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- O que aconteceu no HCM?
- Fogo surge depois de denúncias de cabos cortados, água no sistema de refrigeração e intervenções suspeitas no acelerador linear
O incêndio de grandes dimensões que atingiu, na manhã de domingo (01), o Serviço de Oncologia do Hospital Central de Maputo (HCM) acrescentou um novo capítulo a uma história marcada por avarias sucessivas, suspeitas de sabotagem, disputas contratuais e decisões controversas no Ministério da Saúde. Embora as causas do fogo permaneçam desconhecidas, o incidente ocorre numa unidade onde o próprio ministro da Saúde, Ussene Isse, denunciou, em Agosto de 2025, a existência de funcionários que alegadamente procuravam inviabilizar o funcionamento do único equipamento público de radioterapia do país. O incêndio deflagrou por volta das 07 horas, destruindo parte da infra-estrutura, incluindo a enfermaria de quimioterapia. Os 22 pacientes internados foram evacuados, sem vítimas mortais ou feridos. Segundo a porta-voz do Serviço Nacional de Salvação Pública (SENSAP), Vanessa Chiau, as chamas não atingiram directamente a área de radioterapia. Entretanto, as autoridades avaliam se o calor intenso poderá ter afectado os equipamentos.
Evidências
O ministro Ussene Isse classificou a ocorrência como um grande retrocesso. A primeira-ministra, Benvinda Levi; a primeira-dama, Gueta Chapo; e o presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, deslocaram-se ao hospital, enquanto a directora-geral, Farida Urci, acompanhava a transferência dos pacientes. As autoridades anunciaram medidas para assegurar a continuidade dos tratamentos.
Todavia, para fontes ligadas à instalação e manutenção do acelerador linear, o incêndio exige uma investigação que considere também os incidentes anteriores. A sucessão de acontecimentos não demonstra, por si só, uma origem criminosa comum, mas reforça a necessidade de esclarecer as condições de segurança e a gestão dos equipamentos.
A história remonta à governação de Armando Guebuza, quando foi iniciado o projecto de instalação do serviço, impulsionado também pela antiga primeira-dama, Maria da Luz Guebuza. A concretização ocorreu durante a Presidência de Filipe Nyusi, com a inauguração do equipamento em 2019.
Na altura, Ussene Isse exercia funções na Direcção Nacional de Assistência Médica, tendo acompanhado, segundo fontes envolvidas no processo, diferentes etapas da instalação e dos pagamentos. Posteriormente, Armindo Tiago assumiu o Ministério da Saúde, ficando sob a sua responsabilidade decisões determinantes para a continuidade da assistência técnica.
O equipamento funcionou durante aproximadamente quatro anos com manutenção especializada. O contrato inicial, de dois anos, foi prorrogado por igual período, numa operação que, segundo a fonte, representou cerca de 400 mil euros. O problema é que durante esse período não foi assegurada uma transferência efectiva de conhecimento para os técnicos nacionais, apesar da presença de especialistas estrangeiros que garantiam a operação e manutenção da máquina.
Uma fonte afirma que Armindo Tiago decidiu dispensar os especialistas, defendendo a substituição por profissionais moçambicanos que tinham recebido formação no Brasil. A empresa terá advertido que a transição deveria ser gradual. “Eu concordo com isso, mas não podem parar aquelas pessoas. Aqui tem que ser gradual. Pouco, pouco, enquanto os moçambicanos estão a ser bem treinados”, recordou o interlocutor.
A decisão acabaria por coincidir com o início de dificuldades operacionais que culminaram na paralisação do equipamento em 2024. Em Agosto de 2025, o Evidências revelou que a máquina estivera aproximadamente 15 meses inoperacional e que o Governo acabara por recorrer novamente aos especialistas estrangeiros para recuperar o serviço.
Na reabertura, Ussene Isse surpreendeu ao denunciar publicamente actos de sabotagem interna. O ministro afirmou que funcionários tinham introduzido água indevidamente no equipamento durante a manutenção e alertou que existiam pessoas descontentes com a recuperação da radioterapia.
O governante não identificou os alegados responsáveis, mas as declarações conferiram dimensão institucional a suspeitas que até então eram atribuídas sobretudo a fontes ligadas ao fornecimento e manutenção da máquina.
Concurso arrasta-se e dívida chega aos 36 milhões
O histórico contratual apresenta outras situações controversas. Depois dos quatro anos de manutenção, a empresa fornecedora terá recebido uma autorização para continuar os serviços durante seis meses, enquanto o Ministério da Saúde preparava um novo concurso público. Os trabalhos terão sido realizados, mas os pagamentos permaneceram pendentes.
“Mandam mais uma outra carta para nós, que ainda não pagaram até hoje, de seis meses, enquanto estão a preparar o concurso. Nós tratamos seis meses”, afirmou a fonte.
Actualmente, o Evidências apurou a existência de uma dívida de aproximadamente 36 milhões de meticais. No passado, há indicação de que o Ministério de Saúde chegou a enfrentar dificuldades para liquidar uma obrigação de 500 mil dólares junto de entidades suíças, relacionada com os serviços técnicos, posteriormente regularizada.
Mais grave, é que um concurso lançado há 11 meses continua sem conclusão esclarecida. A empresa afirma ter concorrido e reivindica condições para assegurar a manutenção, mas denuncia obstáculos à adjudicação.
A situação exige esclarecer se as propostas foram efectivamente abertas, avaliadas e classificadas, uma vez que a própria fonte apresenta versões contraditórias sobre a fase do procedimento. A demora ganha maior dimensão quando confrontada com a nova paralisação do acelerador linear, registada em Novembro de 2025, apenas alguns meses depois da reabertura. Na altura, o Governo reconheceu a avaria, mas não apresentou uma solução definitiva. Em Agosto de 2026, o Evidências voltou a documentar o sofrimento de pacientes impedidos de realizar radioterapia.
Componentes descontinuados sem confirmação do fornecedor

