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- Pelo menos sete governantes morreram no estrangeiro nos últimos cinco anos
- Saúde dos moçambicanos refém de um sistema que nem os seus dirigentes confiam
- Fraco investimento no sector da saúde termina com governantes em caixões nos porões de aviões
- Enquanto o povo luta por medicamentos, os dirigentes procuram hospitais no estrangeiro
- Entre médicos capazes e hospitais sem meios, Moçambique continua a exportar doentes
- HCM diz que o país dispõe de quase todos tratamentos, o maior problema está na oncologia
Era manhã do dia 21 de Janeiro de 2026, uma quarta-feira, quando o avião da TAP tocou a pista do Aeroporto Internacional de Maputo. No porão, entre a carga transportada, vinha uma urna contendo os restos mortais de Luísa Dias Diogo, antiga primeira-ministra da República de Moçambique, que perdera a vida em Portugal, onde se encontrava a receber assistência médica. A mulher que durante anos integrou o círculo dos mais altos decisores do país regressava agora sem vida, numa urna, à terra que governou. Trata-se de uma imagem dolorosamente repetida na história recente de Moçambique em que, enquanto milhões de cidadãos dependem de unidades sanitárias sem condições para responder às suas necessidades, os dirigentes que definem as prioridades do país, incluindo antigos responsáveis pela governação e pela gestão do próprio sector, recorrem a hospitais estrangeiros quando precisam de assistência médica. Evidências mapeou pelo menos sete dirigentes que, num passado não muito distante, partiram em busca de tratamento e acabaram por perder a vida longe do país que governaram. O fraco investimento no sector da Saúde, associado a políticas públicas que não colocam o cidadão no centro das prioridades, tem deixado o sistema nacional cada vez mais debilitado, numa contradição que ganha contornos dramáticos quando até antigos governantes e responsáveis pelo sector acabam por procurar tratamento fora do país. O Hospital Central de Maputo garante ter capacidade para tratar todo tipo de doenças e desdramatiza a falta de confiança dos dirigentes ao sistema, alegando ser uma preferência de quem pode pagar.
Elísio Nuvunga
O financiamento público destinado ao sector da Saúde continua a revelar dificuldades de acompanhar as necessidades do Sistema Nacional de Saúde (SNS), num contexto marcado por rupturas de medicamentos, insuficiência de consumíveis hospitalares, equipamentos inoperacionais e limitações na prestação de serviços especializados. A evolução das dotações orçamentais dos últimos três exercícios evidencia uma redução dos recursos reservados ao sector, mesmo quando o orçamento global do Estado regista crescimento.
Enquanto os hospitais públicos funcionam à míngua de medicamentos, consumíveis e equipamentos, com serviços especializados incapazes de responder à procura, os dirigentes políticos que definem as prioridades do país continuam a encontrar no estrangeiro as condições de assistência médica que o Estado não consegue assegurar aos seus cidadãos.
O financiamento público destinado ao sector da Saúde continua a revelar dificuldades para acompanhar as necessidades do SNS. A evolução das dotações orçamentais dos últimos exercícios revela uma tendência preocupante. A saúde perdeu recursos em termos nominais entre 2025 e 2026, mesmo num período em que o orçamento global do Estado registou crescimento.
Em 2025, o Governo inscreveu 49,2 mil milhões de meticais para o sector da Saúde, num Orçamento do Estado global de 512,7 mil milhões de meticais. A dotação correspondia a aproximadamente 9,6% da despesa pública.
No exercício de 2026, a verba destinada à Saúde baixou para 47,3 mil milhões de meticais, apesar de o orçamento global aprovado pela Assembleia da República ter aumentado para 520,6 mil milhões de meticais. Com esta evolução, o peso da Saúde na despesa pública passou para aproximadamente 9,1%.
Para 2027, o Executivo aprovou, a 13 de Outubro de 2026, em Conselho de Ministros, a proposta do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE), que prevê uma despesa pública global de 511,2 mil milhões de meticais e uma redução do investimento público estimados em 79,57 mil milhões, o que vai continuar a afectar a saúde e educação.
