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- Com apenas a sexta classe, segurança transforma memórias de guerra em livro
Sem formação literária, com apenas a sexta classe e sem computador, Manuel Mabjaia encontrou na solidão dos turnos nocturnos o espaço para transformar memórias, medos e experiências da guerra em literatura. Aos 57 anos, o antigo militar e actual segurança prepara-se para lançar “Nyamata Wakhondo”, uma obra de 150 páginas e 10 capítulos.
Elísio Nuvunga
Há histórias que nascem em bibliotecas. Outras nascem em salas de aula, entre livros, professores e oficinas de escrita. A de Manuel Mabjaia nasceu noutro lugar. No silêncio das noites de vigilância.
Enquanto a cidade dorme, o segurança permanece acordado. Entre as 18 horas e as 06 horas, vigia instalações, combate o sono e acompanha a passagem lenta das horas. Mas é também nesse intervalo entre a madrugada e o amanhecer que regressa às suas memórias. É ali, longe do ruído do dia, que escreve.
Aos 57 anos, Mabjaia prepara-se para lançar “Nyamata Wakhondo”, expressão bantu que significa “Jovens da Guerra”. São 150 páginas distribuídas por 10 capítulos, construídas a partir de memórias da sua passagem pela vida militar e de experiências acumuladas ao longo dos anos.
O livro será lançado no próximo mês, nos passos do Conselho Municipal da Matola, em data ainda por anunciar, sob a chancela da Fundação Carlos Morgado. Mais do que a estreia de um escritor a obra representa a transformação de uma experiência de vida em matéria literária. Mas, diga-se: É uma passagem pouco comum. De um homem que vigia durante a noite para o homem que, nas mesmas noites, escreve. A obra representa uma história de superação
Segurança há várias décadas, Mabjaia trabalha em turnos de 12 horas. São quatro dias consecutivos de trabalho (dois das 06 às 18 horas e outros dois das 18 às 06 horas) seguidos de dois dias de descanso. Mas é sobretudo durante os turnos nocturnos que escreve.
“Geralmente costumo escrever da meia-noite e tal até ao dia seguinte. Sempre faço isso pelas madrugadas. Fico a pensar nas coisas que acontecem, coisas passadas, e escrevo num papel”, conta.
A frase revela mais do que um simples hábito. Para Mabjaia, a madrugada tornou-se uma espécie de oficina literária. O silêncio substitui a sala de escrita. O papel substitui o computador. E as memórias substituem os livros que não teve oportunidade de estudar.
Uma dessas noites ficou particularmente marcada. Começou a escrever às 23 horas e terminou às 04 horas. Não tinha preparado previamente o texto. Escreveu-o como quem deixa sair uma memória.
Na manhã seguinte, colocou as folhas num envelope e levou-as à Rádio Moçambique. O texto acabou apresentado no programa “Mabulo Hiku Yakana”, uma novela radiofónica em changana baseada em histórias do quotidiano dos moçambicanos. Aquela experiência confirmou-lhe que os seus textos podiam sair do papel.
Do primeiro leitor às experiências da guerra que inspiraram a obra
A relação de Mabjaia com a escrita, contudo, é anterior às madrugadas como segurança. Em 1996, ainda estudante na Escola Noroeste 1, recebeu do professor de Português uma tarefa aparentemente simples: escrever um texto da sua autoria.
Mabjaia escreveu sobre problemas que observava no quotidiano, de jovens envolvidos no álcool e nas drogas, o desrespeito pelos pais e a migração para a África do Sul e o professor ficou impressionado.
“Quando o meu professor leu o texto, alguma coisa lhe chamou a atenção. Daí chamou outro professor e perguntou à turma quem tinha escrito aquele texto. Eu disse que tinha sido eu”, recorda, acrescentando que isso o encorajou e os textos começaram então a ganhar vida. Alguns foram transformados em pequenos dramas e apresentados na escola.
A escrita deixou de ser apenas um exercício escolar e passou a acompanhá-lo como um “hobby”. Mas a vida interrompeu o percurso. Em 1988, Mabjaia entrou para a vida militar. Foi recrutado em Fevereiro daquele ano e enviado para a Zâmbia, onde recebeu instrução militar. Regressou a Moçambique no ano seguinte e foi desmobilizado em 1992.
As experiências desse período ficaram guardadas durante décadas. A guerra não desapareceu completamente. Permaneceu nas lembranças, nos episódios, nos lugares e nas pessoas. E, muitos anos depois, regressou através da escrita.
É dessa memória que nasce “Nyamata Wakhondo”. A obra reúne episódios ligados à experiência militar, às dificuldades enfrentadas durante a guerra e às condições de sobrevivência daqueles que viveram o conflito.
Segundo a Fundação Carlos Morgado, o manuscrito original foi escrito por Mabjaia ao longo de vários anos e entregue à equipa editorial em forma de caderno.