Outra divergência envolve declarações atribuídas a Ussene Isse sobre a alegada descontinuação de componentes do equipamento. A fonte empresarial questiona como o Ministério da Saúde poderá ter chegado a semelhante conclusão sem uma comunicação formal do fabricante ou dos responsáveis técnicos pelo fornecimento.
“Quando aparece o ministro da Saúde a dizer que aquela máquina está descontinuada, já não existe. Onde é que ele ouviu isso?”, questionou uma fonte. O interlocutor sustenta que existem possibilidades de recuperação do equipamento, embora reconheça que a paralisação prolongada provocou deterioração de componentes.

A divergência exige um parecer técnico independente que esclareça quais as peças efectivamente indisponíveis, se existem alternativas de substituição e se a aquisição de outro equipamento constitui uma necessidade comprovada.
O Evidências apurou ainda actos que configuram de facto uma sabotagem, desde os cortes de cabos e intervenções no sistema de refrigeração, conhecido como chiller. Segundo uma comunicação analisada pelo Evidências, outra empresa terá tentado reparar este sistema, sem resultados satisfatórios. A Neopharma, de um empresário reputado na praça, rejeita responsabilidades pelo alegado corte de cabos e contesta informações sobre o desaparecimento de componentes, assegurando que as peças se encontram armazenadas atrás do acelerador linear.
A empresa admite, contudo, a possibilidade de intervenção de terceiros e defendeu uma investigação independente, incluindo a análise das câmaras de vigilância e dos registos de acesso ao serviço.
Funcionários sob suspeita e interesses privados por esclarecer
As denúncias estendem-se a dois funcionários identificados nas comunicações interceptados pelo Evidências, cujas actuações foram consideradas de necessária investigação por umas das fontes ouvidas.
Mas há outros nomes envolvidos. É que por detrás dessas das dificuldades da radioterapia, são apontadas as disputas entre antigos e actuais responsáveis do Ministério da Saúde, incluindo Armindo Tiago e Ussene Isse, com um a não dar seguimento a compromissos assumidos por outro.
Por outro, a dimensão humana do problema permanece evidente. Segundo dados apresentados em 2025 pelo então director-geral do HCM, Mouzinho Saide, o serviço chegou a tratar uma média de 250 pacientes anualmente. A sua paralisação deixou cerca de 170 doentes em lista de espera.
Napoleão Viola, presidente da Associação dos Médicos de Moçambique, alertou igualmente para os elevados custos do encaminhamento de pacientes ao estrangeiro, num sistema que continua dependente de serviços especializados externos.
O incêndio de domingo agrava agora uma crise que ultrapassa a destruição física de instalações. Embora a área de radioterapia não tenha sido directamente consumida pelas chamas, a extensão dos danos permanece em avaliação.



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