A evolução dos recursos financeiros, por si só, não explica todas as dificuldades do SNS. Contudo, num sistema que enfrenta sucessivas rupturas de medicamentos, falta de materiais e equipamentos sem condições de funcionamento, a capacidade de financiamento constitui uma das questões centrais para compreender a dimensão dos problemas.
Até antigos responsáveis pela Saúde procuraram tratamento fora do país
A procura de assistência médica no estrangeiro por figuras públicas moçambicanas não é um fenómeno recente. Os casos conhecidos abrangem personalidades ligadas a diferentes quadrantes da vida política, económica e social, algumas das quais morreram enquanto recebiam tratamento fora das fronteiras nacionais.
Entre os episódios mais recentes encontra-se o de Ana Rita Jeremias Sithole, antiga deputada por seis mandatos e dirigente sénior da FRELIMO, que morreu a 18 de Outubro de 2026, na África do Sul, onde se encontrava internada sob acompanhamento médico, após o agravamento do seu estado de saúde.
Em Janeiro do mesmo ano, Moçambique perdeu a antiga Primeira-Ministra Luísa Diogo, que faleceu em Portugal, vítima de doença. Diogo ocupou os cargos de ministra do Plano e Finanças e de Primeira-Ministra, tendo sido a primeira mulher a chefiar o Governo moçambicano.
Antes destes casos, a morte de Oldemiro Balói, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, já havia chamado a atenção para a procura de assistência médica fora de Moçambique. O antigo governante faleceu a 14 de Abril de 2021, num hospital da África do Sul, para onde tinha sido transferido para receber tratamento.
No mesmo ano, a 16 de Dezembro, morreu também na África do Sul Sérgio Vieira, figura histórica da FRELIMO, antigo ministro e governador do Banco de Moçambique. A morte ocorreu numa unidade hospitalar daquele país, onde se encontrava devido à doença.
Outro caso é o de Daviz Simango, fundador e então presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e presidente do Conselho Municipal da Beira. Simango morreu a 22 de Fevereiro de 2021, aos 57 anos, depois de ter sido transportado para uma unidade de saúde sul-africana na sequência de um problema súbito de saúde.
A lista inclui ainda o advogado e político Máximo Dias, falecido em Lisboa, a 28 de Dezembro de 2020, aos 83 anos. Fundador de movimentos políticos que marcaram a história do pluralismo em Moçambique, Dias também procurou assistência fora do país.
Um dos casos mais emblemáticos, porém, envolve João Fumane, antigo director do próprio Hospital Central de Maputo, que faleceu na África do Sul, em Abril de 2017. Segundo informações divulgadas na época, o médico sofreu um mal-estar e foi encaminhado para uma unidade hospitalar sul-africana, onde acabou por morrer.
Fumane tinha uma longa experiência na gestão do sistema de saúde, tendo dirigido o Instituto Nacional de Saúde antes de assumir a liderança do HCM, em 2012. A sua morte no estrangeiro numa altura em que dirigia a maior unidade sanitária e de referência do país, veio descortinar o véu sobre a qualidade dos serviços e o nível de confiança que os dirigentes têm sobre os serviços que eles próprios gerem.
África do Sul, Portugal, Índia, antiga Swazilândia, Malawi são alguns dos países para onde muitos dirigentes e outras figuras do meio social, político e económico procuram para cuidar da sua saúde.
Médicos existem, mas faltam condições para trabalhar
O retrato das limitações nacionais é reconhecido por profissionais do próprio HCM. Em entrevista ao Evidências, o cirurgião cardiovascular e torácico Atílio Morais, ligado ao Departamento de Cirurgia, defende que o país dispõe de especialistas qualificados e capacidade técnica para realizar numerosas intervenções complexas, mas admite que a insuficiência de recursos financeiros e as dificuldades na área oncológica condicionam a resposta aos pacientes.
“O mais importante é que nós temos de ter em conta e reconhecer que o Hospital Central de Maputo tem capacidade de solucionar muitos problemas que muitos hospitais provinciais não conseguem (…). Este hospital tem valências que não são de brincar. Fazemos quase tudo”, afirmou.
