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- O negócio da fome que paralisou a capital de Cabo Delgado
- Gasolina custa mais de três vezes acima do preço oficial de 93,69 meticais no mercado negro
São 21 horas em Pemba. A noite já vai alta, mas a fila na bomba da PUMA, na Rua EM002, na zona central da cidade, mais parece uma cena de tempos de guerra. Centenas de mototaxistas e automobilistas amontoam-se, há horas, com os olhos postos nas mangueiras, na esperança de levar alguns litros de gasolina. Aquele, segundo relatos, é o único posto que ainda respira, alimentando a ilusão de centenas que se recusam a ir às suas casas de mãos vazias. Mas nem todos terão a sorte e a última alternativa que lhes restará será o mercado informal na capital de Cabo Delgado, onde o litro é transaccionado a 300 meticais, valor que muda drasticamente nos distritos mais a centro e norte daquela província.
Edmilson Mate, em Pemba
A gasolina tornou-se um artigo de luxo na capital de Cabo Delgado. Há mais de um mês, a crise de combustível mergulhou a cidade num caos sem precedentes. No mercado informal, um litro chega a ser comercializado por 300 meticais, mais de três vezes acima do preço oficial fixado em 93,69 MT.
O Evidências apurou que, para além da falha logística, há quem esteja a lucrar deliberadamente com o desespero alheio. Fontes ligadas ao sector denunciam a existência de um esquema bem oleado, através do qual alguns fornecedores de combustível estariam a desviar o produto dos canais regulares para o mercado paralelo, vendendo a preços especulativos.
Segundo as mesmas fontes, esta prática ilegal estaria a ser alimentada pelo descontentamento de certos operadores com o preço oficial, considerado “insuficiente” para as margens de lucro pretendidas pelas gasolineiras. Ou seja, enquanto a população definha nas filas, o combustível segue para o “negócio da fome”, onde o litro vale o que a necessidade do consumidor puder pagar.
Os verdadeiros reféns desta crise são os mototaxistas. Dependentes do combustível para levar o pão para casa, estes trabalhadores enfrentam um dilema cruel: ou passam o dia inteiro nas filas sem conseguir abastecer, ou recorrem ao mercado negro e pagam um preço que lhes corrói totalmente o rendimento.
Roberto Tomás, mototaxista há mais de cinco anos na cidade, confessa ao Evidências que já não sabe o que fazer para sustentar a família.
“Passei praticamente todo o dia nas bombas à procura de combustível. Assim, hoje não trabalhei e os meus filhos vão morrer de fome. Não consegui abastecer e cada dia que fico parado representa uma perda para mim. Se continuar assim, vou abandonar o trabalho. O meu patrão quer 1.500 meticais por semana e eu não consigo pagar sem trabalhar. Estou a ter prejuízo. A minha receita semanal é de 1.500 meticais e, nessas condições, fica muito complicado sustentar o meu trabalho”, lamenta.
Na mesma dor está António Sumail, que descreve a sensação de impotência ao ver o seu ganha-pão a desmoronar. Segundo explica, a crise coloca os mototaxistas numa sinuca de bico: aumentar o preço das viagens para tentar cobrir os custos ou continuar a circular com margens irrisórias.
“Chegamos às bombas muito cedo e passamos horas na fila, mas, muitas vezes, saímos sem combustível. Quando conseguimos comprar no mercado informal, o preço é muito alto e já não compensa trabalhar como antes. Somos obrigados a aumentar o preço das viagens, mas também sabemos que os passageiros não têm dinheiro para pagar mais”, disse.
A crise não afecta apenas os mototaxistas. O encarecimento do combustível já começa a reflectir-se no custo de vida geral da cidade, com o transporte de mercadorias a tornar-se mais caro e os comerciantes a serem forçados a repassar os preços ao consumidor final, quer dizer, enquanto o Estado não actua, a especulação campeia e os mais vulneráveis pagam a factura.



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