A economia entre certezas negativas e previsões incertas

OPINIÃO

Luca Bussotti

 

A VIII Edição do Economic Briefing, que ocorreu na Beira, revelou alguns dados económicos significativos e já apurados: primeiro, o índice de robustez empresarial caiu, no primeiro trimestre de 2022, se comparado com o último de 2021, de 29 para 27%; segundo: a inflação aumentou; terceiro, o emprego diminuiu e os novos postos de trabalho produzidos foram essencialmente de tipo temporário ou precário; quarto, ambiente macroeconómico também registou uma descida, embora bastante ligeira.

Estas são as certezas do passado mais recente de Moçambique que Agostinho Vuma, presidente da CTA, expôs com base em dados recolhidos pela sua organização. Dados confiáveis e consolidados, que dizem respeito a uma tendência clara: a economia moçambicana está em crise, e as razões estruturais (salvo, portanto, fenómenos como desastres naturais ou a Covid-19) são duas: por um lado, o sector público está a atravessar um longo período em que contratar novos quadros fica cada vez mais difícil. A situação do orçamento do Estado – cujo défice ronda a volta de 115-120% do PIB – está a tornar insustentável medidas de expansão dos recursos humanos na função pública, pena a aceleração do processo de default de Moçambique. Do ponto de vista social, assim como da alimentação da rede clientelista característica de um Estado como Moçambique isso representa um problema muito sério. Samir Amin, o grande economista egípcio falecido em 2018, já tinha explicado o funcionamento de tais mecanismos em países africanos escassamente produtivos nos anos 1970, cujo capitalismo era parasitário e em que a elefantíase da função pública representava uma das poucas possibilidades para criação de empregos minimamente estáveis. Por outro lado, o capital privado também está num momento particularmente difícil. Com efeito, uma boa parte deste capital está ligado às obras públicas (de vária natureza) que o Estado moçambicano costuma confiar a esta ou àquela empresa, muitas vezes com metodologias pouco transparentes e com custos que levitam quase que regularmente. Contrariamente ao que acontece quando é o Estado a decidir de se livrar de imóveis, tal como está a acontecer agora para o património dos antigos Correios… E a saída, por enquanto, deste capital é contratar trabalhadores precários, descarregando, mais uma vez, as dificuldades por cima do anel mais débil da cadeia económica.

Do outro lado do discurso público temos as previsões: segundo quando reportado pelo Rand Merchant Bank, e reproduzido por uma parte da imprensa local, Moçambique vai crescer este ano na razão de cerca de 4,1%, e em 2023 de 5,1%. Cenários desejáveis, sem dúvida, porém não consubstanciados por dados credíveis. Em primeiro lugar, o mesmo Rand Merchant Bank preconiza a continuação de uma inflação elevada, principalmente para trigo e outros cereais, o que significa que o preço do pão e de outros géneros essenciais continuarão em alta. Em segundo lugar, as sequelas de longo prazo da Covid-19 continuarão a afectar negativamente os custos de abastecimento das empresas, com tendência crescente. Ora, fica complicado acreditar que, diante destes cenários sombrios, o mercado das construções e de algumas matérias-primas tais como carvão, grafite e rubi possa conter ou até inverter as tendências acima referidas.

Em suma, estamos hoje diante de tempos de crises profundas, já certificadas, assim como de expectativas mais róseas, mas pouco corroboradas por dados objetivos, sem falar da imprevisibilidade das tendências económicas numa situação de guerra na Europa e de incerteza também acerca da Covid-19 e de suas possíveis novas variantes, que poderão afectar de novo negativamente a economia mundial. Soluções estruturais seriam as únicas capazes de aliviar, não conjunturalmente, mas de forma estável, o quadro acima recordado. Será que as classes dirigentes moçambicanas, no seu todo, desde o governo passando pelas oposições, desde a CTA até os sindicatos têm a capacidade de elaborar tais políticas estratégicas? Uma pequena dúvida parece legítima…