Profissionais de saúde realizam, afinal, partos com sacos plásticos nas mãos por falta de luvas

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  • APSUM reitera continuidade da greve e denunciam más condições de trabalho

Profissionais de saúde em Moçambique denunciam condições extremas de trabalho nas unidades sanitárias, afirmando que são forçados a realizar partos com sacos plásticos por falta de luvas, a trabalhar com lanternas devido à ausência de energia eléctrica e sem equipamentos básicos como máscaras, batas e blocos de receita, numa situação que classificam como um “atentado à saúde pública”. Por essa razão, a Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM) anunciou, esta segunda-feira, em conferência de imprensa, em Maputo, que vai continuar a paralisação no sector, iniciada em 16 de Janeiro passado, devido à falta de condições de trabalho nas unidades sanitárias.

 Elísio Nuvunga

Segundo a organização, os hospitais funcionam em situação de extrema carência, com falta recorrente de luvas, medicamentos, máscaras e equipamentos básicos, obrigando os profissionais a improvisar meios de trabalho em contextos considerados de risco elevado para doentes e pessoal clínico.

“Hoje, os profissionais de saúde fazem partos com saco plástico na mão porque não há luvas, trabalham com lanterna na ausência de energia, sem máscaras, sem batas e, em muitos casos, sem blocos de receita para prescrever medicamentos”, denunciou o presidente da APSUSM, Anselmo Muchave, acrescentando que a situação representa “um atentado à saúde pública”.

Os profissionais relatam que o dia-a-dia nas unidades sanitárias é marcado por improviso constante, insegurança e impotência, com hospitais a operar sem condições mínimas de higiene e segurança. Em alguns casos, segundo a associação, os doentes são atendidos em corredores ou em salas sem material básico de diagnóstico.

A APSUSM exige do Governo a apresentação de propostas escritas, com prazos claros, para o pagamento de subsídios e fornecimento regular de material médico-cirúrgico. “Queremos guias de entrega de medicamentos e material médico. O Governo tem de apresentar datas, valores e compromissos concretos”, afirmou Muchave.

O dirigente reiterou que a greve não é dirigida contra a população, mas contra o que descreve como o colapso progressivo do sistema. “Não suspenderemos a greve enquanto os hospitais não tiverem medicamentos e material. Não se pode trabalhar nestas condições”, declarou.

A associação já tinha alertado para uma “situação catastrófica” no Serviço Nacional de Saúde, afirmando ter registado milhares de mortes associadas à falta de medicamentos e equipamentos, embora esses dados tenham sido contestados pelas autoridades governamentais.

A greve, iniciada em Janeiro, inclui exigências como o pagamento integral do 13.º salário de 2025, melhoria das condições de trabalho e fornecimento regular de material médico-cirúrgico, tendo sido prolongada por mais 30 dias em Março.

A APSUSM, que afirma representar cerca de 65 mil profissionais, mantém a posição de que apenas suspenderá a paralisação quando houver compromissos concretos, com prazos definidos e execução efectiva das medidas.

Entretanto, o Ministério da Saúde reconheceu “ineficiências” no sistema, incluindo faltas pontuais de medicamentos e material médico, mas rejeitou a ideia de colapso do sector. O Governo aponta ainda factores como vandalização de armazéns, dificuldades de financiamento externo, dívidas a fornecedores e constrangimentos logísticos agravados por choques climáticos.

“Queremos igualmente reconhecer que o sistema nacional de saúde está a enfrentar algumas ineficiências, algumas faltas pontuais de alguns medicamentos e material médico-cirúrgico em algumas unidades sanitárias, que não são todas”, disse o director Nacional de Assistência Médica, Nelson Mucopo, em conferência de imprensa, em Maputo.

Entre as causas, apontou ainda para a redução do financiamento externo ao Orçamento do Estado, incluindo cortes de financiamento de projectos pelos Estados Unidos, com o Governo a adiantar que está também a gerir uma dívida com os fornecedores que condicionam a entrega dos materiais aos pagamentos das dívidas, além dos impactos das mudanças climáticas, que influenciam na logística.

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