Quando a comunicação política produz o efeito inverso

OPINIÃO
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Arão Valoi

Num contexto de elevada polarização política, uma das maiores tentações dos analistas e actores públicos consiste em acreditar que a repetição de uma mensagem é suficiente para moldar a opinião pública. A história da comunicação demonstra precisamente o contrário. Os cidadãos não são receptores passivos: interpretam, selecionam e ressignificam as mensagens em função das suas experiências, crenças, identidades e expectativas. É por isso que, muitas vezes, uma estratégia concebida para enfraquecer um adversário acaba por reforçar a sua centralidade no debate público. Moçambique vive um momento particularmente sensível. Depois de um ciclo eleitoral marcado por forte contestação social, o País procura reconstruir a confiança através de um discurso de diálogo político, reconciliação nacional e procura de consensos. Neste contexto, seria expectável que o espaço público evoluísse para uma discussão mais centrada nas soluções para os desafios estruturais que afectam os cidadãos. Contudo, observa-se, em determinados círculos de opinião, uma tendência para concentrar grande parte da produção discursiva na figura de Venâncio Mondlane, Líder do Anamola.

Independentemente das avaliações que se façam sobre esta figura da oposição, importa questionar a eficácia comunicacional desta opção estratégica. A questão não é se as críticas são legítimas – numa democracia, todas as figuras públicas devem estar sujeitas ao escrutínio. A questão é outra: será que transformar permanentemente um adversário no centro da conversa pública produz os resultados desejados?

A literatura clássica da comunicação oferece elementos relevantes para esta reflexão. Desde os trabalhos de Paul Lazarsfeld (The people’s Choice, 1944), sobre os efeitos limitados dos meios de comunicação até às contribuições de Jack Brehm sobre a reactância psicológica (1966), diversos estudos demonstram que mensagens excessivamente repetidas ou percebidas como tentativas de condicionamento podem gerar efeitos inversos aos pretendidos. Em vez de reduzir a influência do alvo da mensagem, acabam por aumentar a sua notoriedade, consolidar a sua identidade política ou reforçar a mobilização dos seus apoiantes.

A lógica é relativamente simples. Na sociedade digital, a atenção tornou-se um dos recursos políticos mais valiosos. Quem domina a agenda pública ganha visibilidade; quem é permanentemente mencionado, mesmo em tom crítico, permanece no centro das conversas. As plataformas digitais amplificam esse fenómeno. Cada publicação gera comentários, partilhas, respostas e novos conteúdos, prolongando o ciclo de exposição pública. Em comunicação política existe um princípio frequentemente ignorado: antes de convencer alguém, uma mensagem decide sobre quem as pessoas irão pensar. Por isso, quando diferentes intervenientes, incluindo académicos, dedicam diariamente textos, comentários e análises à mesma figura política, podem estar, inadvertidamente, a contribuir para a sua permanência no centro do debate nacional. Os sinais desta dinâmica podem ser observados nas próprias redes sociais. Embora métricas digitais não sejam, por si só, prova de mudança de opinião, constituem indicadores relevantes do nível de atenção que determinado tema desperta. Quando a maioria das interacções continua concentrada numa única figura política, torna-se legítimo questionar se a estratégia de comunicação usada está a produzir os efeitos originalmente pretendidos.

Entretanto, importa olhar para o outro lado da equação. A sociedade moçambicana enfrenta desafios que reclamam respostas concretas e continuadas: emprego para a juventude, qualidade dos serviços públicos, transporte urbano, acesso à saúde, melhoria da educação, habitação, custo de vida e oportunidades económicas. São estes temas que influenciam diariamente a percepção dos cidadãos sobre o desempenho das instituições públicas.

Na ciência política existe um princípio amplamente estudado: governos tendem a consolidar legitimidade menos pelo discurso sobre os seus adversários e mais pela capacidade de produzir resultados percebidos como relevantes pela população. Em contextos de elevada expectativa social, a comunicação institucional torna-se mais eficaz quando acompanha políticas públicas visíveis, prestação regular de contas e demonstração objectiva de progresso.

É neste quadro que ganha particular importância o actual discurso oficial de diálogo e reconciliação. Se o propósito é construir um novo ambiente político, esse compromisso deve beneficiar de uma comunicação que privilegie soluções, reformas e resultados, evitando que a agenda pública seja excessivamente condicionada pela confrontação permanente entre protagonistas políticos.

Naturalmente, nenhuma democracia pode prescindir do contraditório. O debate político faz parte da normalidade democrática. Contudo, existe uma diferença entre escrutinar políticas e permitir que o debate nacional gravite quase exclusivamente em torno da figura de um único actor político. Quando isso acontece, corre-se o risco de reduzir a complexidade dos desafios nacionais a uma disputa personalizada.

A experiência internacional demonstra que governos fortalecem a sua posição quando conseguem deslocar o foco da competição política para a entrega de bens públicos: Infra-estruturas, crescimento económico, melhoria dos serviços sociais, criação de emprego e estabilidade institucional são dimensões que tendem a produzir efeitos mais duradouros na confiança dos cidadãos do que campanhas centradas em adversários.

Moçambique atravessa uma fase que exige maturidade política de todos os intervenientes – governo, oposição, academia, sociedade civil e comunicação social. Aos intelectuais cabe um papel particularmente relevante: contribuir para elevar a qualidade do debate público, promover análise crítica baseada em evidência e ajudar a recentrar a discussão nos problemas estruturais que afectam a vida quotidiana dos cidadãos.

A democracia fortalece-se quando a competição política convive com um debate público orientado para soluções. E a comunicação estratégica revela a sua maior eficácia quando consegue aproximar a acção governativa das expectativas concretas da população, em vez de transformar adversários políticos no principal eixo da narrativa nacional.

No final, permanece uma lição conhecida pelos estudiosos da comunicação: nem sempre a mensagem produz o efeito desejado. Em determinadas circunstâncias, insistir em combater um adversário pode ser precisamente a forma mais eficaz de lhe ampliar a relevância política. Por isso, qualquer estratégia de comunicação pública deve ser continuamente avaliada à luz dos seus efeitos reais, e não apenas das intenções que a inspiraram.

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