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- INATRO interditou Jecka em 2025, mas escola manteve-se aberta e continuou a cobrar
- Há candidatos lesados que estão há quatro anos à espera de realizar exame teórico
- Muitos viram o sonho de emprego ruir, enquanto engoliam infinitas mentiras
- Direcção da Jecka nega atrasos propositados e justifica dificuldades com transição de gestão
Durante quatro anos, João Alberto levantou-se todas as manhãs convencido de que estava apenas a um passo de conquistar a carta de condução. O documento significava muito mais do que autorização para conduzir: representava a possibilidade de conseguir emprego, aumentar o rendimento da família e mudar de vida. Em 2022 inscreveu-se na Escola de Condução Jecka, pagou as propinas, frequentou as aulas e aguardou os exames que nunca chegaram. Hoje, quatro anos depois, continua sem carta de condução. Em vez disso, acumulou prejuízos financeiros, perdeu oportunidades de emprego e viu o seu sonho ficar sucessivamente adiado. A investigação do Evidências revela, porém, que o seu caso é apenas um entre dezenas de outros candidatos que terão sido afectados pela actuação da Escola de Condução Jecka. Documentos e esclarecimentos prestados pelo Instituto Nacional dos Transportes Rodoviários (INATRO) indicam que a instituição foi suspensa por não reunir os requisitos legais de funcionamento e que, apesar da interdição, continuou alegadamente a operar de forma clandestina, recebendo candidatos e mantendo processos de formação.
Edmilson Mate
O que começou como o sonho de obter uma carta de condução para abrir portas ao emprego acabou por transformar-se, para dezenas de jovens, numa longa espera sem fim. Meses transformaram-se em anos, os sucessivos adiamentos deram lugar à incerteza e o investimento feito na formação acabou, para muitos, reduzido a um conjunto de recibos, promessas por cumprir e oportunidades de trabalho perdidas. O Evidências apurou que, por detrás destas histórias, está um denominador comum: a Escola de Condução Jecka.
A mesma foi suspensa por incumprimento dos requisitos legais de funcionamento, encontrando-se actualmente desactivada do sistema oficial. A suspensão foi determinada a 13 de Agosto de 2025, com efeitos a partir de 25 de Agosto do mesmo ano, conforme nota emitida pela Delegação do INATRO na Cidade de Maputo.
A escola foi orientada, na ocasião, a regularizar a licença de funcionamento e a voltar a reunir todas as condições técnicas e administrativas exigidas por lei. Ignorando todas as orientações, aquela escola, que, de entre várias irregularidades não tem carros de instrução, continuou a operar de forma ilegal.
O drama de João está longe de ser um caso isolado. A nossa investigação ouviu vários antigos e actuais alunos que acusam a Escola de Condução Jecka de manter processos paralisados durante anos, exigir novos pagamentos, adiar exames e deixar candidatos sem qualquer informação sobre o destino dos seus processos. Alguns dizem ter esperado cinco e até seis anos apenas para realizar o exame teórico. Outros desistiram pelo caminho, perderam milhares de meticais e acabaram obrigados a começar tudo de novo noutras escolas.
Ao Evidências, o Instituto Nacional de Transportes Rodoviários (INATRO) revelou ter recebido, já em Maio deste ano, candidatos que alegavam continuar inscritos na escola, concluindo que a Jecka prosseguia actividades de forma clandestina, mesmo depois da suspensão administrativa. A revelação levanta dúvidas sobre o destino dos valores pagos pelos alunos e sobre a validade dos processos conduzidos durante este período.
“Perdi dinheiro, perdi tempo e até oportunidades de emprego”
João Alberto conta que a escola insistia que os alunos concluíssem rapidamente os pagamentos, prometendo que os restantes procedimentos decorreriam normalmente. Depois de completar a parte teórica, esperava ser chamado para as aulas práticas e, posteriormente, para os exames, o que, segundo diz, nunca sucedeu.
“Já desisti. Estou há quatro anos à espera. Para mim, a escola não é séria. Eles só pressionavam para pagarmos dinheiro. Fizemos os pagamentos, assistimos às aulas teóricas, mas quando chegou a altura das práticas e dos exames, nada acontecia. Sempre que perguntávamos, mandavam-nos voltar noutro dia ou davam uma nova desculpa”, relata.
O entrevistado recorda ainda que, algum tempo depois, a escola informou os alunos de que seria necessário actualizar ou renovar o processo administrativo, exigindo novos pagamentos.
