Quem vai operar o Estado da Inteligência Artificial?

OPINIÃO
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Celina Henriques

 

  1. Encontrei-me com Sabonete (nome fictício), formou-se em Administração Pública numa das escolas do país com extensão em Macuse, Provincia da Zambezia, faz 6 meses. Sabonete nunca saiu de Macuse, nasceu, cresceu e estudou lá no Posto Administrativo de Manonga. Tem 25 anos. E foi contratado há três semanas para trabalhar na Secretaria distrital de Voabil como Técnico. Na sua primeira semana, pediram-lhe para preparar uma informação e organizar uma base de dados. Sabonete ficou sem saber o que fazer e nem por onde começar.

 

  1. É a partir da experiência do Sabonete que me pergunto todos os dias: A Inteligência artificial é irreversível, ela chegou, como estamos a preparar-nos como estado para ela? Porque o principal problema de Sabonete não é talento e muito menos formação porque na extensão de Macuse nunca lhe ensinaram esses assuntos. Nem em Excel e muito menos a usar Inteligência artificial para organizar a informação disponível. Na entrevista e no processo de recrutamento, ninguém perguntou se sabia fazê-lo

 

  1. Há uma tendência generalizada de temer e negar a Inteligência Artificial e concluir que as máquinas vão funcionar no lugar das pessoas, e, neste caso particular, dos funcionários. O drama é de tal forma montado que dá a entender que, um dia o Estado vai acordar só com máquinas e sem pessoas. Essa discussão é em grande parte falsa. Da mesma forma, há quem defenda que a utilização de IA cria preguiça mental, como se quem utiliza ou recorre à Inteligência artificial tivesse, só por si uma mente preguiçosa.

 

  1. Na verdade, essa discussão é em grande medida falsa. A Inteligência Artificial não vem para substituir pessoas, ela vai, de alguma forma, substituir tarefas. O preenchimento repetitivo de formulários, a triagem de processos, o cálculo de indicadores,  tudo isso pode ser absorvido por um sistema automatizado. Mas quem hoje faz essa tarefa não desaparece: o seu trabalho muda de forma. Profissões alteram-se por dentro, e algumas competências tornam-se simplesmente obsoletas, não porque as pessoas deixem de ser necessárias, mas porque aquilo que sabiam fazer deixou de ter procura.

 

  1. Outra pergunta que devemos fazer-no daqui para frente é: dentro de 10 anos que competências serão precisas para ter acesso ao emprego, seja no Estado, no sector privado ou nas organizações nacionais e internacionais? Quem tem as competências, que está a preparar-se para nova forma de vida profissional?

 

  1. Segundo o relatório Digital 2026, da Data Reportal, aproximadamente 20% da população moçambicana tem acesso à internet, cerca de sete milhões de pessoas, num país com mais de 33 milhões de habitantes. Oito em cada dez moçambicanos continuam fora da rede. O INCM regista uma penetração de telefonia móvel de 65%, mas o próprio INTIC reconhece que 531 localidades ainda estão sem qualquer cobertura de sinal.

 

  1. Se nos voltarmos para o mercado de trabalho, o quadro não é assim tão O Programa Quinquenal do Governo 2025-2029 reconhece uma taxa de desemprego juvenil de 33,4% em 2024, com meta de baixar para 22,1% até 2029. É neste terreno de conectividade limitada e desemprego um tanto quanto elevado que se discute inteligência artificial na função pública e no sector de trabalho no geral, o que não configura uma ficção científica mas uma fragilidade estrutural que a tecnologia pode aprofundar ou ajudar a resolver.

 

  1. O País pode optar pela aquisição de computadores, adoptar plataformas e ate automatizar processos. E na verdade, o processo de licenciamento de plataformas digitais e serviços eletrônicos também já iniciou, um passo importante na direcção para a governação digital. Entretanto, esse passo não responde à questão que incomoda a todos nós: Quem vai operar esses sistemas? Serão funcionários capazes de trabalhar com dados, de questionar um resultado gerado por um algoritmo, de perceber quando uma ferramenta de IA está a errar? Ou serão funcionários que ainda lutam para dominar o mais básico, trabalhar no word, numa folha de cálculo, num sistema de gestão documental, um simples formulário electrónico?

