, desde a base até aos órgãos superiores.

O alcance das decisões surpreendeu mesmo veteranos do partido, que admitem não se recordar de uma intervenção simultânea com esta dimensão em dois dos mais importantes redutos da organização.

Diferentemente de Gaza, na cidade de Maputo o que se fala é que o secretariado terá caído devido a desentendimentos internos em relação ao paradeiro de alguns bens do partido que eram destinados à campanha.

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