O pai que perdeu o filho para o terrorismo na terra pela qual lutou

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

Numa daquelas raras tardes de Domingo em que subitamente tomo vergonha na cara, decido reivindicar alguma dignidade e ponho-me a arrumar as coisas no caos que normalmente domina o locais onde durmo, dei por mim a folhear um entre tantos cadernos de nota preenchidos, esquecidos num caixa que não abro há anos. Nostálgico e curioso, abri uma das páginas aleatoriamente e caíram-me uns rabiscos que datam de Outubro de 2023. Instantaneamente, minha memória levou-me ao interior de Mocímboa da Praia.

É uma tarde de céu limpo e eu estava em Cabo Delgado com outros jornalistas, todos convidados, à moçambicana, para as pomposas inaugurações do Aeródromo e do Porto de Mocímboa da Praia, num entre os vários períodos dos anúncios governamentais de suposto “regresso à normalidade” a que aquela província assistiu, em nove anos de uma crise em que literalmente centenas de cabeças foram decapitadas.

A vida tímida nas ruas da vila onde a insurgência armada em Cabo Delgado começou em 05 de outubro de 2017 denunciava os traumas de uma população que foi exposta à barbárie por anos, com o sentimento de desconfiança silenciosamente espalhado pelas ruas e as marcas da violência estampadas em cada esquina da vila, na altura patrulhada ainda por forças estrangeiras.

Naquela tarde de céu limpo, conheci Amisse Momade, 74 anos de idade, na altura. Encontramo-lo sentado sobre os escombros do que restava do principal hospital de Mocímboa da Praia, com o seu pequeno aparelho de rádio ao lado, sintonizado a uma frequência local qualquer.

O olhar distante e expressão sofrida captaram a minha atenção e, isolando-me do grupo em que eu estava, decidi abordá-lo, com algum cuidado face à desconfiança que pairava em cada beco de Mocímboa da Praia.

Aproximei-me, perguntei como ele estava e pedi-lhe uma entrevista, longe de saber que estava perante um homem que não só perdeu a sua casa para o terrorismo, mas também o seu filho.

Amisse Momade, um antigo combatente da luta de libertação nacional, era pai de um dos jovens que liderou, desde o início, a insurgência armada que devastou Mocímboa da Praia e vários outros distritos da província de Cabo Delgado, paradoxalmente, terra pela qual o velho lutou contra a bárbara ocupação colonial portuguesa no início da década de 1970.

De imediato, fui tomado por sentimento misto. Entusiasmado, por um lado, por ter encontrado a história que realmente justificava o percurso de mais de 2.600 quilómetros que separa Maputo de Mocímboa da Praia para o meu editor e, por outro, por estar perante uma figura que me podia esclarecer a principal dúvida que me acompanhou nos oito anos em que cobri este conflito como jornalista: “porquê”.

Eu estava perante uma vítima, mas, ao mesmo tempo, o pai de um jovem moçambicano que se tornou terrorista. Sem pensar, atirei-me à areia e sentei-me, ajustei a minha máquina e, ao lado de outros colegas que posteriormente se aproximaram, demos início à entrevista, particularmente entre as mais emotivas de que tenho memória em mais de 10 anos de jornalismo.

Nós estávamos a perguntar a um pai por que o seu filho decidiu começar a decapitar cabeças e a queimar casas na terra pela qual ele lutou.

Tratava-se de uma pergunta que por diversas vezes o próprio Amisse fez ao seu filho e nunca teve uma resposta. Para mim, a dúvida que pintou aquela entrevista de quase 30 minutos ficou muito mais complexa com a descrição que Amisse nos fez de quem era este jovem.

O velho Amisse descreveu-nos um rapaz que teve uma adolescência dedicada aos estudos, mas a “radicalização islâmica” que já era promovida sobre uma juventude sem alternativas no interior de Mocímboa da Praia, antes mesmo de 2017, acabaria por empurrá-lo para as fileiras de uma insurgência cujos motivos sempre foram obscuros.

Longe das aulas e da família, o filho de Amisse tornou-se “instrutor” para dezenas de jovens insurgentes logo no início da guerra, treinando-os física e ideologicamente em sessões concorridas no interior de Nanduadua, um dos bairros locais. O filho de Amisse pregou a insurreição contra o Estado que o pai ajudou a libertar.

Filho de um camponês e que, até certa altura, era descrito como um bom rapaz, ele era um jovem nascido, paradoxalmente, na província mais rica em recursos minerais do país, mas entre as que têm os piores índices de pobreza.

Provavelmente, nas notícias, o filho de Amisse ouvia os anúncios e aplausos compulsivos de homens de fato e gravata – os mesmos que me convidaram a mim para assistir às pomposas inaugurações do Aeródromo e do Porto – sobre milhões de dólares envolvidos da exploração de minerais da sua província, mas as oportunidades concretas e o impacto destes investimentos nunca realmente chegaram a Cabo Delgado, sobretudo para a juventude local.

Naquela descrição feita com a dor de um pai cheio de perguntas encontrei-me a mim e a centenas de milhares de outros jovens moçambicanos que tiveram o mesmo tipo de desafios no limiar da pobreza, numa adolescência sem perspectivas ou referências e que, normalmente, desaguava na delinquência.

As estatísticas são assustadoras: o último censo populacional (2017) indicava que, no universo hoje de mais de 32 milhões de moçambicanos, cerca de 9,4 milhões são jovens, um terço dos quais sem emprego, escolaridade ou formação profissional.

São milhões de jovens que hoje estão na condição em que um dia esteve o filho de Amisse Momade, espalhados pelos 801.590 quilómetros quadrados do território moçambicano. A sorte destes jovens é que as suas províncias não têm reservas de gás natural consideradas entre as maiores do mundo.

Enquanto o velho Amisse Momade falava naquela entrevista difícil, sentado sobre os escombros do hospital de Mocímboa da Praia, eu pensava: e se o terrorismo em Moçambique tivesse começado em KaMavota, quantos de nós, frutos de uma adolescência miserável, como o filho de Amisse, estaríamos nas fileiras daqueles grupos. Eu vi tantos, incluindo-me a mim, quando mais novo.

Sobre o destino do filho de Amisse, hoje, pouco ou nada se sabe. Embora não confirmada, a versão que Amisse tem é de que o seu filho foi morto pelas forças governamentais em Macomia, distrito, curiosamente, onde foi dado o primeiro tiro no arranque da Guerra de Libertação a que Amisse se juntou na juventude para “fundar” Moçambique.

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