 

  1. A verdadeira transformação deverá começar nas pessoas. Sem funcionários capazes de utilizar, questionar, supervisionar e interpretar as tecnologias, a digitalização vai apenas reproduzir, em ambiente digital, as mesmas fragilidades da administração tradicional, caraterizadas pela lentidão, pelo erro, e pela falta de responsabilização. Se os sistemas são construídos por pessoas sem preparação será sim possível ter burocracia digitalizada: mudar o papel para o ecrã, mantendo a mesma lógica e os mesmos vícios. É completamente diferente ter uma Administração Pública inteligente, em que a tecnologia serve para decidir melhor, servir melhor e responsabilizar melhor.

 

  1. Outro cuidado que se deve ter neste processo de mudança é não deixar ninguém para trás, isto é, não construir a mudança deixando para trás os trabalhadores que já estão na função pública e nunca usaram um computador. Há casos de funcionários com 30 anos de serviço que têm um conhecimento profundo dos processos e da legislação e infelizmente, num futuro bem próximo, se verão diante de sistemas que não conhecem e nem compreendem se não lhes for oferecida uma oportunidade de capacitação para acompanhar essa mudança. Não os incluir significa abandoná-los profissionalmente quando se lhes devia oferecer uma requalificação equivalente à formação de quem chega hoje.

 

  1. Numa discussão que acompanhei há dias entre jovens (dos mais conservadores e os mais abertos às mudanças com o advento da tecnologia, havia uma questão com a qual todos concordavam: quando um sistema de Iinteligência Aartificial classificar mal um pedido, atribuir incorrectamente um subsídio ou recomendar uma decisão injusta, quem poderá responder por isso, tendo em conta que a máquina não assina despachos, não presta contas ao cidadão, não pode ser chamada a um processo disciplinar? Depois de um silêncio quase que ensurdecedor, um dos jovens respondeu: Vai ser sempre uma pessoa a responder, uma vez que que está por detrás das máquinas e dos comandos é sempre um ser humano.

 

  1. Entre dúvidas e insistências chegou-se a consenso: deverá sempre haver um ser humano capacitado em ética de dados e com conhecimento consolidado sobre interpretação de dados, que deverá igualmente questionar resultados que lhe parecerem estranhos e protecção de informação pessoal acompanhado de um pensamento crítico, a fazer a supervisão, para garantir que não transferira decisões sensíveis para sistemas que ninguém, de facto, está a vigiar. É por isso que a supervisão humana não é um pormenor técnico mas o cérebro ético de qualquer administração que use Iinteligência A

 

  1. Sabonete não entrou na função Pública mal preparado de forma propositada. Na localidade, onde ele fez o ensino superior, não tem um único computador. A escola não teve em conta a velocidade da mudança da tecnologia (se calhar por falta de recursos ou desconhecimento) e os professores do Sabonete, também não sabem usar um computador. Se as nossas escolas continuarem a formar administradores públicos sem literacia de dados, sem noções básicas de ferramentas digitais e de segurança da informação, continuaremos a ter muitos Sabonetes com boas intenções e a sofrerem inocentes. Continuaremos a ter muitas situações em que o único computador existente numa Repartição está coberto por capulanas e nunca contribui para eficiência na prestação de serviços. A nossa formação inicial precisa de mudar.E, para quem já está no sistema, a formação contínua não pode ser um evento pontual e isolado: tem de ser uma política permanente, com metas, orçamento e avaliação.

 

  1. O nosso Estado estará a preparar os jovens funcionários e os que já lá estão para o futuro? Estaremos nós a construir capacidade humana para fazer render a tecnologia que vai mudando a alta velocidade? Um Estado inteligente se mede pela capacidade que os seus funcionários têm de usar a tecnologia disponível nos seus sectores. Se mede igualmente pela quantidade de gente preparada e não pela quantidade de maquinas que podem operar sozinhas.
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