“Fazia testes, pagava as taxas que iam surgindo, mas nunca me chamavam para o exame de condução. Disseram que tínhamos de fazer uma nova captação de dados. Eu já tinha depositado dinheiro para o processo anterior e perguntei quem iria devolver esse valor. Nunca obtive resposta”, lamenta.
Além do prejuízo financeiro, João diz que também sofreu consequências profissionais. Segundo conta, perdeu pelo menos duas oportunidades de emprego por não possuir a carta.
“Cheguei a perder uma vaga de emprego porque exigiam carta de condução. Se a tivesse recebido no tempo previsto, provavelmente estaria a trabalhar”, lamenta.
“Estamos a fazer carta como se estivéssemos a fazer uma licenciatura”
Joana Nhamtubo relata que se inscreveu na Escola de Condução Jecka em 2021 com a expectativa de obter a carta em poucos meses. Contudo, só este ano conseguiu realizar o exame teórico, após um longo período de espera, mas para tal teve que ser inscrita no sistema com recurso a credenciais da Escola de Condução Jéssica.
“Entrei na escola em 2021. Só este ano consegui fazer o exame teórico, depois de muitas voltas. Na altura fiz a primeira captação de dados e paguei as taxas. Depois mudaram o sistema e disseram que era preciso fazer uma nova captação. Tive de pagar novamente as taxas do exame e refazer todo o processo administrativo”, explicou.
Apesar de ter finalmente realizado o exame teórico, Joana afirma que as aulas práticas acabaram por decorrer na Escola de Condução Jéssica, embora a sua inscrição inicial tivesse sido feita na Jecka.
“Depois do exame teórico, comecei as aulas práticas na Jéssica. Na altura disseram que era a mesma escola”, afirmou.
Quem também caiu no esquema é Carlos Manuel, antigo candidato da Jecka, afirma que decidiu falar à reportagem para evitar que mais jovens passem pela mesma situação. Segundo conta, o sonho de obter a carta transformou-se numa sucessão de despesas, promessas não cumpridas e longos períodos de espera.
“Estamos a fazer carta como se estivéssemos a fazer uma licenciatura. É um processo que devia levar poucos meses, mas acabam por se passar anos sem uma solução”, lamenta.
Ao longo do processo, afirma ter procurado várias vezes a direcção da instituição para obter esclarecimentos sobre o atraso, mas as respostas eram sempre semelhantes.
Para Carlos, a situação exige atenção das entidades responsáveis pela fiscalização do sector, de modo a proteger os candidatos que investiram dinheiro e tempo no processo.
“Não queremos prejudicar ninguém. Só queremos que as autoridades investiguem o que aconteceu e que os alunos que pagaram pelos serviços tenham os seus processos resolvidos. O nosso dinheiro e o nosso tempo também têm valor”, desabafou.
Direcção da Jecka nega atrasos propositados e justifica dificuldades com transição de gestão
Contactado pelo Evidências para reagir às denúncias apresentadas pelos candidatos, Gerson Macamo, director da Escola de Condução Jecka, reconhece que a instituição enfrentou constrangimentos durante o processo de transição da gestão, mas rejeita a ideia de que a escola tenha deixado os alunos sem resposta ou atrasado deliberadamente os processos.
“É um processo complexo. A gestão é nova e, por ser uma gestão nova, encontrou-se sérios impedimentos que tivemos de resolver”, explicou.
Sobre as reclamações relacionadas com a demora na realização dos exames teóricos, incluindo casos de alunos que aguardaram dois ou três anos e cujos documentos acabaram por caducar, o director afirmou que existem vários factores administrativos envolvidos e que a escola tem procurado regularizar os processos.
Em relação ao uso de viaturas associadas à Escola de Condução Jéssica durante as aulas práticas, Gerson Macamo confirmou que houve momentos em que foi necessário recorrer a alternativas para evitar a paralisação das aulas.
“Como pessoas, temos momentos em que podemos ficar doentes, e as viaturas também podem avariar. Para não paralisar as aulas, tivemos de avançar com soluções para garantir que os alunos continuassem a sua formação. As escolas estão no mesmo grupo, mas cada escola é uma escola. Quando há possibilidade de ajudar para que o processo dos alunos não pare, procuramos encontrar soluções”, disse.
