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- De 3.500 para 10.000 casos anuais
- ICOR ultrapassou marca histórica de 000 doentes operados na instituição desde a sua fundação
- Maioria dos pacientes cirúrgicos é infanto-juvenil, registando uma idade média de 11 anos
O perfil das doenças cardiovasculares em Moçambique sofreu uma transformação profunda nas últimas cinco décadas, marcada por um crescimento exponencial do número de cidadãos que necessitam de cuidados especializados. A revelação foi feita pela directora-geral e fundadora do Instituto do Coração (ICOR), Beatriz Ferreira, durante a sessão de abertura da reunião científica comemorativa dos 25 anos da instituição. Ao traçar uma retrospectiva histórica desde a independência nacional, a especialista procurou demonstrar a dimensão do desafio que o país enfrenta actualmente, num contexto caracterizado pela escassez de recursos e pela crescente complexidade das intervenções médicas necessárias.
Luísa Muhambe
De acordo com os dados apresentados, em 1975, quando Moçambique contava com cerca de nove milhões de habitantes, registava-se uma incidência de oito cardiopatias congénitas por cada mil nados-vivos, o que correspondia a aproximadamente 3.500 crianças que nasciam anualmente com esta condição. Actualmente, com uma população estimada em 35 milhões de habitantes, o número de recém-nascidos com malformações cardíacas congénitas ascendeu para cerca de 10 mil novos casos por ano.
A evolução da cardiopatia reumática segue uma trajectória igualmente preocupante. Enquanto no período da independência se estimava a existência de 30 mil a 60 mil pessoas afectadas por esta doença, as projecções actuais apontam para um universo situado entre 150 mil e 300 mil pacientes, em diferentes graus de gravidade.
No caso da fibrose endomiocárdica, patologia endémica em algumas regiões do país, os dados indicam que o número de casos activos aumentou de uma estimativa entre 20 mil e 50 mil pessoas, em 1975, para cerca de 60 mil diagnósticos actualmente.
Historicamente, a resposta a este cenário clínico era marcada por elevados níveis de mortalidade. Na década de 1990, cerca de 70% das mortes por doenças cardíacas em crianças e adultos jovens poderiam ter sido evitadas caso existisse acesso à cirurgia cardíaca. Para inverter esta realidade, o ICOR criou um programa humanitário que assegura a gratuitidade dos procedimentos para pacientes até aos 21 anos de idade provenientes de famílias desfavorecidas, grupo que representa 89% de todos os doentes tratados pela instituição desde a sua criação.
Os restantes pacientes correspondem, maioritariamente, a adultos com patologias cardíacas isquémicas e melhores condições económicas, cujos pagamentos ajudam a financiar os tratamentos das crianças mais carenciadas, através de um sistema de subsídio cruzado.
Do ponto de vista geográfico, o instituto recebe pacientes provenientes de todas as províncias do país, incluindo Cabo Delgado, Niassa e Tete. Contudo, a maioria das cirurgias concentra-se em doentes residentes num raio de até 600 quilómetros a norte da cidade de Maputo, devido às limitações de transporte e mobilidade existentes no território nacional.
Ao apresentar o balanço acumulado das intervenções realizadas e as soluções tecnológicas implementadas para acompanhar pacientes residentes em zonas remotas, Beatriz Ferreira destacou os avanços alcançados pelo instituto.
“Neste momento já ultrapassámos a marca dos 100 doentes operados este ano e o instituto já realizou mais de 3.000 cirurgias cardíacas. A maioria dos nossos pacientes são crianças, com idade média de 11 anos. No caso da válvula aórtica, infelizmente, as técnicas de plastia ainda não têm produzido os resultados desejados, obrigando-nos a recorrer à colocação de próteses. Trata-se de um grande desafio quando o paciente vive a centenas de quilómetros de distância e tem dificuldades para controlar a anti-coagulação. Por isso, criámos uma rede de monitorização remota. Fornecemos aos pacientes um pequeno aparelho que permite medir os níveis de coagulação, enviando posteriormente os resultados por mensagem, aos quais respondemos com as orientações necessárias”, explicou.
A fundadora do ICOR apresentou igualmente a estratégia financeira que permitiu à instituição reduzir a dependência de financiadores internacionais e assegurar a sustentabilidade do seu programa humanitário.
“Em 2006 concluímos que o modelo inicial não era sustentável, porque os custos da cirurgia cardíaca e do cateterismo eram extremamente elevados. A ideia era que os pacientes adultos financiassem os tratamentos das crianças, mas o número de adultos atendidos não era suficiente para suportar toda a actividade humanitária. Como sabíamos fazer medicina, decidimos abrir o ICOR a outras especialidades médicas e cirúrgicas praticadas no país. Consideramos que essa foi uma decisão acertada, pois permitiu criar uma base financeira sólida e garantir a continuidade do programa. Na última avaliação de qualidade realizada em 2024, alcançámos um nível de conformidade global de 88%”, revelou.
O Ministro da Saúde, Ussene Isse, que presidiu à cerimónia de abertura da reunião científica, enalteceu a trajectória do ICOR e o seu compromisso humanitário na consolidação da cirurgia cardíaca em Moçambique.
Segundo o governante, a cooperação institucional e a mobilização de sinergias entre os diferentes actores do sector respondem directamente à orientação do Presidente da República para reforçar a capacidade de assistência médica nacional. Isse destacou, em particular, as mais de 3.000 cirurgias cardíacas realizadas gratuitamente em crianças oriundas de famílias vulneráveis, sublinhando que o programa não apenas salvou vidas, como também reduziu significativamente os custos associados às evacuações médicas para o exterior.
O ministro aproveitou a ocasião para alertar sobre o crescimento silencioso de doenças cardiovasculares associadas à hipertensão arterial, apontada como uma das principais causas de patologias coronárias no país. Defendeu ainda que a actual transição demográfica e epidemiológica está a aumentar a pressão sobre o Sistema Nacional de Saúde, tornando indispensável o reforço dos cuidados de saúde primários.
Adicionalmente, Ussene Isse defendeu a necessidade de expandir a formação de especialistas moçambicanos e incentivou o ICOR a avançar para a certificação internacional de qualidade ISO, aproveitando o legado de transferência de conhecimento deixado por cirurgiões de renome mundial.
Ao comentar a discrepância entre os números oficiais e a prevalência real das doenças cardiovasculares nas comunidades, o ministro partilhou resultados de rastreios recentes que evidenciam a dimensão do desafio preventivo.
“Acho que os números apresentados ainda estão longe de reflectir a realidade. Recentemente realizámos uma feira de saúde numa comunidade e constatámos que quase 90% das pessoas rastreadas apresentavam hipertensão arterial sem sequer terem conhecimento disso. Temos pela frente um enorme desafio decorrente da transição epidemiológica e demográfica, que terá um impacto significativo sobre o sistema de saúde”, afirmou.



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