Chapo, um outsider que se tornou dono, mandou abanar a árvore, resta saber quem fica

EDITORIAL
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A 11.ª Conferência Nacional de Quadros da Frelimo terminou com uma aparente reafirmação da unidade, mas deixou sinais suficientemente fortes de que os próximos passos dificilmente serão apenas de alinhamento. Chimoio serviu para reforçar a coesão, mas também para expor, talvez como poucas vezes nos últimos anos, as fissuras, vícios e contradições que o partido vinha evitando discutir frontalmente. E Daniel Chapo saiu desta conferência numa posição diferente daquela em que entrou na Presidência, já não é um outsider dentro da Frelimo. Até porque o seu discurso conseguiu aglutinar aquilo. Foram contribuições, num tom de lamento, dos históricos da Frelimo, como Graça Machel e Maria da Luz Guebuza.

Chapo conseguiu vender a sua ideia de “Nova Era” ao partido e, sobretudo, fazer da renovação uma agenda da própria Frelimo. Isso significa inserção, mas também responsabilidade. Ao assumir que “a renovação deve começar por dentro” e que é preciso “fazer as coisas de maneira diferente para obter resultados diferentes”, Chapo deixou de apresentar a mudança como simples discurso governativo e colocou-a no coração da máquina partidária.

A Conferência teve, por isso, um simbolismo particular. Os camaradas foram convidados a falar “livremente e sem restrição”, e Chapo classificou o encontro como exercício de liberdade, democracia e cidadania. O próprio discurso reconhece que os participantes falaram “sem filtros”, recuperando o princípio de “unidade-crítica-unidade”. A abertura produziu um efeito inevitável ao permitir que se falasse, a Frelimo acabou por mostrar a profundidade dos problemas que precisa resolver. E são muitos

Foi nesse ambiente que questões que durante muito tempo foram tratadas com cautela, foram chamadas pelos nomes. A crítica ao modelo de candidato único nas disputas internas, levantada por José Chichava, é particularmente sensível. Mexer nesse mecanismo significa tocar no sistema através do qual se constroem consensos, sucessões e equilíbrios internos. É uma proposta que pode modernizar a Frelimo, mas também abrir disputas que a disciplina partidária historicamente tratou de conter. É um tiro que mina o próximo quinquénio de Chapo. A frontalidade dos debates chegou, inclusive, a colocar Filipe Nyusi perante a necessidade de justificar decisões e opções do seu ciclo de liderança.

Chapo, por seu turno, foi ainda mais longe no terreno da moralização. Aqui começa, provavelmente, a parte mais difícil da “Nova Era”. Expurgar corruptos pode significar mexer profundamente na própria Frelimo, porque décadas de exercício do poder produziram redes de interesses, lealdades e protecções. Quando Chapo afirma que “alguns poderão tentar resistir”, mas que a liderança “não vai recuar”, reconhece implicitamente que a renovação encontrará adversários dentro de casa.

O mesmo se aplica à renovação geracional. Chapo advertiu que uma organização que não “injecta sangue novo” corre o risco de parar no tempo e reafirmou a juventude como garante da transformação, embora procurando equilibrar a experiência dos mais velhos com a vitalidade dos jovens. Isso parece conciliador no discurso, mas será inevitavelmente disputado quando chegar a hora de distribuir lugares e poder.

Por isso, Chimoio pode ter sido menos o ponto de chegada e mais um teste à profundidade das águas. As contribuições seguem agora para o Comité Central, órgão deliberativo que se reúne nesta quarta-feira (26), e pode marcar o princípio das decisões já legitimadas na reunião e alimentarão o processo rumo ao 13.º Congresso. É aí que se perceberá quanto da liberdade exibida na Conferência sobreviverá quando começar a produzir consequências.

Chapo conseguiu a inserção que precisava. Agora terá de provar que “Nova Era” não é apenas uma nova embalagem para velhos equilíbrios. A Frelimo saiu de Chimoio a proclamar coesão, mas abriu discussões que tornam improvável um futuro de simples alinhamento. Depois de autorizar o diagnóstico, Chapo terá de decidir se está disposto a suportar o custo do tratamento.

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