PRM diz que agiu para conter desacatos e ANAMOLA fala em repressão a mando da Frelimo

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Tiros, gás lacrimogéneo e feridos na celebração de um ano do partido de Venâncio Mondlane

A celebração do primeiro aniversário da ANAMOLA terminou com uma moldura humana em debanda pelas artérias de Quelimane, após intervenção da Polícia da República de Moçambique (PRM). Agora as partes trocam acusações com versões completamente opostas sobre o que aconteceu. A PRM diz que recorreu ao gás lacrimogéneo para conter desacatos, insultos e vandalização de uma viatura, depois de ter informado o partido de que a marcha não poderia avançar. Venâncio Mondlane rejeita a versão policial, nega qualquer comunicação prévia e acusa a FRELIMO de instrumentalizar as forças de segurança para reprimir a oposição. A ANAMOLA fala em quatro feridos por disparos, enquanto a PRM não confirma o uso de balas verdadeiras, alegando terem registado apenas feridos por picadas de abelha.

Elísio Nuvunga

A capital da Zambézia, Quelimane, viveu momentos de tensão no último sábado, quando a polícia usou força para inviabilizar a realização de uma marcha de Venâncio Mondlane e membros do seu partido, em celebração do seu primeiro aniversário. A destacada Unidade de Intervenção Rápida foi vista em grande destaque na operação.

O episódio ocorre poucos dias depois de o Comando-Geral da PRM ter decidido restringir o uso da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) nas operações de manutenção da ordem, segurança e tranquilidade públicas, determinando que a sua intervenção passe a depender de autorização do Comandante-Geral.

A decisão, entretanto, não impediu uma nova polémica envolvendo a actuação policial contra uma formação política da oposição, desta vez durante as celebrações do primeiro ano da ANAMOLA, em Quelimane.

A Polícia sustenta que a intervenção foi necessária depois de os membros e simpatizantes da ANAMOLA terem desobedecido às orientações das autoridades, proferido insultos contra agentes e vandalizado uma viatura.

A PRM afirma que tinha inicialmente coordenado com a ANAMOLA a realização de uma actividade pacífica e ordeira. Segundo a porta-voz da corporação na Zambézia, Belarmina Henriques, houve um encontro de harmonização no dia 12 de Agosto, no Comando Provincial da PRM, onde foram acordadas as condições para a realização do evento.

“Esperava-se um evento de carácter pacífico, ordeiro e sem qualquer tipo de incidentes ou acções de vandalismo entre a polícia e o corpo de direcção do partido nas condições previamente acordadas”, explicou.

A corporação afirma, contudo, que uma avaliação posterior das condições de segurança levou à decisão de impedir a realização da marcha. A justificativa apresentada foi a realização, entre 14 e 23 de Agosto, de um evento carnavalesco na cidade de Quelimane, que estaria a provocar grande concentração de pessoas e circulação de viaturas.

Segundo a PRM, os organizadores foram comunicados de que a marcha não deveria prosseguir e que poderiam manter o showmício no campo da Sagrada Família, de modo a evitar congestionamentos e garantir o funcionamento normal da cidade.

A Polícia diz que foi depois da desobediência e dos alegados desacatos que recorreu ao gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes e restabelecer a ordem pública.

Venâncio rejeita versão policial e culpa a Frelimo pela instrumentalização da PRM

A versão da corporação contrasta, porém, com a do partido, que acusa a PRM de ter recorrido à força para impedir uma actividade política. Vídeos e imagens partilhados nas redes sociais mostram o uso de gás lacrimogéneo e, segundo a ANAMOLA, disparos de armas de fogo que terão ferido quatro pessoas.

Venâncio Mondlane apresenta uma versão radicalmente diferente. Numa transmissão em directo, o presidente da ANAMOLA classificou o comunicado da PRM como “mentiroso” e negou que tenha existido qualquer acordo para impedir a marcha ou comunicação prévia nesse sentido.

“Não existe. É mentira que o partido ANAMOLA foi comunicado previamente de que não havia condições para se fazer a marcha. É total mentira. Aquele comunicado apresentado pela PRM é falso. É um comunicado que, pura e simplesmente, veio para desvirtuar e manipular a opinião pública”, afirmou, desafiando a polícia a apresentar provas das alegadas agressões, insultos e actos de vandalismo que, segundo a corporação, justificaram a intervenção.

Mondlane acusou ainda a PRM de estar “partidarizada” e de ser “sequestrada pelo regime e pelo partido que está no poder”, considerando que a intervenção em Quelimane representa mais um episódio de instrumentalização das forças de segurança contra adversários políticos.

Perante os acontecimentos, a ANAMOLA anunciou que pretende responsabilizar os autores e mandantes da intervenção que considera ilegal.

“É preciso a responsabilização e nós vamos até às últimas consequências para responsabilizar exactamente esta ordem, que instruiu e instrumentalizou a polícia. Querem nos matar? Podem continuar a matar, mas o ANAMOLA não vai desistir nem recuar nem com mortes, sequestros, balas, gás lacrimogéneo”, declarou.

O PODEMOS condenou a intervenção policial e defendeu uma investigação independente, célere e transparente para esclarecer os acontecimentos e determinar eventuais responsabilidades. A formação considera que o direito à manifestação está protegido pela Constituição e que divergências políticas não podem justificar repressão ou violência.

A RENAMO também condenou a actuação policial e considerou particularmente grave a alegação de uso de munições reais contra cidadãos. O partido exige que as autoridades esclareçam as circunstâncias da intervenção e, caso se confirme o uso indevido da força, responsabilizem os agentes envolvidos.

O Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) juntou-se às críticas e pediu ao Ministério Público que esclareça as circunstâncias da intervenção, incluindo o recurso ao gás lacrimogéneo e as alegações de disparos com armas de fogo.

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