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- Domingos Tivane abre feridas, mas esqueceu que tem telhado de vidro
- Domingos Tivane denuncia corrupção e falta de coragem na FRELIMO, mas não é santo
Protagonizou um dos momentos mais disruptivos da 11.ª Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO, realizada em Chimoio, província de Manica, entre 21 e 23 de Agosto de 2026. Domingos Vasco Tivane, antigo director-geral das Alfândegas de Moçambique e actual magnata do ensino privado e da indústria imobiliária, tomou a palavra e, sem filtros, criticou a corrupção, a arrogância e a falta de coragem no seio do partido no poder. O seu discurso foi ovacionado dentro e fora da FRELIMO, tendo repercutido imediatamente nas redes sociais. Mas, como já diz o provérbio, “quem tem telhado de vidro não deve atirar pedras”, não tardou para que o seu passado voltasse para o assombrar. Durante muitos anos, Tivane exerceu o cargo de director-geral das Alfândegas, uma das instituições consideradas altamente corruptas. Foi nesse posto que, segundo o que se diz nos corredores do poder e nos meios de comunicação, acumulou uma fortuna que não condiz com o salário de um dirigente da função pública.
Reginaldo Tchambule
Domingos Tivane escolheu a XI Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO, realizada de 21 a 23 de Agosto, em Chimoio, província de Manica, para fazer aquilo que poucos dirigentes do partido no poder têm ousado fazer em público: apontar o dedo à própria casa.
“Se não houvesse corrupção, esta reunião já tinha terminado há muito tempo. Se não houvesse arrogância, esta reunião também já teria terminado há muito tempo. Nós estaríamos a discutir apenas o que estão a desenvolver, mas estamos a dar algumas voltas”, disparou Tivane, num dos grupos de trabalho, enquanto era filmado clandestinamente por um dos seus camaradas, que viria mais tarde a inundar as redes sociais.
O seu discurso foi amplamente ovacionado dentro e fora da FRELIMO, tendo repercutido imediatamente nas redes sociais. O veterano de 70 anos, como ele próprio fez questão de sublinhar, já não teme as consequências.
“O que vou dizer pode parecer um suicídio. Mas, como já tenho mais de 70 anos, não estou muito preocupado”, afirmou.
Tivane foi directo ao exigir o fim das “renúncias” silenciosas que, no seu entender, escondem os verdadeiros motivos do afastamento de dirigentes e alimentam a desconfiança popular.
“O partido em que foi eleito não pode compactuar com situações feias. […] Temos que dizer ao povo por que este dirigente foi desmontado claramente”, exigiu.
No final, Tivane apelou aos membros do partido para que deixem o Presidente da República e da FRELIMO, Daniel Chapo, trabalhar, defendendo uma maior aposta nos jovens. Aqui abriu feridas profundas ao se referir à Comissão Política que, no seu entender, é obsoleta.
“Vamos deixar o camarada Presidente Chapo trabalhar. É jovem. Deve trabalhar com jovens. Camaradas, a Comissão Política já está cansada”, concluiu, num discurso que deixou muitos camaradas da Comissão Política com os nervos à flor da pele, levando à abertura imediata de trincheiras e à realização de reuniões clandestinas.
A estratégia foi clara: revirar o passado de Domingos Tivane e trazer à ribalta os seus pecados. Foi daí que, imediatamente, começaram a cair como cogumelos nas redes sociais textos de várias ordens, com uma lista de alegadas improbidades e questionamentos sobre o seu património milionário, construído, curiosamente, quando era servidor público e a instituição que dirigia, as Alfândegas, era referenciada, dentro e fora de Moçambique, como um antro de corrupção.
O homem que pede coragem já foi acusado de receber subornos
Foi com tom de pregador e rosto de justiçado que Domingos Vasco Tivane, antigo director-geral das Alfândegas, subiu ao palanque da Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO, em Chimoio, para exigir “coragem” dos camaradas. Mas o homem que hoje prega a santidade já foi acusado de receber subornos e de ter construído um património multimilionário com recurso à corrupção.
Há mérito político no facto de um veterano da FRELIMO reconhecer publicamente que existem problemas de corrupção, arrogância e falta de responsabilização no partido. Mas há também uma ironia difícil de ignorar. O homem que, em 2026, pede transparência e responsabilização foi, em 2010, apresentado em documentos diplomáticos norte-americanos como alguém alegadamente envolvido na pressão sobre empresários para obtenção de subornos.
Naquele ano, quando ainda dirigia as Alfândegas de Moçambique, o seu nome apareceu no WikiLeaks. Num telegrama da Embaixada dos Estados Unidos em Maputo, datado de 28 de Janeiro de 2010, uma fonte empresarial não identificada, citada pelos diplomatas norte-americanos, apontava Tivane como um dos actores que alegadamente pressionavam a comunidade empresarial para obter subornos ou participações percentuais em negócios.
O documento é ainda mais grave. Segundo a fonte citada no telegrama, Tivane “pedia abertamente” e recebia subornos de importadores. A mesma fonte chegou a relatar aos diplomatas norte-americanos que um empresário teria observado supostas torneiras de ouro na residência de Tivane quando ali se deslocou para entregar um suborno.
