Que transporte colectivo de passageiros temos em Moçambique?

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

Achei engraçada a ideia do Presidente da República, Daniel Chapo, de os moçambicanos usarem transporte público face à crise de combustível causada pela guerra no Médio Oriente.

Por outras palavras, Chapo está a dizer que todos nós, de entre funcionários públicos, incluindo polícias, militares, directores, professores, estudantes, enfermeiros, médicos, serventes e outros, temos que parquear os nossos carros e ficarmos à espera do transporte colectivo de passageiros. É interessante.

Na Tanzânia, a presidente Samia Suluhu Hassan decidiu que os seus ministros e funcionários públicos devem se locomover num único autocarro durante deslocações oficiais, substituindo as longas caravanas de carros. Diz que a medida visa racionalizar gastos públicos ante o aumento de 33 por cento dos preços de gasolina. Perfeito.

Em Moçambique, os vietnamitas ligados à operadora de telefonia móvel, Movitel, de entre gestores, directores e técnicos de diferentes áreas de actividade, fazem-se transportar num único autocarro, para além de viverem no mesmo edifício, o que faz com que os seus custos operacionais sejam baixos comparativamente aos da concorrência. Esta prática nada tem a ver com a crise de combustível. É uma questão de cultura.

Os cidadãos europeus, incluindo turistas estrangeiros, usam, normalmente, o transporte público para chegarem aos seus destinos. Eu, quando estou na Europa, faço isso com muito gosto. Uns preferem apanhar autocarros. Outros viajam de metro e outros de comboio. Quer um, quer o outro modelo de transporte obedece a um horário rigoroso.

O passageiro sabe que se perder o metro das 09:00 horas ou o autocarro da mesma hora, dez ou quinze minutos depois passará um outro que lhe levará ao seu destino, sem falta e sem precisar de empurrar. Quem entra às 10:00 horas no serviço ou na escola, não precisa de madrugar. Dependendo da distância, pode estar na estação de metro, na paragem de autocarro ou na estação ferroviária meia hora ou uma hora antes.

Estamos a falar de transporte público condigno, com rotas concessionadas, exploradas por empresas privadas robustas e bem organizadas, com frotas de autocarros, linhas de metro e de comboio de superfície à altura de responder à demanda.

O país herdou do colono um sistema similar, com a excepção de metro, que oferecia garantias de transporte aos passageiros. Na zona sul, havia seis ou sete empresas que disponibilizavam um serviço de qualidade. Operavam com muita disciplina e rigor. As rotas estavam concessionadas.

As empresas, com frotas generosas, cumpriam horários de circulação dos autocarros. Todo o mundo sabia que as tantas terá transporte. A zona metropolitana de Lourenço Marques, hoje Maputo, estava sob responsabilidade dos Serviços Municipalizados de Viação (SMV) cujos autocarros terminavam numa certa zona de Luís Cabral. A Companhia de Transporte da Matola (CTM) carregava na baixa da cidade, mas os passageiros só podiam descer dessa zona em diante. Fazia carreiras para Machava, Liberdade e outros bairros matolenses.

A outra empresa era Auto-viação do Sul do Save que estabelecia a ligação rodoviária entre Lourenço Marques e a cidade de Inhambane, o famoso Sã. Esta tinha, igualmente, o “Expresso Gazela” que viajava para a cidade da Beira, com uma paragem intermédia em Maxixe, onde chegava às 16:00 horas, para o descanso obrigatório. Retomava a viagem às 7:00 horas do dia seguinte.

Por sua vez, a companhia Teresa Lino e Filhos, Lda cobria Michafutene, Marracuene, Manhiça e as suas carreiras, que partiam da Baixa da cidade, também com paragens intermédias como Entreposto, para carregarem passageiros que desciam a partir de Benfica, para não prejudicar o SMV, terminavam em Xinavane. Abel Antunes ia para Magude, Bilene e noutras zonas.

Madjone Ngonhamo, outra transportadora, actuava nos distritos de Inhambane e Oliveiras Transportes e Turismo detinha exclusividade em relação à província de Gaza. Os autocarros que partiam de Lourenço Marques descarregavam passageiros no seu terminal em Chibuto e, aqui, alguns apanhavam carreiras designadas “Zona” que iam até ao interior da província, casos de Mandlakazi, Macuácua, Chongoene, Conjoene e outros povoados, um transporte condigno.

Oliveiras tinha, igualmente, carreiras para Boane, Moamba, Sábiè, Namaacha. O Chitonhane, o diminutivo de António, o dono da empresa, fazia, ele próprio, a manutenção de estradas nas rotas que explorava, usando as suas máquinas. No centro e no norte do país havia outras empresas que asseguravam o transporte público de passageiros. Tudo isto foi escangalhado e não ficou nada para contar a história.

A pergunta que eu faço é: Que transporte público temos hoje em Moçambique? De que é que o Presidente da República está a falar quando sugere o uso de transporte colectivo de passageiros face à crise de combustível que se faz sentir no país?

O ponto é que substituímos um sistema de transporte robusto como este por tractores, “my love”, moto-táxis, txopelas e pequenos operadores com um, dois ou três mini-bus de 15 ou 30 lugares. Uns foram indemnizados nas suas empresas. Outros recorreram ao crédito bancário para a compra dos carros e a sua colocação em circulação.

Com a excepção das empresas municipais de transporte de Maputo, a EMTPM, e da Matola – EMTM, o resto são chapeiros que respondem por cerca de 80 por cento das necessidades de transporte, pelo menos na zona de grande Maputo, que inclui Marracuene e Boane.

Carros cansados, com o risco de o passageiro entrar limpo e sair sujo ou com roupa rasgada. Cada operador tem o seu horário para começar ou terminar de trabalhar. Quando entende, não carrega passageiros ou pura e simplesmente os seus carros não saem do parque. Uma autêntica irresponsabilidade e desrespeito ao público.

Não se pode falar de concessionar rotas porque para tal seria necessário estes responderem a alguns requisitos como o de se constituir em empresas bem estruturadas que pagam o imposto e com disponibilidade de frota para atender à demanda. A maior parte dos chapeiros é ilegal. Não tem licença e não são tributados. O pior é que não há nenhum esforço no sentido de legalizar a situação.

É este transporte público que o Presidente da República nos sugere usar face à crise de combustível. Um transporte público sem o mínimo de decência, cujos autocarros circulam, quando circulam, ao gosto dos seus proprietários que pensam que estão a fazer favor ao público quando é sua obrigação prestar o serviço, sem horário e garantia da sua disponibilidade.

Organizem, primeiro, o sector. Invistam em meios circulantes para as empresas públicas. Diversifiquem os transportes e coloquem as estradas em condições de transitabilidade. Chegado a esse nível, o PR pode ter a certeza de que todo o mundo preferirá usar o transporte público porque é mais barato do que o transporte próprio. Não serão precisas nenhumas recomendações de quem quer que seja. É só olhar o que acontece noutros países do mundo, mesmo fora de crises de combustível. Abraço.

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