Chapo deve falar para unir, é o que se espera de um PR

EDITORIAL
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À medida que os acontecimentos pós-eleitorais de 2024 entram numa nova fase, agora também pela via judicial, torna-se oportuno regressar a uma reflexão que o país não pode eternamente adiar e muito menos deve ser o seu Presidente, o mais alto magistrado da nação, o seu promotor-mor, a trazer ao debate, como falar sobre as feridas das eleições sem voltar a abri-las.

Venâncio Mondlane deverá responder perante o Tribunal Supremo num processo relacionado com as manifestações pós-eleitorais. É à Justiça que cabe apreciar as acusações, determinar responsabilidades individuais e decidir, com independência, quem violou a lei e em que circunstâncias. Ao poder político, sobretudo ao Presidente da República, cabe uma missão diferente e talvez mais difícil que é ajudar a reconciliar o país.

É justamente aqui que a comunicação do Chefe do Estado merece reflexão. Na semana passada, Chapo voltou aos acontecimentos pós-eleitorais para condenar a destruição de infra-estruturas públicas. Falou de escolas queimadas, hospitais afectados e outros bens colectivos destruídos durante os protestos. Não é nem a décima vez o que faz mesmo após transcorrido tanto tempo. A condenação desses actos é legítima e necessária. Escolas, hospitais, medicamentos e demais infra-estruturas públicas pertencem aos moçambicanos e nenhuma disputa política justifica a sua destruição.

O problema não está necessariamente no que o Presidente da República condena. Está na forma como escolhe recordar um período tão doloroso e politicamente sensível. As manifestações deixaram feridas de vários lados. Por isso, quando o mais alto magistrado da Nação recupera apenas uma das faces daquela crise, corre o risco de despertar imediatamente a memória da outra. Falar das infra-estruturas destruídas leva inevitavelmente outros moçambicanos a recordarem as mortes, os feridos, os confrontos com a Polícia e as controvérsias que acompanharam o processo eleitoral.

É este ciclo de memórias contrapostas que a comunicação presidencial deveria ajudar a ultrapassar. Depois de tomar posse, Chapo deixou de representar apenas os cidadãos que votaram nele. Tornou-se Presidente da República de Moçambique. Isso significa ser Presidente dos vencedores e dos derrotados, daqueles que reconheceram os resultados e daqueles que os contestaram, dos que permaneceram em casa e dos que foram às ruas, das famílias que perderam património e das famílias que perderam pessoas.

Naturalmente, reconciliação não significa apagar responsabilidades. Quem destruiu património deve responder pelos seus actos. Quem eventualmente tenha cometido excessos no exercício da autoridade pública também deve responder nos termos da lei. E quem estiver acusado de crimes tem direito à defesa e à presunção de inocência. Essa separação é fundamental. A Justiça individualiza responsabilidades enquanto a política deve reconstruir pontes. É por isso que talvez tenha chegado o momento de a Presidência da República mudar o tom sobre o pós-eleitoral. O país precisa menos de saber quem ainda não perdoou quem e mais de perceber como pretende impedir que aquelas circunstâncias se repitam. Precisa de reformas, instituições credíveis, diálogo político e confiança pública. Sobretudo, precisa de uma linguagem presidencial capaz de reconhecer a dor colectiva sem seleccionar apenas a dor de uma parte.

Há momentos em que uma frase presidencial pode construir mais do que uma estrada ou destruir mais do que um protesto. Chapo tem diante de si a oportunidade de se afirmar como figura agregadora de uma sociedade ainda marcada pelas eleições de 2024. Para isso, precisa evitar uma comunicação que possa alimentar a percepção de que existem moçambicanos no centro da República e outros na sua periferia política.

O passado seguirá para os tribunais quando houver matéria criminal. O futuro, porém, pertence à política. NM

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