Em 10 de Dezembro de 2010, a Lusa confrontou Domingos Tivane, que se mostrou “surpreendido” com as informações divulgadas pelo WikiLeaks. Na ocasião, Tivane disse estar desligado dos meios de comunicação social e remeteu os comentários aos serviços diplomáticos norte-americanos em Maputo.
Mas a polémica não terminou em 2010. Em 2011, o jornal A Verdade voltou a publicar informações provenientes dos telegramas diplomáticos divulgados pelo WikiLeaks. Numa edição de Setembro daquele ano, um empresário e antigo deputado é citado como tendo descrito Tivane como “rei da corrupção”, acusando-o de estar associado a um sistema em que funcionários dos portos e das Alfândegas eram facilmente corrompidos.
Do fantasma do WikiLeaks ao dono de império invejável
Em 2013, o mesmo jornal voltou ao assunto, questionando a origem do património que, segundo a publicação, o então antigo dirigente aduaneiro havia acumulado. Já dava sinais exteriores de riqueza que não condiziam com o salário de um simples funcionário público.
Tivane é dono de um património imobiliário invejável na capital do país, na Matola e no distrito de Boane. É proprietário da Universidade Unitiva (UniTiva), anteriormente Instituto Superior de Tecnologias e Gestão (ISTEG), um imponente campus que ocupa mais de um quarteirão no afamado bairro Belo Horizonte, na província de Maputo.
A instituição, que começou com 20 salas de aula, conta actualmente com cerca de 78 salas, uma biblioteca com capacidade para 500 pessoas e um universo de 250 docentes. Possui cinco faculdades, escola secundária, posto médico, residências estudantis e uma frota de autocarros para o transporte de estudantes.
Curiosamente, a sua considerável frota de autocarros para estudantes coincide com as mesmas marcas que eram importadas pelo Estado durante o período em que ele era director-geral, o que levanta suspeitas de que tenha usado o cargo para obter aqueles meios.
É também citado como proprietário de um superedifício localizado na Rua 1.109, próximo da Avenida Paulo Samuel Kankhomba, atrás do mercado Janet, actualmente arrendado ao Programa Mundial de Alimentos (WFP/PMA), bem como de outros imóveis, incluindo condomínios e centros comerciais, na Costa do Sol, Sommerschield e Boane.
Autoridade moral questionável e perguntas sobre a sua própria riqueza
As intervenções de Domingos Tivane sobre corrupção e governação começam a provocar reacções dentro e fora da FRELIMO. No seu habitual espaço de comentários na MBC TV, o decano do jornalismo, Salomão Moyana, não teve palavras a medir, questionando o facto de este afirmar que passou a falar abertamente apenas agora, depois de atingir os 70 anos, mas, sobretudo, a origem da sua riqueza.
Moyana também recuperou o percurso de Tivane na administração pública e levantou dúvidas sobre a dimensão do património acumulado durante e depois do exercício de funções públicas.
“Ele próprio participou de muitas falcatruas ao longo da história. Foi director-geral das Alfândegas e acumulou um vasto património imobiliário. Tem escritórios, edifícios, universidade. Tudo isso construído por um funcionário público que era director das Alfândegas. Num país normal, isso não é permitido”, afirmou.
Moyana sustenta que a questão deve ser analisada à luz da função exercida por Tivane, uma vez que as Alfândegas administram uma área directamente ligada à entrada de receitas para os cofres do Estado.
“Um funcionário que está a gerir a entrada de dinheiro para o Estado ter um património superior ao de vários sectores do Estado é algo que precisa de ser visto”, defendeu.
Para Moyana, a declaração de que perdera o medo por ter atingido os 70 anos levanta uma questão: se havia receio de falar sobre determinados problemas durante décadas, por que razão esse silêncio só é quebrado agora?
“Tem medo de quê? Quer dizer que ele ficou esse tempo todo, até aos 70 anos, a haver problemas e não falava?”, questionou o jornalista.
Já a membro do partido, Artimiza Magaia, entende que, antes de assumir o papel de crítica do sistema, Tivane deveria explicar como construiu o património que hoje ostenta, sobretudo tendo em conta que ocupou o cargo de director-geral das Alfândegas, uma das instituições mais estratégicas na arrecadação de receitas do Estado.
Magaia considera que, sendo actualmente empresário e proprietário de uma instituição de ensino superior, Tivane tem uma oportunidade de transformar a sua própria trajectória num exemplo de transparência, explicando publicamente a origem e o processo de acumulação da sua riqueza.
“Domingos Tivane é dono de uma instituição de ensino superior e foi director das Alfândegas. Ele também poderia provar como é que chegou a tal riqueza que tem hoje. É um grande empresário e pode mostrar como multiplicou o dinheiro. Todos sabemos o que acontece nas fronteiras. Ele foi director-geral das Alfândegas. Então, pode mostrar como construiu a sua riqueza”, defendeu Artimiza Magaia, corporizando o sentimento de alguns membros da Comissão Política, que se viram tocados pelas palavras de Tivane.



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