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Nilza Dacal
Moçambique está a atravessar um dos momentos mais sensíveis da sua história recente. Em muitas casas, o salário já não consegue vencer o mês. Há pais e mães que passam noites sem dormir, preocupados com o dia seguinte, sem saber como vão colocar comida na mesa, pagar o transporte dos filhos, comprar medicamentos ou simplesmente garantir o básico para sobreviver com dignidade. O custo de vida sobe sem parar, os produtos essenciais estão cada vez mais caros, o transporte pesa no bolso das famílias. E, silenciosamente, cresce no coração de muitos moçambicanos um sentimento de ansiedade, cansaço e incerteza. Há pessoas que trabalham honestamente todos os dias, mas mesmo assim sentem que a vida se tornou uma luta constante.
Quando o combustível aumenta, o sofrimento espalha-se por toda a economia. O agricultor passa a gastar mais para levar a sua produção ao mercado, o pescador vê o custo da viagem aumentar antes mesmo de lançar as redes ao mar, o transportador trabalha sob enorme pressão. O pequeno comerciante não sobe os preços porque quer, mas porque já não consegue suportar os custos. E, no fim de toda esta cadeia, é sempre o cidadão comum quem suporta o maior peso. Isso sente-se nas ruas, nos mercados, nas filas das chapas e nos rostos cansados de homens e mulheres que acordam cedo, lutam honestamente e, mesmo assim, regressam a casa sem a certeza de que amanhã será melhor. Perante esta realidade, é natural que exista revolta. É humano sentir indignação. O povo tem o direito de manifestar a sua dor, exigir respostas, cobrar sensibilidade e pedir soluções concretas. Esse direito faz parte da democracia e jamais deve ser ignorado. Um povo que nunca fala, nunca questiona e nunca exige corre o risco de transformar o sofrimento em rotina e a injustiça em normalidade.
Mas, ao mesmo tempo, também precisamos de serenidade para compreender que esta crise não começou só em Moçambique, o mundo inteiro atravessa tempos difíceis. Guerras internacionais, tensões geopolíticas, aumento do preço do petróleo, dificuldades no comércio mundial, sanções económicas e instabilidade financeira têm abalado economias em todos os continentes. Mesmo os países ricos enfrentam inflação, aumento do custo de vida e forte pressão social. Isso mostra que muitos dos problemas que enfrentamos hoje são maiores do que qualquer governo consegue resolver sozinho, de forma imediata. Reconhecer isso não é fugir às nossas responsabilidades internas, mas olhar para a realidade com honestidade, maturidade e equilíbrio.
O Governo deve continuar a ser pressionado a agir melhor. Deve ouvir mais o povo, aproximar-se das dores reais das famílias, combater desperdícios, reduzir privilégios injustificados, apoiar os sectores produtivos e reforçar os mecanismos de protecção social. Essa cobrança popular é justa, legítima e necessária. Mas também precisamos de aprender com os momentos dolorosos que o país viveu recentemente. As manifestações de 2024 deixaram feridas profundas no tecido social e económico nacional. Em várias cidades e províncias assistimos à destruição de infra-estruturas, vandalização de estabelecimentos comerciais, paralisação de actividades económicas, bloqueio de estradas, interrupção do transporte e um ambiente de medo que tomou conta de muitas famílias.
Muitos pequenos empresários perderam em poucos dias, negócios que levaram uma vida inteira para construir. Comerciantes viram as suas lojas saqueadas, trabalhadores ficaram sem os seus salários, jovens perderam oportunidades de emprego e famílias inteiras ficaram ainda mais vulneráveis. As empresas reduziram as suas operações, os investidores suspenderam os seus projectos e muitos agentes económicos passaram a olhar para Moçambique com receio e incerteza. E quando a confiança desaparece, a economia sofre profundamente porque o empresário deixa de investir, o investidor estrangeiro adia decisões, os negócios retraem-se, o emprego diminui e o dinheiro deixa de circular. E quem mais sofre é sempre o povo, aquele que depende do funcionamento normal da economia para sobreviver. As manifestações são um direito legítimo, mas quando a revolta se transforma em destruição, violência e paralisação, todos acabamos por perder. Nenhum país consegue desenvolver-se no meio do medo permanente, da instabilidade constante e da incerteza colectiva.
É precisamente por isso que o diálogo nacional se tornou tão urgente e necessário, porque Moçambique precisa de voltar a ouvir-se. O Governo, os partidos políticos, a sociedade civil, os líderes religiosos, os jovens, os empresários e os cidadãos comuns, todos nós precisamos de sentar-se à mesma mesa e falar com sinceridade sobre o futuro do país. Dialogar não é fraqueza, é maturidade e patriotismo. É ter um verdadeiro amor pela pátria. Porque nenhuma nação se salva quando os seus próprios filhos deixam de se reconhecer como parte do mesmo destino. Também é verdade que todo o diálogo precisa de produzir esperança concreta. O povo precisa de sentir que existem caminhos reais para aliviar esta crise. Precisamos de criar mecanismos temporários de estabilização dos combustíveis, reforçar o transporte público, apoiar a agricultura, incentivar a produção nacional, investir em energias alternativas e reduzir a nossa dependência externa. Precisamos de produzir mais dentro do nosso próprio país, apoiar os pequenos produtores, fortalecer as pequenas empresas, valorizar o trabalho nacional e construir uma economia mais forte, mais resiliente e mais preparada para enfrentar crises internacionais.
