A Frelimo de Chapo tem a oportunidade de discutir os elefantes na sala

EDITORIAL
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A Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, anunciada para este mês, não deveria ser apenas mais um momento de reafirmação da unidade partidária, de alinhamento das estruturas ou de preparação das próximas batalhas políticas. Num partido que reivindica experiência, implantação nacional e maturidade acumulada ao longo de mais de cinco décadas, este encontro deve servir, sobretudo, para fazer aquilo que as organizações maduras não podem temer. Desde discutir de frente os problemas, incluindo os elefantes que estão na sala.

A maturidade de um partido, de um Governo ou de um Estado não se mede pela capacidade de produzir unanimidades. Mede-se pela qualidade do contraditório, pela coragem de reconhecer erros e, principalmente, pela capacidade de corrigir decisões quando os resultados demonstram que o caminho escolhido não está a funcionar.

Há matéria suficiente para esse debate.

As reformas em curso constituem um bom ponto de partida. O Governo prometeu fazer diferente, racionalizar estruturas, reduzir custos e tornar o Estado mais eficiente. Mas algumas mudanças começam a transmitir a percepção de que estão a produzir mais oportunidades para substituir actores e acomodar novos protagonistas do que propriamente para resolver os problemas que justificaram as reformas.

A LAM é um dos elefantes. Há anos que a companhia passa por mudanças de modelos de gestão, administrações, parceiros, planos de recuperação e sucessivas promessas de estabilização. O problema, contudo, continua diante do país. Com sinais claros de delapidação escondida na vitimização de perseguição, uma excelente forma de se auto blindar. O INSS e a forma como os recursos da segurança social são mobilizados para diferentes projectos também merecem discussão séria, sobretudo perante as novas responsabilidades que poderão recair sobre a instituição.

A pergunta que a Conferência de Quadros deveria colocar é simples: Estamos realmente a fazer diferente para alcançar resultados diferentes? É precisamente aqui que os quadros podem ser úteis ao Presidente da Frelimo e da República. Uma liderança pode ter boas intenções e, ainda assim, receber uma fotografia incompleta da realidade. Os filtros criados pelas estruturas hierárquicas tendem, muitas vezes, a transformar problemas em sucessos, dificuldades em “desafios” e insatisfação popular em números confortáveis apresentados em relatórios. Uma Conferência de Quadros não deveria reproduzir esses filtros.

Deveria quebrá-los.

Quadros provenientes dos distritos, empresas, universidades, instituições públicas e comunidades podem oferecer à direcção uma dimensão do país que dificilmente cabe nos briefings oficiais. Podem explicar como uma determinada política desenhada em Maputo chega, ou não chega, ao cidadão.

Como se escreveu na semana passada, a propósito da anunciada prova oral dos ministros, por vezes é mais esclarecedor perguntar ao beneficiário como está o ministério do que perguntar ao próprio ministro. O governante conhece programas, metas e estatísticas. O cidadão conhece o resultado. É dessa diferença que pode fazer nascer uma Conferência de Quadros verdadeiramente útil.

A Frelimo tem uma oportunidade para demonstrar que maturidade não significa ausência de divergências e muito menos transformar reuniões em espaços destinados a carimbar orientações previamente definidas pelo presidente ou pelos órgãos máximos. Um partido maduro deve conseguir questionar-se sem transformar a crítica em indisciplina e discordar sem confundir divergência com deslealdade.

Se os quadros forem chamados apenas para confirmar aquilo que a direcção já pensa, teremos uma conferência à medida da Frelimo que até conhecemos. Mas se forem chamados para dizer aquilo que a direcção talvez não esteja a ouvir, poderemos ter um retrato real do país.

E talvez seja precisamente disso que a Frelimo mais precise neste momento.

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