“Paíto”

OPINIÃO
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Estêvão Chavisso

A imagem de “Paíto” estatelado no asfalto áspero da Rua da Goa, à entrada do histórico bairro da Mafalala, está cravada há anos na minha memória. É fim de tarde de um Sábado de Inverno (2025).

No suave eco de uma mente solitária em repouso, atravessando uma multidão de rostos sem traços, desço a Rua da Goa, em direcção ao bar do Flávio, quando a imagem de um jovem no asfalto chama a minha atenção. Era “Paíto”, uma lenda do bairro onde nasci – Bairro Ferroviário.

Drogado e desorientado, as largas calças de ganga e a t-shirt rota, com o rosto de 2-Pac quase sumido, mostravam indícios de uma vida dedicada à cultura Rap, um sonho distante que prendeu “Paíto” no tempo, encalhado nas margens da “Golden Age” do Hip-Hop.

Sujo, abatido e frágil, como um boneco de pano esquecido no soalho, a imagem de “Paíto” no asfalto era o oposto do jovem rapper que conheci em finais de década de 1990, autor do eco mobilizador que reverberava nas ruas de Kamavota, transformando a dor da periferia em hinos de revolta para uma juventude desorientada e em busca de respostas urgentes.

Ali, naquele asfalto, os meus olhos não estavam perante mais um caso simples de delinquência juvenil, a contar para as estatísticas. Eu estava perante o “Crepúsculo do meu ídolo”.   A decadência de jovem com um coração de poeta que um dia ditou o rumo da nossa marcha colectiva nas ruelas onde cresci.

O cheiro do instante em que me aproximei ficou eternizado na minha memória: a mistura entre álcool, cigarro e suor, um retrato olfactivo do destilado dos excessos, denunciando um grito de socorro de uma alma que em algum momento se perdeu.

Como a maior parte da geração 90, a infância de “Paíto” foi passada no limiar da pobreza, entre sonhos de um futuro diferente e a doutrina de sobrevivência nas sinuosas ruas de Kamavota.

“Puto, és tu?”, perguntou-me, segundos antes de perder definitivamente a consciência, sob o olhar desinteressado da azáfama regular da Rua da Goa, à porta do bairro que para muitos é o guardião da memória e cultura moçambicanas: a Mafalala.

Eu vi o meu ídolo estatelado à entrada de um bairro que carrega o peso histórico de ter acolhido personalidades que levaram o nome de Moçambique para o mundo, de Craveirinha a Noémia, na literatura, de Hilário a Eusébio, no futebol, entre outros.

Nascido com missão servil, a Mafalala foi concebida, primeiro, para albergar os moçambicanos que trabalhavam para a administração colonial que vivia no centro da capital, mas hoje é um retrato fiel da diversidade cultural típica de Moçambique, um espaço onde várias etnias, culturas e religiões se fundem harmonicamente.

As estatísticas apontam para mais de 20 mil pessoas de quase todo o país a partilhar os estreitos becos e ruelas de uma urbanização informal à base de zinco, um espaço que ontem foi “centro da resistência cultural” à bárbara administração colonial portuguesa em Maputo.

Mas “Paíto” não estava ali por causa da importância histórica da Mafalala.  Aquele jovem sonhador com um coração de poeta de Kamavota estava estatelado naquele chão frio em resultado da nossa cumplicidade colectiva face a um problema que tanto tentamos ignorar: a delinquência juvenil, sobretudo na periferia.

A Rua da Goa é, provavelmente, o retrato fiel das consequências desta cumplicidade colectiva face a um problema que está aos nossos olhos, com a decadência de uma juventude estampada a preto e branco.

A sociologia simplista da “crítica autorizada” moçambicana vai apontar sempre para más influências, pobreza extrema e desemprego como principais factores da delinquência juvenil, com a clássica justificação de que isso acontece em todo o mundo, como mostram as estatísticas.

Mas “Paíto”, como outros milhares de jovens que enfrentam este desafio, não é mera estatística. São jovens moçambicanos que um dia tiveram sonhos e que hoje vivem o pesadelo da toxicodependência.

No fundo, esta é mais uma face do nosso problema sistémico: falta de utopias individuais e colectivas, num país onde 80 % da população tem menos de 35 anos e a Política da Juventude está à mercê de ventos sem nome.

Por um lado, há responsabilidade do Estado, que, como todos nós, está ciente de que há circuitos da droga em qualquer esquina da Mafalala e, mesmo assim, opta pelo “conveniente” e prefere assobiar para o lado. Por outro, é a nossa cumplicidade enquanto sociedade, com a clara “normalização” da delinquência a atingir níveis em que a imagem de um jovem drogado estatelado no asfalto áspero da Rua da Goa já não nos gera indignação, num claro abandono da nossa função enquanto primeira linha de resposta – as comunidades.

Com a ajuda de dois jovens que pela Rua da Goa passavam, levei “Paíto” para a minha casa. Enquanto ele tomava banho, desci e comprei-lhe algo para comer, pelo seu estado de debilidade. Quando voltei, “Paíto” já não estava e com ele tinha desaparecido o meu telemóvel. Voltei a perdê-lo para um qualquer asfalto da Mafalala.

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