Jornalista ruandês esteve detido na 18ª esquadra em Maputo e já foi entregue à embaixada do seu país

DESTAQUE POLÍTICA

 

O jornalista ruandês, Ntamuhanga Cassien, que estava desaparecido desde o passado dia 23 de Maio último, na Ilha de Inhaca, após ser abordado por sete elementos da Polícia da República de Moçambique (PRM) e um agente da secreta ruandesa, foi entregue ontem à embaixada do Ruanda em Maputo, apesar dos dois países não terem nenhum acordo de extradição.

Desde a primeira hora, quando foi reportado desaparecimento do jornalista Ntamuhanga Cassien, considerado crítico ao regime de Paul Kagamé e que se encontrava exilado em Moçambique desde 2017, a Polícia da República de Moçambique negou qualquer ligação com o caso e revelou que não tinha registo de qualquer queixa sobre o desaparecimento ou rapto de um estrangeiro.

No entanto, Evidências sabe que após a sua detenção secreta na Ilha de Inhaca, o jovem ruandês de 37 anos de idade foi levado para o continente onde esteve enclausurado na 18ª esquadra da PRM da Cidade de Maputo, que localiza-se na zona próxima ao quartel da Unidade de Intervenção Rápida “UIR”.

Ao que apuramos, embora Moçambique nunca tenha anuído ao pedido de extradição do governo de Paul Kagamé, depois de mais de uma semana detido, Cassien foi ontem entregue à embaixada de Ruanda em Maputo, de onde supõe-se que será levado para Kigali, sem ter sido presente a nenhum juiz como determina o direito internacional.

Uma aparente aproximação entre o Presidente da República, Filipe Nyusi e seu homólogo Paul Kagamé pode ter facilitado o processo e comunidade ruandesa está em pânico. É que temem que Paul Kagamé possa ter dado ajuda militar para o combate da insurgência em Cabo Delgado, em troca apoio na caça aos seus opositores internos.

Evidências apurou que após a sua detenção, a comunidade ruandesa em Moçambique, junto com o seu advogado, terá entrado em contacto com a PRM para apurar informações sobre as motivações e seu paradeiro, contudo sem sucesso. O comando da cidade disse desconhecer qualquer detenção de um cidadão ruandês.

Inconformados os membros daquela comunidade, acompanhados do seu advogado dirigiram-se à Ilha de Inhaca, onde o comandante da esquadra local reconheceu a detenção do jornalista Cassien, mas declinou-se a dar qualquer esclarecimento adicional, alegando tratar-se de um caso bastante melindroso. Aliás, confessou, por causa do carácter confidencial da operação, nem sequer foi aberto o auto de detenção, tendo sido transportado a Maputo no mesmo dia.

Neste momento, a comunidade ruandesa em Maputo, vive momentos de apreensão devido a postura do governo moçambicano, que apesar de não ter acordo formal de extradição está supostamente a “entregar” os opositores de Paul Kagamé, que se encontravam exilados em Maputo, após serem vítimas de perseguição e detenções arbitrárias no seu país.

O jornalista ora clandestinamente detido em Maputo tinha a situação de refugiado regularizada e desenvolvia actividade comercial na Ilha de Inhaka, a pouco menos de duas horas de barco da capital moçambicana.  

Caso chegou à PGR mas não há nenhum sinal

Diante do silêncio das autoridades nacionais, a comunidade ruandesa submeteu, esta terça-feira, o caso à Procuradoria Geral da República como uma forma de pressionar o governo a abrir o jogo, numa altura em que se suspeita da cumplicidade do Presidente da República, Filipe Nyusi.

“Decidimos submeter o caso à PGR e o nosso advogado esteve lá hoje. Esta é a maneira que nós temos de fazer pressão sobre as autoridades para que se localize o Ntamuhanga Cassien”, revelou o porta-voz da associação, Cleophas Habiyareme, citado pela Lusa.

Evidências sabe que para além de Cassien há uma lista de outros ruandeses que estão a ser caçados em Maputo e que nos próximos dias poderão ser entregues às autoridades ruandesas.

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