É preciso proteger os sectores que sustentam milhões de moçambicanos todos os dias: a agricultura, as pescas, os transportes e o pequeno comércio. São essas pessoas simples, que trabalham nestes sectores, muitas vezes esquecidas, que mantêm Moçambique vivo com o suor do seu trabalho. Mais do que nunca, precisamos de trabalhar arduamente para recuperar a confiança dos agentes económicos e mostrar ao mundo que Moçambique continua a ser uma terra de oportunidades, estabilidade e futuro. Para isso, é imperioso garantir segurança, previsibilidade e paz social para que os empresários tenham coragem de investir, expandir negócios e criar empregos para a nossa juventude.
A economia não crescerá sem confiança, nenhum investidor será “louco” para colocar os seus recursos onde existe medo permanente de destruição e instabilidade. Portanto, reconstruir essa confiança é hoje uma responsabilidade colectiva. Também não podemos esquecer que, enquanto muitos moçambicanos enfrentam diariamente a dor da fome, do desemprego, da incerteza e do sofrimento económico, existem filhos desta pátria que carregam outro peso silencioso: o peso de defender Moçambique com a própria vida. No norte do país, longe das suas famílias, mães, esposas, maridos e filhos, os nossos homens e mulheres das Forças de Defesa e Segurança continuam firmes no teatro operacional, enfrentando o terrorismo para que o resto do país possa continuar a viver, trabalhar e sonhar em paz.
Há jovens militares que passam meses sem abraçar os seus filhos, mães que dormem todas as noites com o coração apertado, sem saber se os seus filhos regressarão vivos, crianças que esperam ansiosamente por uma chamada, uma mensagem, um reencontro. E, mesmo diante do medo, esses jovens continuam de pé, suportando o calor, o cansaço, o perigo e a saudade, movidos apenas pelo amor à pátria e pelo juramento de proteger Moçambique. Graças ao sacrifício destes filhos da nação, muitas famílias no norte do País, começaram lentamente a recuperar a esperança. Comunidades que viveram o terror voltaram a ouvir o som das crianças nas escolas, os mercados voltaram a ganhar vida e muitas famílias puderam regressar às suas terras depois de anos marcados pelo medo e pela dor. Os passos dados rumo à paz naquela região carregam o suor, a coragem e, em muitos casos, o sangue dos nossos defensores da pátria. Por isso, quando falamos de unidade nacional, estabilidade e responsabilidade colectiva, devemos também curvar-nos, com respeito e gratidão, perante aqueles que todos os dias arriscam tudo para proteger a nossa bandeira. Muitas vezes, os seus sacrifícios acontecem em silêncio, longe dos holofotes, sem o devido reconhecimento. Mas a verdade é que Moçambique deve muito a esses guerreiros que permanecem vigilantes para impedir que o terrorismo destrua a esperança do nosso povo.
Nenhuma nação consegue erguer-se se os seus próprios filhos se dividirem, se esquecerem daqueles que tombam em defesa da pátria ou perderem a capacidade de caminhar juntos. Hoje, mais do que nunca, Moçambique precisa de união, humanidade e consciência colectiva. Precisamos de proteger a paz com a mesma força com que exigimos mudanças. Mais ainda, precisamos de lembrar que, enquanto discutimos os desafios económicos e sociais que nos afectam, existem compatriotas nossos que continuam a dormir no chão, no mato, longe das suas famílias, apenas para garantir que a nossa bandeira continue de pé. Como sociedade, não temos como avançar enquanto, como filhos desta terra, vemo-nos como inimigos. O futuro de Moçambique precisa de pontes e não de muros, por isso devemos abraçar a Unidade Nacional e não o divisionismo. Precisamos de coragem para reconhecer os nossos erros, mas também de humildade para construir soluções em conjunto e, mais do que nunca, o nosso país precisa de maturidade colectiva, um povo firme nas suas exigências, mas também consciente das responsabilidades que carrega, que saiba protestar quando necessário, mas que também saiba dialogar, construir e defender a estabilidade nacional. Até porque nenhuma nação se desenvolve apenas através da revolta. O desenvolvimento exige trabalho, união, confiança, produção, sacrifício e visão de futuro. Exige cidadãos que não se limitem apenas a apontar os problemas, mas que também estejam dispostos a fazer parte das soluções. A democracia não é apenas o direito de contestar, mas também a responsabilidade de proteger a paz, a estabilidade e o interesse colectivo. É possível exigir mudanças sem destruir aquilo que ainda nos mantém unidos, cobrar resultados sem mergulhar o país no caos e acima de tudo, discordar sem comprometer o futuro das próximas gerações.
Neste momento, talvez o maior apelo que possamos fazer uns aos outros seja simples e profundamente humano: que a vida volte à normalidade, as famílias possam voltar a viver com tranquilidade, as crianças possam ir à escola em paz, os trabalhadores possam sair de casa sem medo, os comerciantes possam abrir as suas lojas com esperança, os transportes funcionem e que o país volte a respirar estabilidade. Que as pessoas deixem de viver com o medo constante de voltar a enfrentar o sofrimento e a incerteza que marcaram o último trimestre de 2024. Que voltem a dormir em paz, sair de casa com tranquilidade e acreditar que dias melhores são possíveis. Moçambique precisa de recuperar a calma, a esperança e a confiança em si mesmo. Os nossos desafios só serão superados pelos próprios moçambicanos, juntos, lado a lado, com responsabilidade, diálogo e amor pela nossa pátria. Esta crise deve servir para nos unir ainda mais, despertar em nós o espírito de produção, independência económica e solidariedade nacional. Que fique claro, no coração de todos nós, que nenhuma dificuldade será maior do que a força de um povo unido, consciente, resiliente e determinado a erguer o seu próprio país. Que Deus abençoe Moçambique e os moçambicanos!



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