Questionado sobre a alegada retirada da licença da escola, Macamo esclareceu que a instituição não perdeu a autorização de funcionamento, mas que o processo está relacionado com uma actualização administrativa.
“Nós não fomos retirados a licença. A licença está em processo de actualização. Como a gestão e o patronato são novos, estamos a fazer as devidas alterações, incluindo a actualização dos dados da escola”, explicou.
Gerson Macamo afirmou ainda que a escola tem mantido os alunos informados sobre os procedimentos e que muitos dos problemas apontados não dependem exclusivamente da instituição.
“Os alunos querem resolver a sua situação, o que é normal. Mas existem processos administrativos que envolvem outras entidades e que nem sempre dependem apenas da escola.”
Por seu turno, a direcção da Escola de Condução Jéssica confirmou ao Evidências que, durante um determinado período, existiu uma colaboração com a Jecka, sobretudo no apoio relacionado com viaturas para aulas práticas. Contudo, esclarece que a relação deixou de existir depois da intervenção das entidades fiscalizadoras.
“Na altura, as escolas eram vistas como uma mesma estrutura, porque pertenciam ao mesmo proprietário. Como eles não tinham viatura, vinham buscar para podermos ajudar e garantir que os alunos não ficassem parados”, explicou a direcção.
Entretanto, a instituição esclarece que a situação mudou após a divisão administrativa das escolas, quando passaram a ser geridas pelos filhos do fundador. De acordo com a direcção, cada escola passou a ter a sua própria representação e autonomia.
“O dono da escola era o mesmo. Depois passaram a existir herdeiros, os filhos, e houve uma divisão legal. Cada um ficou responsável pela sua instituição”, afirmou.
INATRO diz que a Jecka operava ilegalmente e apela aos lesados para recorrerem às autoridades
Em resposta às questões colocadas pelo Evidências, o Instituto Nacional dos Transportes Rodoviários (INATRO) confirmou que aquela escola se encontra encerrada e impedida de exercer qualquer actividade ligada à formação de condutores.
Segundo a Delegação do INATRO na Cidade de Maputo, a instituição teve os seus livros obrigatórios cassados, na sequência do incumprimento dos requisitos legais exigidos para o licenciamento.
A entidade reguladora explica que, após várias acções de sensibilização para que a escola regularizasse a sua situação, foi tomada a decisão de impedir a submissão de novos candidatos aos exames teóricos, permitindo apenas que os alunos que já se encontravam em fase avançada de formação concluíssem os respectivos processos.
“Após muita sensibilização para regularizar a situação da escola, por se constatar que esta já não reunia os requisitos exigidos por lei, a Delegação do INATRO na Cidade de Maputo decidiu interditar a submissão de candidatos para exames teóricos, concluindo apenas os processos que já se encontravam em curso”, refere a instituição.
O INATRO revela ainda que, a 13 de Agosto de 2025, foi emitida uma nota determinando a suspensão da Escola de Condução Jecka, com efeitos a partir de 25 de Agosto do mesmo ano. Na ocasião, a instituição foi orientada a regularizar a licença de funcionamento e a voltar a reunir todas as condições técnicas e administrativas que justificaram o seu licenciamento.
Entretanto, segundo o INATRO, em Maio de 2026 surgiram novos indícios de funcionamento irregular. A 11 de Maio, a Delegação da Cidade de Maputo recebeu seis alegados candidatos da Jecka que denunciaram nunca terem sido submetidos aos exames teóricos.
“Esta situação demonstrou que a entidade continuava a funcionar clandestinamente, não sendo possível apurar em que condições submetia os candidatos para a conclusão dos respectivos processos de formação”, esclarece.
No âmbito das averiguações, o INATRO contactou a Escola de Condução Jéssica, por ambas terem pertencido ao mesmo proprietário. Contudo, segundo a entidade reguladora, a direcção da Jessica informou que já não recebia candidatos provenientes da Jecka e que não mantinha qualquer ligação com a gestão daquela escola.
Actualmente, de acordo com o INATRO, a Jecka encontra-se totalmente desactivada no sistema informático da instituição, estando impedida de realizar qualquer operação relacionada com o licenciamento ou formação de candidatos.
Face às denúncias de prejuízos apresentadas por antigos alunos, o INATRO exorta todos os lesados a apresentarem as suas reclamações junto das autoridades competentes, para que os factos sejam devidamente investigados e sejam tomadas as medidas legais que se mostrarem necessárias.



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