Relativamente à crescente procura por assistência médica no estrangeiro, Morais considera que alguns pacientes recorrem a hospitais de outros países por disporem de condições financeiras para o fazer. Contudo, reconhece que existem áreas em que a capacidade de resposta nacional continua limitada, destacando a quimioterapia e a radioterapia.
“Os pacientes podem ir para a África do Sul, podem ir para a Índia, por meios próprios ou através de angariação de fundos, como anda aí na moda. Também Portugal, alguns vão para a Turquia. Mas tudo o que estes pacientes estão a ir buscar lá, nós damos. Nós damos. Agora, existem os problemas de consumíveis que, uma vez ou outra, aparecem e dificultam um pouco a assistência. Se nós tivéssemos de dizer em que é que os pacientes podiam ir fora? A quimioterapia e a radioterapia”, explicou.
Na sua leitura, as dificuldades têm também raízes nas políticas públicas adoptadas ao longo dos anos por uma minoria política que concentra o poder de decisão sobre os destinos do país, mas que, segundo entende, nem sempre atribui prioridade às necessidades da maioria da população.
Na sua perspectiva, nem mesmo as receitas provenientes da exploração dos recursos naturais, nomeadamente do petróleo e do gás, seriam suficientes para resolver os problemas estruturais da Saúde sem uma profunda revisão das políticas públicas.
Para o especialista, mais do que aumentar os recursos financeiros disponíveis, é necessário repensar o modelo de financiamento e as prioridades de investimento, incluindo a discussão de mecanismos de seguro de saúde e de comparticipação dos cidadãos nos custos da assistência hospitalar, salvaguardando o acesso aos cuidados essenciais.
Apesar das limitações, Atílio Morais rejeita a ideia de que o HCM não disponha de profissionais capazes de responder a doenças complexas. O cirurgião descreve uma instituição com equipas de neurocirurgia, cirurgia cardiovascular, cirurgia geral, urologia, cirurgia pediátrica, cirurgia plástica e outras especialidades que realizam intervenções de elevada complexidade.
O constrangimento está também na dificuldade de assegurar, de forma contínua, os materiais e equipamentos de que os profissionais necessitam. É uma realidade particularmente sensível no tratamento do cancro, que pode exigir uma combinação de cirurgia, quimioterapia e radioterapia, dependendo do diagnóstico e das condições clínicas do paciente.
Na avaliação do especialista, o país possui profissionais com preparação técnica para realizar parte importante destes procedimentos, mas a disponibilidade dos medicamentos de quimioterapia e a operacionalidade dos equipamentos de radioterapia continuam a constituir obstáculos relevantes.
Junta Nacional de Saúde acumula atrasos de quase oito meses
As dificuldades do sistema não terminam nas unidades sanitárias. Também a assistência médica assegurada através da Junta Nacional de Saúde, um mecanismo comummente destinado a funcionários menos favorecidos, mas que, por vezes, é abocanhado pelos mais fortes, enfrenta alegados constrangimentos financeiros, que podem comprometer a resposta aos cidadãos que necessitam de tratamento fora do país.
Um profissional do sector da Saúde, que aceitou falar sob condição de anonimato e a quem chamaremos Mateus, nome fictício, alerta para atrasos próximos de oito meses nos pagamentos relacionados com processos da Junta Nacional de Saúde.
Segundo a fonte, a situação reflecte dificuldades na disponibilidade e gestão dos recursos financeiros destinados à assistência médica, num contexto em que o Estado continua a suportar despesas com tratamentos realizados no estrangeiro.
“Vai à Junta Nacional de Saúde. Vai procurar saber quanto dinheiro. Há um atraso grande de quase oito meses, não há dinheiro. Mas se gasta muito dinheiro”, denunciou.
A denúncia levanta questões sobre a capacidade financeira e operacional da instituição, sobretudo para os pacientes que dependem de comparticipação ou apoio estatal para aceder a tratamentos especializados fora do país.



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