Chapo vende imagem de estabilidade ao Estado e empresários portugueses

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Maputo e Lisboa reforçam parceria com promessa de mais investimento e USD 50 bilhões em perspectivas
  • “Não há razão para que isso não aconteça”, António José Seguro acredita no potencial económico de Moçambique
  • Existe “uma relação económica fluida” entre Moçambique e Portugal apesar de mudanças da legislação portuguesa sobre imigração
  • Sobre galp, Portugal “respeita plenamente a soberania fiscal” e manifesta o desejo de que o processo seja resolvido “pelo diálogo e pelo direito”.

Sob um céu tipicamente lisboeta de verão, com temperaturas amenas e uma agenda preenchida do início ao fim, o Presidente da República, Daniel Chapo, realizou, semana passada, uma visita marcada por um discurso de forte optimismo sobre o futuro económico de Moçambique. A deslocação a Portugal teve como principal palco a EurAfrican Forum 2026, mas estendeu-se a uma intensa agenda diplomática e empresarial que incluiu encontros com o Presidente português, António José Seguro, no Palácio de Belém, com o Primeiro-Ministro de Portugal e com representantes do empresariado português. Em todos os momentos, a mensagem foi praticamente a de apresentar Moçambique como um país estável, previsível e preparado para receber novos investimentos enquanto desdramatizava ou simplesmente fugia de temas polémicos. No fórum, Chapo dividiu o palco com o seu homólogo português numa conversa descontraída e interactiva, marcada por trocas de ideias sobre os desafios e oportunidades da cooperação entre os dois países. Entre números sobre migração, comércio e investimento, os dois Presidentes defenderam uma parceria orientada para resultados concretos, enquanto o Chefe de Estado moçambicano procurava convencer potenciais investidores de que os grandes projectos de gás natural, avaliados em mais de 50 mil milhões de dólares, inauguram um novo ciclo económico. A visita acabou por projectar uma imagem de grande confiança no futuro de Moçambique, combinando diplomacia, promoção económica e um esforço claro para reforçar a credibilidade do país junto das instituições e do sector privado português.

Nelson Mucandze, em Lisboa

A cooperação entre Moçambique e Portugal ganhou novo impulso semana passada, em Lisboa, capital portuguesa, através de dois momentos políticos complementares que procuraram transformar a proximidade histórica entre os dois países em resultados económicos concretos. Primeiro, no palco da EurAfrican Forum 2026, onde o Presidente da República, Daniel Chapo, partilhou o painel “Conversation Between Presidents” com o seu homólogo português, António José Seguro. Depois, no Palácio de Belém, onde ambos mantiveram um encontro oficial, seguido de declarações conjuntas à imprensa. Paralelamente, Daniel Chapo reuniu-se ainda com o Primeiro-Ministro de Portugal, Luís Montenegro, e com representantes do empresariado português, procurando transmitir uma mensagem de um Moçambique que oferece hoje condições de estabilidade, previsibilidade e confiança para quem pretende investir.

A conversa entre os dois Chefes de Estado, moderada pela jornalista Cristina Esteves, decorreu de forma descontraída, fluida e interactiva, num ambiente em que ambos aproveitaram o simbolismo de iniciarem os respectivos mandatos presidenciais para apresentar uma visão renovada da relação bilateral. As intervenções alternaram entre perguntas, respostas e comentários, aproximando o debate do público presente e transmitindo uma imagem de sintonia política entre Lisboa e Maputo.

Mais do que discursos protocolares, o painel privilegiou indicadores concretos para demonstrar a profundidade da cooperação entre os dois países. António José Seguro recordou que cerca de 13 mil moçambicanos vivem actualmente em Portugal, contribuindo para a economia e para a sociedade portuguesa, enquanto aproximadamente 40 mil portugueses residem em Moçambique, participando activamente em diferentes sectores da economia nacional.

A dimensão económica da parceria também ficou evidenciada pelos números apresentados durante o debate. Actualmente, mais de 1.100 empresas portuguesas exportam para Moçambique, enquanto cerca de 500 empresas portuguesas operam directamente em território moçambicano, colocando o país entre os principais destinos africanos do investimento português.

Foi precisamente sobre essa relação económica que Chapo concentrou boa parte da sua intervenção. O Presidente da República dirigiu um apelo directo aos empresários portugueses para reforçarem a sua presença no país, defendendo que Moçambique atravessa uma fase particularmente favorável para novos investimentos.

