Carlos Uqueio eterniza vivências, tragédias e a frágil poesia da esperança moçambicana

CULTURA
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  • Em “Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem”

Carlos Uqueio apresenta esta quarta-feira, 22 de Abril, em Maputo, o seu primeiro livro, “Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem”, uma obra que reúne quase duas décadas de fotojornalismo e propõe uma leitura crítica sobre o papel da imagem na construção da realidade em Moçambique. O livro cruza fotografia e texto para revisitar acontecimentos marcantes do país, como os ciclones Idai e Kenneth, o terrorismo no norte, a pandemia da COVID-19 e as manifestações pós-eleitorais de 2024. Mais do que um registo cronológico, a obra procura reflectir sobre como estes eventos são vistos, registados e interpretados através da lente do fotojornalista.

Elísio Nuvunga

A obra, que cruza fotografia e texto, é um exercício de memória e de pensamento sobre o próprio acto de fotografar num contexto moçambicano marcado por crises, transformações e desigualdades persistentes, segundo relata o próprio fotojornalista.

O prefácio de Carlos Agostinho do Rosário, antigo Primeiro-Ministro, inscreve o livro numa relação próxima com o percurso institucional do autor, enquanto a apresentação ficará a cargo do jornalista Pretilério Matsinhe, que lê o trabalho como um espelho crítico da sociedade moçambicana.

Com cerca de 18 anos de experiência, Uqueio reúne neste livro episódios marcantes do seu percurso profissional, atravessando eventos como os ciclones Idai e Kenneth, o terrorismo no norte do país, a pandemia da COVID-19 e as manifestações pós-eleitorais de 2024. Mas o foco não está apenas no acontecimento: está também no modo como ele é visto, enquadrado e transformado em imagem.

O título da obra, “Sombras e Esperança”, funciona como chave de leitura. As sombras remetem para os cenários de destruição e tensão social que marcaram o trabalho do autor; a esperança, para a persistência e resiliência das comunidades retratadas. Entre ambos, instala-se uma tensão constante entre o impacto da realidade e a sua representação visual.

“Este livro não procura respostas fáceis. Procura provocar reflexão”, afirma Uqueio, sublinhando a intenção de estimular um debate sobre o futuro do fotojornalismo num contexto em rápida transformação tecnológica e editorial.

Um dos eixos centrais da obra é justamente a crítica às mudanças na profissão. O autor questiona a crescente substituição de fotojornalistas por imagens de telemóveis ou retiradas da internet, alertando para os riscos éticos e legais dessa prática, mas também para a perda de sensibilidade narrativa que o trabalho de campo implica.

“Estive no terreno, vivi os acontecimentos e registei não só a destruição, mas também a capacidade de superação das pessoas”, recorda, para depois enfatizar que “o uso de imagens da internet sem autorização viola direitos autorais e compromete a credibilidade do jornalismo”, alerta.

Ao mesmo tempo, o livro abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre a ausência de produção teórica moçambicana na área da fotografia. Uqueio aponta a dependência de referências estrangeiras e a fragilidade de um pensamento crítico local sobre a imagem, defendendo a necessidade de construir um arquivo intelectual próprio.

Inspirado por essa lacuna, o livro surge também como ferramenta de consulta para estudantes, investigadores e profissionais da comunicação. No seu entender, os estudantes encontram sobretudo bibliografia estrangeira. Há um vazio de pensamento moçambicano sobre fotografia

“Lembro que recebi um grupo de estudantes da UEM (Universidade Eduardo Mondlane) que estavam a fazer um trabalho de investigação acerca de alguns temas que versam acerca do fotógrafo na redacção. Constatei, à medida que íamos conversando, que estavam a enfrentar dificuldades em encontrar referências moçambicanas. Muitas das referências eram brasileiras ou portuguesas. Para Moçambique é um pouco diferente, porque há alguns fotógrafos que já não estão em vida, como é o caso do Ricardo Rangel”, que explica como surge a ideia de transformar fotografias em livro.

As experiências relatadas incluem também episódios de risco pessoal, como durante as manifestações de 2024, em que o autor descreve momentos de tensão extrema no terreno. Nesses relatos, o fotógrafo surge não apenas como observador, mas como corpo exposto dentro do próprio acontecimento.

Com uma tiragem inicial de cerca de 150 exemplares, a obra assume também uma dimensão quase experimental, num contexto em que o livro físico perde espaço para o consumo digital. Ainda assim, Uqueio acredita no seu valor como registo histórico e ferramenta de consulta para estudantes e profissionais da comunicação.

Mais do que um livro de imagens, “Repórter de Sombras e Esperança” apresenta-se como um gesto de inscrição: uma tentativa de fixar no papel aquilo que, por natureza, é fugaz. E, nesse gesto, levanta uma questão que atravessa toda a obra, o que significa olhar, hoje, para Moçambique através da fotografia?

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