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Nilza Dacal
Moçambique não é um país pobre. É na verdade, uma nação rica em recursos que ainda não conseguiu transformar essa abundância subterrânea em capital económico duradouro, influência real e prosperidade que chegue a todos. O gás natural da Bacia do Rovuma, os minerais estratégicos, as areias pesadas e o carvão colocam o país numa posição única no mapa energético e industrial do mundo. A grande questão já não é o que temos debaixo da terra, mas sim como vamos usar o que temos.
Transformar riqueza natural em verdadeiro poder nacional vai muito além de extrair e vender. Significa converter esses recursos em activos financeiros sólidos, infra-estruturas que gerem valor, conhecimento técnico e instituições que resistam ao tempo. Os países que hoje contam no mundo fizeram precisamente isso: usaram os seus recursos como trampolim para construir soberania económica e influência duradoura.
Para Moçambique, chegou o momento de mudar de abordagem. Durante muito tempo, olhámos para os recursos naturais sobretudo como fonte rápida de dinheiro ou como forma de atrair investimento estrangeiro. Isso tem o seu lugar, mas não chega. A verdadeira ambição tem de ser mais alta: usar o subsolo para construir um Estado mais forte, uma economia diversificada e uma sociedade mais justa e inclusiva.
O primeiro passo essencial é reforçar a governação e a transparência. A história está cheia de exemplos em que a riqueza dos recursos se transformou numa maldição, alimentando corrupção, desigualdades e conflitos. Mas quando bem gerida, pode ser o motor de uma transformação profunda. Isso exige instituições sólidas, contratos justos e uma fiscalização séria que coloque sempre o interesse nacional em primeiro lugar.
Um caso africano que continua a inspirar é o do Botswana. Desde a independência, o país pegou nos diamantes, que representam uma fatia enorme do PIB e das exportações e transformou-os num instrumento de desenvolvimento estável. Criou o Pula Fund e, mais recentemente em 2025, o novo Fundo Soberano de Riqueza, geridos com disciplina e transparência. Em vez de deixar o dinheiro desaparecer ou concentrar-se em poucas mãos, investiu em educação gratuita, saúde e infra-estruturas. O resultado é um dos países mais estáveis e prósperos de África, com uma democracia sólida e uma visão clara para o futuro. Mesmo com os desafios actuais do mercado de diamantes, o Botswana mostra que é possível fazer diferente.
Em segundo lugar, precisamos de criar mecanismos sérios de capitalização interna. Fundos soberanos bem estruturados podem transformar receitas voláteis em poupança para as gerações futuras, estabilizar a economia e financiar investimentos estratégicos. Ao mesmo tempo, é crucial ligar os grandes projectos extractivos à economia real do país, através de conteúdo local forte, cadeias de valor e industrialização.
O Gana oferece uma lição prática e recente. Desde que descobriu petróleo offshore em 2007, criou os Ghana Petroleum Funds, um para estabilizar a economia em tempos de crise e outro para proteger as gerações vindouras. Até ao final de 2025, esses fundos já acumulavam mais de 1,5 mil milhões de dólares. Apesar de algumas dificuldades com a produção e debates sobre como usar o dinheiro, o quadro legal permitiu canalizar receitas para desenvolvimento social e infra-estruturas. Para Moçambique, onde o Rovuma LNG avança e se espera a Decisão Final de Investimento ainda em 2026, criar um fundo soberano transparente e robusto pode ser uma das decisões mais importantes dos próximos anos.
Em terceiro lugar, devemos usar a riqueza do subsolo como uma verdadeira alavanca de poder económico. Num mundo onde a energia e os recursos minerais definem cada vez mais quem tem influência, Moçambique tem a oportunidade de se afirmar como um actor relevante. Isso passa por uma diplomacia económica mais assertiva, pela diversificação de parceiros e por negociações que maximizem o valor que fica no país.
Mas nada disto funcionará sem investir seriamente nas pessoas. Educação de qualidade, formação técnica e capacitação institucional são o verdadeiro segredo. São as pessoas e não apenas o gás ou os minerais, que transformam potencial em prosperidade real e duradoura. Tanto no Botswana como no Gana, parte das receitas foi direccionada para o desenvolvimento humano, gerando benefícios que vão muito além da extracção.
Por fim, há uma dimensão ética e política que não podemos ignorar. Gerir recursos naturais não é só uma questão de economia ou contratos. É, acima de tudo, uma questão de justiça entre gerações. O que extraímos hoje pertence também aos nossos filhos e netos. A forma como decidirmos usar esta riqueza vai definir não só o presente, mas o tipo de país que deixaremos para o futuro.
Moçambique está hoje perante uma escolha histórica. Pode continuar no papel de exportador de matérias-primas, dependente das oscilações dos mercados internacionais, ou pode tornar-se uma nação que usa os seus recursos de forma estratégica para construir soberania económica, instituições resilientes e desenvolvimento que beneficie todos.
A diferença entre estes dois caminhos não está no que está debaixo da terra. Está nas decisões que tomamos aqui à superfície, na qualidade das nossas instituições, na visão dos nossos líderes e no compromisso colectivo com o bem comum.
Com os projectos de gás a ganharem força em 2026, a janela de oportunidade está bem aberta. Aproveitá-la com ambição, disciplina e honestidade não é apenas uma responsabilidade nacional. É também uma contribuição importante para o debate africano e global, sobre como os recursos naturais podem servir o progresso humano num mundo em profunda transformação.



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