“Não foram alterados acontecimentos, não foram acrescentados episódios e não foi corrigida a memória do autor”, explica Ruben Morgado, director executivo da Fundação Carlos Morgado.
A opção editorial confere à obra uma característica particular: a memória não é apenas matéria-prima da literatura, mas também testemunho.
A Fundação considera, por isso, o livro “um documento de testemunho — uma contribuição singular para a memória colectiva de Moçambique e para a compreensão das vidas marcadas pelo conflito”.
A guerra contada pelo corpo
Dois capítulos ocupam um lugar especial na memória do autor. No sexto capítulo, “Os Treze (13) Dias de Caminhada para Fingóe, Marávia”, Mabjaia regressa a uma marcha iniciada a 05 de Janeiro e concluída a 18 do mesmo mês. São páginas sobre fome, cansaço, medo e resistência. A caminhada obrigou os militares a atravessarem rios transportando material bélico, incluindo defesa anti-aérea, B10, morteiro 82 e caixas de munições.
“O material bélico, incluindo, defesa anti-aérea, B10, morteiro 82, caixas de munições, passou de mão em mão. Muitos escorregaram, caíram e feriram-se, sobretudo os que tiraram as botas”, recorda.
É também esse corpo que aparece no capítulo seguinte, “Jovens Quase Esquecidos nas Montanhas de Marávia”. Sem comida, os jovens procuravam nas machambas e aldeias formas de sobreviver.
“Com a fome que tínhamos, pedíamos espigas de milho, torrávamo-las e comíamos só para enganar o estômago por algumas horas. Acordávamos no dia seguinte com a mesma fome”, recorda.
Quando alguém reconheceu o escritor
Durante muito tempo, Mabjaia escreveu sozinho. As suas histórias tinham lugar reservado no anonimato, mas quis o destino que a sua vida cruzasse o caminho de Adérito Matsimbe. Ambos frequentavam o mesmo escritório e Matsinhe sempre encontrava algum vagar entre o vaivém do trabalho para saudar e travar algum dedo de conversa com o segurança. Um destes dias, encontrou, por acaso, alguns dos seus textos.
“Tatana Mabjaia, você tem talento”, disse-lhe. A frase pode parecer simples, mas para alguém que escrevia sem formação literária e sem computador, significou uma espécie de reconhecimento.
Matsimbe incentivou-o a continuar e aproximou-o do escritor e editor Celso Muianga, então ligado à Editora Ndjira e actualmente ligado à Fundação Fernando Leite Couto. Mabjaia continuava a escrever à mão.
“Começámos a falar sobre os meus textos, a dar-me ideias e sugestões”, conta.
Foi assim que os seus escritos começaram a aproximar-se do mundo editorial.
Mas existe uma contradição particularmente interessante na história de Mabjaia. Ele escreve onde trabalha. E trabalha onde, em princípio, deveria apenas vigiar. Em casa, diz, não consegue escrever.
“Em casa fico com a família e aproveito para descansar. Não faço mais nada. Só escrevo quando estou no serviço, de madrugada, até ao dia seguinte, por vezes”, sublinha, enfatizando que a noite, que para muitos representa cansaço, tornou-se para ele espaço de concentração, o silêncio o método e espera o tempo de criação.
O outro livro que ainda não escreveu
Há, entretanto, uma outra história à espera de Mabjaia. É a história do próprio sector da segurança. Há cerca de três décadas ligado à profissão, conhece as dificuldades enfrentadas pelos vigilantes durante as longas jornadas, exposição ao frio, intempéries, humilhações e conflitos com patrões e clientes.
“Ser segurança é carregar um peso. Você é humilhado, tratado como cão, até cão vale a pena”, lamenta, reconhecendo que algumas coisas mudaram.
A trajectória de Mabjaia ganha ainda mais força quando se considera a sua formação académica. Estudou apenas até à sexta classe. Não frequentou uma escola de literatura. Não teve formação superior. Não dispõe das ferramentas que normalmente associamos ao escritor contemporâneo.
Escreve à mão. Aprendeu muito pela observação e insiste que recebeu aquilo que chama de “talento divino”. Chegou a experimentar o desenho e a pintura, mas um tio convenceu-o de que o seu lugar estava na escrita. Hoje, sonha voltar à escola.
“Ainda quero voltar a estudar, mas a vida está difícil. Quando saí da tropa, casei-me e tive de trabalhar. E o trabalho que faço já não permite voltar à escola porque já tenho muitas responsabilidades e tenho filhos para cuidar”, destaca.
“Nyamata Wakhondo” é, nesse sentido, mais do que um livro sobre a guerra. É também o testemunho de um homem que, depois de atravessar a guerra, o abandono dos estudos, a vida militar e décadas de trabalho como segurança, encontrou na escrita uma segunda oportunidade.



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