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O antigo vice-primeiro-ministro de Portugal e especialista em relações internacionais, Paulo Portas, defendeu esta quinta-feira, em Maputo, uma abordagem diplomática discreta para pôr fim ao conflito armado em Cabo Delgado, sustentando que a paz exige diálogo, conhecimento e trabalho persistente, longe da exposição pública.
Portas falava à margem de um encontro dedicado à economia e à agricultura, onde destacou que a estabilização da província é determinante para o desenvolvimento económico de Moçambique e para a recuperação da confiança dos investidores.
“É preciso trabalhar para reduzir e, se possível, fazer desaparecer as fontes desse conflito. Cabo Delgado é uma província essencial para o desenvolvimento de Moçambique. Já houve momentos muito duros, mas a verdade é que já há investidores que regressaram, e isso é um bom sinal”, afirmou.
O político português defendeu que os processos de paz devem decorrer de forma reservada, alertando que a diplomacia não se faz através das redes sociais nem da exposição mediática.
“É preciso trabalhar discretamente, porque a diplomacia não faz as pazes por ‘posts’ ou por impulso. Implica muito trabalho, conhecimento e persistência. Um dia isso acontecerá, para o bem de Moçambique”, declarou.
Paulo Portas aproveitou a ocasião para alertar para os efeitos económicos dos conflitos internacionais, apontando o impacto da instabilidade no Médio Oriente sobre os mercados globais de energia.
Segundo explicou, o estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do comércio mundial de petróleo e gás, tem registado uma forte redução do tráfego devido às tensões na região.
“Pelo estreito de Ormuz passam cerca de 20% do petróleo e 25% do gás consumidos no mundo. Antes do conflito transitavam cerca de 135 navios por dia; hoje passam apenas entre 10 e 15. O preço do petróleo estava pouco acima dos 60 dólares por barril e agora ultrapassa os 90 dólares. Quem aposta nos conflitos acaba por sentir as consequências, porque até o consumidor americano está a pagar a gasolina e o diesel muito mais caros”, referiu.
“Moçambique está a virar a página”
Na sua análise, Paulo Portas considerou que Moçambique pagou um preço elevado pela instabilidade em Cabo Delgado, mas acredita que o país está numa fase de recuperação económica.
“Moçambique pagou um preço muito elevado do ponto de vista económico pela instabilidade que viveu há alguns anos. Está finalmente a sair de uma posição recessiva e a instabilidade gera pouca confiança, reduz o investimento e provoca recessão. É preciso virar essa página, ser inclusivo e procurar ouvir todas as partes. Acredito que Moçambique vai caminhar para melhor e tem um Presidente que sabe o que quer”, concluiu.
Importa referir que, a província de Cabo Delgado, na zona norte de Moçambique, enfrenta desde 2017 uma insurgência armada que provocou milhares de mortos, mais de um milhão de deslocados e uma grave crise humanitária. O conflito desenvolve-se numa região rica em recursos naturais, sobretudo gás natural na Bacia do Rovuma, além de rubis, grafite e outros minerais estratégicos.



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