Segundo explicou, os grandes projectos de gás natural na Bacia do Rovuma representam uma oportunidade sem precedentes para empresas nacionais e estrangeiras integrarem cadeias internacionais de fornecimento de bens, serviços e tecnologia.

Os projectos Coral SulCoral NorteMozambique LNG e Rovuma LNG, liderados por grandes companhias internacionais, quatro das quais europeias, incluindo a ExxonMobil, deverão mobilizar mais de 50 mil milhões de dólares em investimentos ao longo da próxima década.

Para Chapo, esta dinâmica não beneficia apenas o sector energético, mas pode impulsionar áreas como construção, logística, engenharia, transportes, alimentação, hotelaria, tecnologias e formação profissional.

Já em fase de operacionalização dos 500 milhões de euros para empresas portuguesas em Moçambique

O optimismo relativamente às oportunidades de investimento foi igualmente reforçado por António José Seguro. O Presidente português anunciou que a linha de crédito de 500 milhões de euros, criada para apoiar empresas portuguesas interessadas em investir em Moçambique, se encontra numa fase avançada de operacionalização.

Questionado sobre as perspectivas de concretização desses investimentos, Seguro respondeu com uma frase que acabou por sintetizar o espírito do encontro: “Não há razão para que isso não aconteça.”

A questão da segurança em Cabo Delgado também esteve no centro da conversa. Confrontado com dúvidas frequentemente levantadas por investidores internacionais, Daniel Chapo procurou contextualizar a situação.

Chapo lembrou que Moçambique possui cerca de 2.700 quilómetros de costa, sendo que Cabo Delgado se situa a grande distância da capital, Maputo, e que, mesmo dentro da província, os ataques terroristas se concentram apenas em alguns distritos.

Estamos a viver um momento relativamente melhor do que aquilo que era“, afirmou, acrescentando que essa evolução já permitiu a retoma gradual de alguns projectos anteriormente suspensos e contribuiu para melhorar a percepção internacional sobre a segurança do país.

Portugal reiterou, por sua vez, que continuará a apoiar Moçambique, no quadro da União Europeia, no combate ao terrorismo, sempre no respeito pela soberania nacional.

Após o encerramento da EurAfrican Forum, Daniel Chapo deslocou-se ao Palácio de Belém, onde foi recebido oficialmente por António José Seguro.

Nas declarações conjuntas prestadas à imprensa, o Presidente português voltou a destacar que a visita do Chefe de Estado moçambicano permitiu transmitir uma mensagem importante ao tecido empresarial português.

Segundo Seguro, a deslocação de Daniel Chapo a Portugal “serviu para tornar bem claras as condições de estabilidade, de previsibilidade e de confiança que Moçambique hoje oferece aos empresários portugueses para poderem investir”.

Existe actualmente “uma relação económica fluida” entre Moçambique e Portugal apesar de mudanças da legislação portuguesa sobre imigração

O Presidente português considerou que existe actualmente “uma relação económica fluida” entre os dois países, acompanhada por “uma relação política cada vez mais intensa”, protagonizada por uma nova geração de líderes políticos. “Isso augura muita expectativa e um horizonte muito real e concreto de resultados que decorram desta cooperação entre os nossos dois países”, afirmou.

Seguro acrescentou que a cooperação bilateral não apenas resistiu à mudança das lideranças políticas, como saiu reforçada. “A cooperação não enfraqueceu com essa transição; bem pelo contrário, essa cooperação está intensificada.”

Questionado sobre o diferendo fiscal entre a Galp e o Estado moçambicano relacionado com a alienação de uma participação num projecto de gás natural, António José Seguro evitou tomar posição sobre o mérito da disputa.

Limitou-se a defender que o assunto deve ser tratado “com serenidade, respeito institucional e segurança jurídica”, reiterando que Portugal respeita plenamente a soberania fiscal de Moçambique e manifestando o desejo de que o processo seja resolvido “pelo diálogo e pelo direito”.

As alterações recentes na legislação portuguesa sobre imigração também surgiram durante as perguntas dos jornalistas. Embora não tenha abordado directamente as mudanças legais, António José Seguro preferiu destacar o sucesso da integração da comunidade moçambicana em Portugal.

Já sobre a isenção de vistos no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Presidente português reconheceu que o processo continua em discussão, defendendo que as soluções deverão resultar de consensos e beneficiar todos os Estados-membros.

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